Zumbi do Calçadão
Calçadão de Caxias. Nas televisões das casas Bahia, a banda Calypso se apresentava no programa da Fátima. Joelma ventirolava seus cabelos loiros como um helicóptero de FAB, enquanto Chimbinha tocava sua guitarra com o feeling do Hendrix. A programação foi interrompida pela fatídica musiquinha do plantão da globo. O calçadão estava lotado e todos pararam para olhar o general falar. Com a bandeira do Brasil a suas costas disse batendo na mesa. “AGORA É GUERRA! NÃO VAMOS DEIXAR ESSES COMUNISTAS TOMAREM CONTA DO PAÍS OUTRA VEZ! MORTE AOS COMUNISTAS! MORTE AOS COMUNISTAAAAS!” Um pequeno grupo de homens brancos também começaram a gritar repetidamente a mesma coisa em frente as smart tv’s de cinquenta polegadas.
Rafael estava lá no meio da multidão assistindo a notícia e comendo pele frita com sal e catchup. Para seu azar, era o único com camisa vermelha no ambiente. Um homem que estava em frente à tevê gritou: “COMUNISTA!!” Os olhos vermelhos dos outros homens miraram como fuzis no rapaz, que só tinha ido ao centro comprar material escolar. As pessoas em volta se afastaram fazendo um círculo em volta dele. Aqueles homens vieram correndo para cima de Rafael.
Preto, pobre, franzino, de óculos e com cordãozinho de ouro da avon no pescoço, ainda tentou argumentar com sua voz levemente afeminada, revelando sua sexualidade e deixando aqueles homens enormes ainda mais enfurecidos. A primeira botinada no estomago fez o saquinho de peles voar longe. Se ajoelhou no chão cuspindo uma bolota de sangue que manchou o calçadão.
Levou um socão na cara tão forte, que a lente dos óculos se quebraram e entraram como gilete no olho esquerdo. Um segundo, ou terceiro, ou quarto, ou quinto socão fez seu olho direito sair do globo ocular ficando amparado apenas pela armação dos óculos que tinha entrado na carne da sua cara. Correu por entre a multidão que não fazia nada. Alguns filmavam mas a maioria apenas observava a morte do inimigo comum. A morte daquele que matou o messias, o salvador da pátria.
Correndo cambaleando sem saber para onde, parou em frente a estátua do Zumbi dos Palmares. Ao se abaixar sentiu a botinada na boca. Deu para ouvir seus dentes quicarem três vezes no chão quente. A sessão de espancamento continuou até aquele ser virar uma massa de carne preta e vermelha no calçadão escaldante. Sussurrou pedindo clemencia com a boca cheia de sangue e vazia de dentes mas ouviu apenas um “QUEIMEM O COMUNISTA!! QUEIMEM O COMUNISTAAAA!!” Amarraram o que restou daquele ser humano na lança que a estátua de Zumbi segurava com as duas mãos para cima. Tacaram fogo como se ele fosse um animal assando na fogueira. Pedaços da sua carne frita caiam no chão molhado, fazendo o chiado de quando a lava encontra com o mar.
Zumbi começou a chorar. Sangue escorria pelos seus olhos de bronze. A estátua começou a tremer, tremer, tremer. Soltou um grito que deu para ouvir no outro lado da estação de trem. Desceu do pedestal com sua lança em punho. Olhou para os agressores que ainda estavam ali atônitos. Enfiou e rodou a lança na barriga do primeiro que gritou alto e caiu morto. O segundo tentou correr mas levou uma estacada no meio da coluna, ficando tetraplégico na hora. O terceiro correu para dentro do Mcdonalds e ao pular o balcão de atendimento, Zumbi o decapitou com a afiada lança de bronze. Fazendo sua cabeça cair dentro do óleo quente que fritava as batatas fritas. O último homem de bem ia fugindo lá ao longe. Zumbi lançou sua arma para o alto como um dardo olímpico, que caiu cravando a cabeça do infeliz no chão daquele calçadão manchado de sangue e ódio.
