Mar de diamantes

Josimar Oliveira
Sep 1, 2018 · 7 min read

Tocava Sonic South — Diamond Sea no fone enquanto Jorson dava voltas e voltas pelo mercado todo. Já tinha passado umas dez vezes por todas as sessões. O mercado estava quase fechando, ele empurrava o carinho e desviava das poucas pessoas automaticamente. Dentro da sua cabeça ecoava as distorções das guitarras de Thurston More e Lee Ranaldo‎. O cansaço e aquela música estava o fazendo entrar num transe muito louco. Todas aquelas cores, todos aqueles sabores, o frio do ar condicionado batendo contra sua pele. O cheiro das frutas com agrotóxicos entupia seu nariz.

Entrou na sessão de biscoitos. Eram tantas opções, tantas cores que ele não sabia o que levar. Gostava tanto de trakinas chocolate, saudades da edição especial sabor banana. Uma gordinha linda com camisa de treinamento arrumava os passatempos que estavam em promoção. Ele chegou perto para pegar um pacote quando ela se virou e olhou diretamente nos seus olhos. Eram os olhos mais cansados e tristes que ele já tinha visto. Ele sorriu e os grandes olhos azuis dela sorriram de volta. Seus olhos tinham o brilho fosco de um pássaro na gaiola. Ela pegou um pacote de passatempo de morango e entregou para ele. No exato momento em que as duas mãos seguravam o pacote, a luz do mercado se apagou. Na escuridão total ouviu ela dizer — “Normal, daqui a pouco volta”.

A luz voltou de fato, mas as outras pessoas que estavam na sessão não voltaram. Só restaram os dois no mercado. As prateleiras a pouco cheias, agora estavam vazias. Ouviu passos pesados e lentos se arrastando. Ao olhar para frente, um monstro de mais do tamanho de uma pessoa se arrastava e fazia barulho de embalagem amassada. Composto dos pacotes de biscoito fundidos, aquela massa de glúten e plástico se aproximava ameaçadoramente deles.

— Corre, corre! — Disse Jorson segurando a mão da loirinha de olhos azuis.

Ouviu o baque do monstro socando a prateleira vazia. E depois o som da madeira que ele tinha jogado nos dois quebrando no vidro da sessão de frios. Entraram na sessão de limpeza onde se depararam com um monstro bolha de sabão enorme tapando a passagem. Seu rosto de dor tentava falar alguma coisa, mas só saía bolhas de sabão da sua boca que quando estouravam faziam o som irreconhecível e ensurdecedor de vários animais urrando de dor.

Voltaram pelo chão escorregadio e ao sair daquela sessão o monstro biscoito já os esperava. Deram meia volta e entraram em uma câmera frigorifica.

O rapaz fechou a pesada porta. Fazia um frio intenso.

— Meu deus, que porra que tá acontecendo?? — Perguntou Jorson soltando fumaça pela boca.

— Não sei e não acredito que essas coisas só acontecem no meu turno. Faltava tão pouco pra eu bater o cartão. — Disse a loirinha desconsolada depois de uma jornada de onze horas de trabalho.

— Qual seu nome? — Perguntou o rapaz de cabelos cacheados.

— Amanda, e o seu?

— Jorson. Então Amanda, nós precisamos sair daqui.

— Não diga.

— Eu até gostaria de passar a noite aqui com você, que nem naquele filme mas com aqueles monstros lá fora não vai ser legal.

— E qual o plano? — Perguntou a menina tremendo de frio.

— Vamos para a porta de saída.

— Não dá, tem aqueles bichos lá fora tapando a passagem.

— Verdade.

— Já sei! Tem a saída do estoque por onde chega a mercadoria. Dá pra chegar lá pelo escritório do gerente. Ele fica no fundo do mercado. — Disse Amanda.

— Perfeito, vamo então.

Ao terminar de dizer isso, ouviu um grunhido alto e poderoso. Em direção a eles vinha vindo um monstro hibrido feito das carnes que deveriam estar pendurados naquela câmera em um dia normal. O monstro tinha a cabeça de porco, o tórax feito das costelas de boi. E as patas que se assemelhavam a mãos e pés humanos eram uma massa de carne sangrenta e gordurosa. Aos pés dele, um pequeno exército de frangos resfriados vinha vindo cambaleando para cima do casal.

Jorson abriu a porta da câmera e os dois saíram correndo para o lado oposto dos outros monstros. Ao passar pela sessão de brinquedos viram as bonecas rasgarem suas embalagens falando coisas em chinês que mais pareciam pedidos de socorro misturados com choro de criança. Ao passar pela estilhaçada sessão de frios, as peças de presunto chafurdavam no queijo derretido. As peças de mortadela latiam como cachorro e rolavam no chão comendo umas às outras. Jorson sentiu uma dessas peças de mortadela morder seu pé. Amanda se adiantou e deu um bico no monstro que voou longe e caiu perto do monstro bolha de sabão. O cão mortadela derreteu como isopor no contato com os produtos químicos.

Chegaram no escritório e fecharam a porta.

— Essa porta aqui que dá pro estoque. — Disse Amanda tentando abrir a porta que estava trancada. — A chave deve estar em alguma dessas gavetas.

Jorson abriu a gaveta da escrivaninha e pegou a chave, uma lanterna e também uma pistola que deveria ser dos seguranças.

— Olha essa belezinha que eu achei.

— Você sabe usar isso? — Perguntou Amanda.

