Um Olhar Além dos Jardins
Personagens reais que habitam e circulam pelo bairro de Pinheiros e entorno — São Paulo — Capital
Capítulo 19º — bandeiras vermelhas, policia e lixo
No micro universo da praça o observador atento descobre as contradições e paradoxos dos habitantes da cidade. Diante da entrada do metrô um grupo de jovens militantes do Greempeace alerta para a destruição do meio ambiente e a poucos metros dali o acumulo de lixo se espalha de forma assustadora, alimentado constantemente pela população que atira seus detritos na rua. A imagem do bueiro entupido de lixo é um alerta desesperado ignorado por todos.
Mas há quem se interesse pelo lixo, como aquele morador de rua que vai vasculhando todas as lixeiras da rua em busca de latinhas de cerveja, bitucas de cigarro ou restos de comida. O lixo é a base de sua sobrevivência.
Desde cedo há grande agitação na praça. Muitos veículos e motos da policia se posicionam estrategicamente pelo local e policiais da tropa de choque desembarcam de um caminhão que acabou de chegar. No outro extremo várias pessoas vão chegando vestidas com camisetas vermelhas e portando bandeiras da mesma cor. A movimentação é grande na saída do metro, aonde mais pessoas vão chegando aos grupos que seguem para juntar-se a aglomeração que começa a se formar, sempre gritando palavras de ordem contra o governo. Logo a praça estará totalmente tomada pela multidão que se concentra diante de um carro de som.
Como se atendessem a um chamado, dezenas de ambulantes vão surgindo de todos os lados, carregando caixas de isopor com cervejas, refrigerantes e água mineral, outros montando barraquinhas com bebidas alcoólicas e alguns até fazendo churrasco.
A movimentação é grande e prosseguirá até quase o anoitecer, quando os últimos manifestantes seguirão em direção à estação do metrô carregando suas bandeiras, os ambulantes contabilizarão seus lucros e o todo aparato policial voltará para os quartéis.
Distante de todos esses acontecimentos, uma nova personagem se faz presente pelos arredores. Uma mulher negra trajando uns farrapos enegrecidos pelo uso que mais parecem uma camuflagem no meio do lixo. Talvez por ser constantemente expulsa, não tem um lugar fixo para ficar. Seu mau cheiro mantém as pessoas a distancia e uma de suas atividades é caçar piolhos em sua cabeça. As vezes senta-se no meio fio, correndo o risco de ser atropelada pelos pesados ônibus articulados, mas parece não se importar com o perigo. Vive proferindo impropérios assustando os passantes e é ignorada e desprezada por todos, inclusive pelos órgãos sociais da prefeitura. Durante a noite quando dorme na rua, confunde-se com um amontoado de lixo.