Papa-léguas

Eram 2 cachorros 1 gato e alguns móveis velhos na caminhonete. O carro velho (corsel), o qual eu tinha muita vergonha de empurrar quando quebrava, sempre no meio da avenida, tinha sido vendido pra dar algum tipo de impulso na nova vida, na cidade grande. A gente tinha tudo pra dar errado, muito embora ainda não sei se quando der certo seremos avisados. Dentro daquela caminhonete além dos cachorros e o gato (que estava dentro de duas caixas de papelão e no meio da viagem, como um defunto, colocou o braço pra fora na tentativa de fugir daquilo que tinha tudo pra dar muito errado) tínhamos um braço quebrado, e dois olhos que já não podiam mais ver o que estava ao seu redor. Tinha eu também, com 14 anos, afinal de contas, alguém tinha que segurar o gato.

Eu amava uma novela da rede globo, acho que toda novela que retratava algum outro país para mim era como se eu provasse um pedaço do que sempre foi meu. Eu já tinha a coragem da “Sol” da novela América, e passava às noites pensando o que era um “coiote” se não o animal do desenho do papa-léguas, e aí a imaginação viajava… Era eu sendo carregado pelo coiote, mas o coiote sempre queria matar o papa-léguas, mas valia a pena o risco, nas minhas ideias eu poderia me safar assim como o papaléguas, eu era o papa-léguas.

Mas ainda falando sobre novelas, a televisão queimara com duas semanas naquela casa úmida. Na época, o sucesso da vez era “Caminho das Índias”, e já eram os últimos capítulos. Haha, ninguém mais dava bola para aquela televisão de 14 polegadas, mas como só o tubo de imagem tinha queimado, eu ficava escutando como se fosse um rádio e imaginando o que estava acontecendo, afinal de contas eu já tinha um bom referencial teórico para supor o que os atores estavam fazendo. Eu não vi o casamento de Raj e Maya mas escutei tudinho…

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