— Claro que não! Mas aprendo na hora.

Entraram no estoque, escuridão total novamente. A potente lanterna iluminava os corredores de produtos. Um labirinto de secos e molhados. Vire e mexe algum saco de arroz ou feijão se mexia e fazia um barulho grotesco. Como se alguém estivesse preso dentro do saco, pedindo ajuda sem conseguir respirar.

Andaram um belo tempo naquelas ruas até encontrarem a porta dupla por onde entra as mercadorias, mas estava trancada também.

— Agora fudeu de vez! — Disse Jorson tentando abrir a porta na força.

— Jorson? Jors..? O que é aquilo ali? — Disse Amanda apontando para cima.

— QUE PORRA É ESSA, MALUCOOO??

A lanterna apontava para o teto do estoque onde estava terminando de se formar um enorme monstro feito dos produtos ensacados. Era literalmente uma cesta básica gigante. E o que o monstro tinha de grande ele tinha de lento. Jorson ainda tentou atirar nele com a arma, mas foi em vão. O monstro levantou o gigante braço o deixou cair causando um pequeno terremoto no ambiente. Amanda puxou os dois para o lado e por pouco o casal não era esmagado pelo golpe.

Correram em direção a entrada do escritório. O monstro gigante vinha destruindo tudo atrás deles. Passaram pelo escritório e saíram novamente no mercado. Entraram na sessão de bebidas. Logo após passarem correndo pelas coca colas, todas as latinhas e garrafas de refrigerante foram se estourando saindo de dentro delas um mar de ratos que faziam um grunhido ensurdecedor.

Eles corriam em direção a porta de saída, mas ao chegar viram que porta estava trancada também. Jorson tentou dar um tiro, mas o vidro era temperado e a prova de balas. Estavam encurralados. De um lado o monstro bolha e de outro o monstro biscoito, os ratos das cocas vinham vindo como um cardume de peixes podres. A cesta básica gigante vinha quebrando o teto, as luzes e tudo que via pela frente. Os dois sentaram no chão e se abraçaram. O mar de ratos os engolira.

O celular de Jorson caiu no chão, começou a tocar novamente Diamond Sea. Os ratos se dissiparam fugindo daquele som cheio de distorções e efeitos. Jorson pegou o celular ainda tocando e apontou para o monstro bolha que logo se estourou. Logo após apontou para o monstro biscoito que deu meia volta e fugiu pelo corredor. Nisso Amanda o puxa novamente para desviar da braçada da cesta básica gigante. Correram e passaram por cima da bolha estourada no chão.

Esbaforidos, pararam em frente a porta da câmera frigorifica. Jorson perguntou:

— Você viu que o som destrói os monstros?

— Vi sim, mas acho que não vai funcionar com o gigante.

— A gente poderia usar esses amplificadores que tocam a rádio do mercado. Onde fica a mesa de som?

— Fica lá no escritório do gerente. Se o monstro não tiver destruído dá pra gente usar.

Foram correndo passando pelos escombros que o monstro cesta básica deixou ao passar. No meio da destruição do escritório, no canto da sala a mesa ainda estava lá intacta. O chão tremia e ouvia-se os passos do monstro se aproximando.

— Como você vai ligar isso aí? — Perguntou Amanda enquanto via o a silhueta da cabeça do monstro pelo buraco no teto.

— Deve ter algum cabo auxiliar por aqui. — Disse Jorson puxando vários cabos da mesa de som.

O monstro gigante levantou o braço lentamente para destilar o golpe mortal. Amanda pegou a arma da cintura de Jorson e descarregou no monstro sem surtir efeito. O braço enorme de arroz e feijão descia lentamente para o golpe fatal.

— AQUI, ACHEI!! — Disse Jorson colocando o pino P2 no celular e aumentando no talo o botão de volume da mesa.

Todas as caixas de som do mercado tocaram ao mesmo o som azul daquelas guitarras distorcidas e barulhentas que chacoalhavam ao mesmo tempo sob uma linha de baixo frenética e pesada. O monstro gritou de dor, colocou a mão nos ouvidos tentando se proteger da onda de som e explodiu como se fosse um diamante em zilhões de pedaços pelo ar. Chovia grãos de arroz, feijão, milho e tudo que tinha naquela sacaria.

A luz se apagou novamente, a escuridão se misturava com o noise do final da música.

Ao voltar a luz, os dois estavam abraçados no chão do escritório que estava normal e arrumado como era antes. Ouviram a porta abrir.

— Amanda, o que você tá fazendo aqui? Te procurei o mercado inteiro. Já fechamos até a porta da frente — Disse o gerente olhando com cara de blasé. — Quem é esse aí? Seu namorado? Vocês podem conversam lá fora que agora eu só quero ir pra casa. E não esquece de bater o cartão.

Ao passar pela sessão de biscoitos viram o pacote de passatempo no chão, tudo estava como antes.

— Meu deus, o que que foi isso? Será que foi tudo um sonho?

— Não sei, mas acho que eu vou pedir demissão. Não ganho o suficiente pra isso, fora que esse tempo todo nem vai para o banco de horas. — Disse a menina com cara de cansaço extremo.

— E eu nunca mais como biscoito nenhum.

Os dois saíram pela portinha do mercado. Os últimos clientes colocavam suas compras nos porta mala dos carros. Um funcionário recolhia os carrinhos que o povo deixava pelo estacionamento. O céu muito limpo e estrelado brilhava como um mar de diamante.