Vagão rosa
Sexta-feira, seis da tarde. Fazia um calor infernal e abafado como sempre. O trem da supervia andava com as portas abertas para as pessoas não cozinharem dentro dos vagões. Mariana trabalhava como cuidadora de idosos na Tijuca. Dormia a semana inteira lá e só voltava para casa nas sextas a noite. Como vagão rosa estava lotado e não cabia mais ninguém, Mariana então teve de ir em pé no vagão misto para homens e mulheres.
Segurava a barra de segurança com uma mão e com a outra segurava a mochila cheia de coisas que usava na semana. Toda hora um engraçadinho se aproveitava da superlotação para esbarrar propositalmente na sua bunda. Estilo gordinha violão, peitos pequenos e bundão. Deixava os homens loucos por onde passava. Evitava até usar roupas mais justas para não chamar atenção. Estava cansada e só queria ir para casa descansar sem pensar na segunda feira que já iria chegar. Finalmente a pessoa sentada a sua frente desceu na Estação Parada de Lucas e ela pode finalmente sentar um cadinho.
O homem do seu lado abriu as pernas, enquanto ela se encolhia no banco abraçada a mochila cheia de roupas. E para piorar o cara começou a puxar assunto.
— Tá calor, né?
— É né. — Respondeu Mariana, sem olhar diretamente para ele.
— Você é de onde?
— Pra que você quer saber? — Mandou logo na lata.
— Por nada, é que eu acho que já tinha te visto em algum lugar.
— Ata… — Mariana respondeu tentando encerrar aquela conversinha mole.
— Você é casada?
— Sou sim. E meu marido é ciumento!
— Mas então porque você não usa aliança?
— Aahh moço, o senhor vai me desculpar mas é que eu trabalho a semana inteira, tô cansada e só quero ficar quietinha aqui.
— Tudo bem.
— Ata, brigada.
20 SEGUNDOS DEPOIS:
— Mas é que eu queria dizer que você é muito linda.
— Affzzz…. — Disse Mariana revirando os olhos.
— Eu também sou casado. Mas meu casamento já não anda bem faz tempo, somos uma farsa. Nós só brigamos e vamos nos separar. Você é muito linda eu nunca senti isso por ninguém, acho que eu me apaixonei à primeira vista. Nunca traí minha esposa.
Mariana olhava com aquela cara de “meu deus do céu, que cara chato do caralho”. Tentou achar um lugar para fugir, mas o vagão estava lotado e ela estava com a mochila pesada. Não tinha como andar dentro do trem e muito menos mudar de banco. Estava presa e cercada por vários homens talvez piores que aquele. Começou a rezar para chegar logo a estação onde iria descer.
— Eu só queria te pedir um beijo.
— Moço, cê tá louco? Eu sou casada! — Disse Mariana incrédula com o pedido.
— Caô. Né nada, nem aliança você usa.
Mariana não sabia nem o que responder. Depois de uma semana inteira limpando bunda de idoso e aguentando frescurada de uma classe média que acha que é rica, você não espera ser assediado e chamado de mentiroso na cara dura, durante a volta pra casa.
— Então me passa o seu zap pra nós poder conversar melhor. — O infeliz continuou insistindo.
— Moço, você tá pirado é? Eu não vou te dar meu número. Eu nem te conheço!
— Ouh morena, o que você tem de linda você tem de difícil hein! Mas é assim que eu gamo mesmo!
Quanto mais Mariana se encolhia na cadeira mais ele se achegava perto dela com aquele lenga lenga sem fim. Ela sentia o ar que saía das palavras dele invadir suas narinas. Aquele cheiro de desodorante vencido mais o balançar nada suave do trem estava lhe causando náuseas e nojo. Sua cabeça doía, seu estomago revirava. Já estava se preparando para vomitar na cara do sujeito quando uma voz feminina saindo do autofalante anunciou:
PRÓXIMA ESTAÇÃO: DUQUE DE CAXIAS
NEXT STATION: DUKE OF CAXIAS
“Aleluia!” Pensou Mariana se levantando.
— Moço, dá licença que eu vou descer aqui.
— Olha que coincidência, eu também vou descer aqui em Caxias. Bem que eu sabia que te conhecia de algum lugar.
Ela saiu do vagão a passos rápidos e ele foi a acompanhando sem cerimônia nem constrangimento algum. Insistindo para ela dar o número de telefone. Enfim Mariana perdeu a paciência.
— CARALHO, JÁ NÂO FALEI QUE SOU CASADA PORRA!! PARA DE ENCHER O SACO! EU NÃO VOU TE DAR NUMERO NENHUM, SAI DAQUI SE NÃO EU VOU CHAMAR POLICIA!
— Aahh é? Aah é? então vai pra lá então! ouh piranhona, nem queria essa buceta gorda mesmo. Muié é o que mais tem nesse mundo!
— Piranhona é sua mãe, AQUELA PUTA!!
Mariana enfim se livrou do mala e tremendo de raiva foi subindo as escadas da estação em direção ao ponto de ônibus que a levaria finalmente para casa. Enquanto isso o palerma ficou lá na estação a olhando de longe falando consigo mesmo.
— E o pior que ela tinha um rabão mesmo, ooouhh lá em casa!!
Tentando dar uma última olhada na moça que ia embora, foi andando de costas em direção a borda do local de embarque. Sem perceber ultrapassou a linha de segurança do trem e caiu de cara no meio dos trilhos no mesmo instante que o próximo trem chegava. Ainda tentou se levantar mas já era tarde demais. A última coisa que viu foi o primeiro vagão se aproximando tão rapidamente, que não teve nem tempo de gritar. O baque foi tão forte que seu corpo foi destroçado em vários pedaços e sua cabeça foi parar em cima do vagão rosa.
