Minha amiga gritou e eu acordei

Quando só falamos sem escutar, a vida pode dar muito errado

A gente tava bebendo e fumando na sacada. Era um daqueles finais de semana que faz um super calor em pleno inverno, que a galera acaba aproveitando com todas as forças mesmo sabendo que a segunda-feira tá logo ali com a realidade e uma previsão de chuva e frio intensos. De qualquer forma, o assunto rolava solto. Depois da janta a sobremesa, depois da sobremesa a larica. E no meio disso tudo, entre uma cerveja e outra, o desabafo de uma amiga.

Confesso que antes disso eu já tinha cochilado umas vezes na cadeira, o sono bateu sem avisar. Mas o que ela disse me fez acordar, literalmente e por dentro. Daquelas pauladas que a gente leva no coração. Cansada de amigos que chegam sem avisar, despejam problemas, esperam respostas, e desaparecem quando a vida parece um pouco mais feliz, minha amiga gritou. Ninguém falou nada por um momento, dava pra perceber a exaustão na voz dela. Me pegou de surpresa, não sabia o que fazer e acabei abraçando ela no final.

É que sem perceber fazemos isso algumas vezes. Saímos correndo e colocamos no colo de alguém as nossas maiores frustrações, dúvidas, problemas e dilemas. É tipo um “não quero saber se tu tá disposta, mas me ajuda a resolver aí a minha vida e não, não pode ser amanhã, tem que ser agora”. Quem recebe uma demanda dessas pensa ok, é o papel de amigo. Mas quem disse que tem que ser sempre assim?

Os relacionamentos abusivos podem estar também nas amizades, já parou pra pensar?

Onde tá escrito que a gente tem que tá sempre disponível, gerindo crises sem receber nada de volta. Quem escuta pode estar querendo falar e você, surdo, não percebe.

Nesse domingo, enquanto escrevo esse texto de pijama e de ressaca, penso se já não fiz isso com ela ou outra amiga. Com certeza sim. A gente é meio babaca às vezes. Caguei várias vezes no maiô. Já cheguei lá desequilibrada, chorando, sem perspectiva, fumando cigarros que não fumo, querendo caras que não me queriam. A gente se esquece de pensar mais no outro.

O segredo está na empatia, mas nos afundamos em problemas que achamos que temos. E nesse mergulho de egoísmo não buscamos a superfície pra respirar e perguntar se tá tudo bem com quem está próximo oferendo uma mão amiga. E esse outro pode ser um amigo, uma pessoa da família, seu namorado ou namorada, até seu cachorro.

E sobre a minha amiga? Bom, resolvemos o problema dela justamente ouvindo o que ela tinha pra dizer. Contribuindo com conselhos construtivos do tipo “foda-se” e “que merda isso”. Abrimos um espumante pra brindar a amizade, aos reencontros, aos amigos que se formaram, àqueles que voltaram a estudar, à vida. E que a gente possa estar junto uns dos outros, de verdade.