Sobre a moral, o mercado, o voto e o monopólio

Parte I de V

Há alguns tempo entrei em um debate com um amigo no que tange ética, estado e anarcocapitalismo. Por conta do tempo, minha resposta não podê ser dada e então escrevi este texto, que veio com o intuito de responder alguns pontos das objeções dele e de outros.
Pretendo ao longo do texto esclarecer alguns pontos e colocar outros em debate.

Nos últimos séculos, a filosofia se moldou sobre um prévio estudo da moral, categoricamente da ética, que desde os gregos é um ponto essencial em nossas vidas públicas e privadas.
Acredito que, invariavelmente, quem está lendo este texto supõe que existe uma moral objetiva e imutável, e sim, existe. Essa moral, atemporal e única, perpassa o estado e o mercado e tanto um quanto outro dependem dela. 
A diferença clara que deve ficar aqui é: O estado, diferente do mercado, se apropria da moral para si como se fosse o próprio Deus (estatolatria) e/ou a molda ao seu belprazer chegando ao ponto de subjetiva-la.

Para ficar claro, suponhamos que uma criança de 9 anos criada por uma família ocidental judaico-cristã sabe muito bem que existe o certo e o errado e que o errado é passível de punição.
Essa criança sabe, assim como a maioria das pessoas, que roubar é errado. Claramente porque o fruto do trabalho de alguém não deve ser vilipendiado por terceiros e apenas ela ou quem ela autorize voluntariamente devem desfrutar do resultado de seu trabalho.
Mas quando se defende imposto, não é justamente o contrário disso que esta criança aprendeu? Sim, é!

Imposto é cristalinamente um assalto, pois usa da estratagema coercitiva para retirar o resultado do trabalho de terceiros. E mesmo que este traga algum tipo de “retorno”, é um roubo! Um indivíduo pacífico teve parte de seus bens confiscados por outrem por conta do poder coercitivo e punitivo deste bandido que é o Estado. [1]

Darei outro exemplo: uma criança sabe que existem coisas de meninas e coisas de meninos (em relação a comportamento e a própria natureza dos indivíduos), e que comportamentos adversos a estes, categoricamente, não são normais. Mas não é totalmente diferente o que o estado e os seus parasitas que o permeiam o fazem com a ideologia de gênero que os é empurrada nas escolas com essa louca e pseudocientífica visão sobre gênero? Quando os pais questionam e se recusam a este ensino, são rechaçados. 
Então, dois pressupostos podem ser assumidos aqui: 
1.os pais e as crianças não precisam ‘’ipso facto’’ do Estado para balizarem seus comportamentos e suas morais; 
2.O estado coloca em cheque comportamentos individuais minando a autopropriedade individual e a própria sociedade.

Um ponto que deve ser esclarecido aqui é a moral objetiva. 
Esta é defendida tanto por filósofos teístas — como C.S. Lewis e William Lane Craig [2] — quanto por filósofos ateístas — como Raymond D. Bradley [3], Michael Martin e Austin Dacey [4] -, ressalto que também a defendo usando pressupostos biológicos, o que farei no decorrer do texto.
Explanarei uma defesa ‘’per se’ dessas duas vertentes, assumindo uma visão tanto ateísta quanto teológica em um primeiro momento.

Vamos assumir que não existam valores verdadeiros. Se não existem tais valores — que independem os humanos e estão além deles — Deus não existe, mas vemos e assumimos que tais premissas são falsas. 
As premissas que assumimos é que certos valores morais objetivos existem, isto é, existe o bem e o mal e, por conseqüência, também existe um Deus.
Para compreender o argumento é preciso entender que a natureza de Deus por ser boa e perfeita é balizadora para todo o nosso arcabouço moral e dele toda bondade nasce. Um exemplo disto é o holocausto nazista, mesmo que estivéssemos a dois mil anos no passado ou no futuro, assumo que independente da nossa cultura acharíamos deplorável o início de uma agressão contra um indivíduo pacífico que nada fez, e este um pacto natural que sempre existiu e sempre existirá na espécie humana e nos foi embutido por Deus, é uma moral herdada naturalmente.

Mesmo que um indivíduo ache que foi correto o massacre judaico feito pelos nazistas, mesmo que todos os indivíduos achem correto tal ato, se existe apenas um que vá contra tal genocídio, o único correto é aquele que está do lado correto, porque nenhum pressuposto utilitarista é capaz de vilipendiar o objetivo moral do que é verdadeiramente correto.
O que fica claro é, se você crer em Deus e consecutivamente em uma moral objetiva, você claramente indiretamente crer que não existe necessidade do estado no que tange a moral.

Já o pressuposto ateísta é que se Deus não existe, mesmo assim valores morais existem.
E aqui começa minha defesa da moral biológica, que vai além da própria razão humana e para isso me aproprio de pesquisas como a do primatologista Frans de Waal [4], do Psicólogo Joshua Greene [5] e do psicólogo Paul Bloom [5].

Comecemos com a premissa de que é moralmente errado dar para um exército mulheres jovens que foram feitas prisioneiras para serem utilizadas como escravas sexuais.
O ponto da argumentação ateísta e da minha argumentação é ‘’Mutatis mutandis’’ o naturalismo. Primeiro que a nossa moral não é nada mais do que uma parte de nossa natureza na esteira da evolução, ela é uma adaptação de comportamentos que aumenta nossa chance de sucesso na sobrevivência e na passagem dos genes, e o ‘’egoísmo’’ dos genes pode sim criar uma moral objetiva [7] que se alia a sociedade criando a moral sócio-biológica objetiva que passa para o resto da sociedade, como afirma Michael Ruse [8]. 
Um exemplo claro disso é o estupro da premissa que apresentei, que é categoricamente rechaçado pela sociedade mesmo existindo na natureza e o por quê? 
O porquê é simples, nenhum indivíduo biológico com certa consciência acredita que o coito forçado é defensável, pois o mesmo não gostaria de ter seu corpo violado contra sua vontade e, além disso, um indivíduo que pratica atos como este, representa um perigo tanto para quem sofreu o ato quanto para o resto da sociedade, e merece ser punido.
A questão crucial é a natureza que nos moldou para viver em comunidade. Uma ótima metáfora é a do relógio, no qual a natureza nos dá mais ou menos pronto e a sociedade apenas ajusta os ponteiros.

Segundo de Wall em seu “The Age of Empathy” [9] temos a capacidade de empatia e esta capacidade também é apresentada em outros mamíferos, por isso sabemos quando um ato é ruim para com o próximo e essa capacidade é que gera nosso senso de justiça, sempre tendemos a torcer pelo time que está perdendo, e isso não é mera coincidência, é bio-comportamentalismo. Nossa natureza não é totalmente má por conta do egoísmo gênico. A maldade é um desvio da nossa natureza — conforme afirma Joshua Greene do Laboratório de Cognição Moral da Universidade de Harvard -, as nossas emoções nos moldam para convivência social. Em seu famoso livro “Moral Tribes” Greene argumenta que facilmente preferimos o Nós (Grupo) a o Eu (Indivíduo) por familiaridade, então, a questão é, e quando a maldade possa vir a prejudicar os outros?
Greene afirma que o Nós (Grupo) reconhece que o Ele (Outros indivíduos) é mal e aí tendemos a querer punições.

Já pesquisa realizada com bebês feita pelo psicólogo comportamentalista Paul Bloom mostra que até eles, os jovenzinhos, são capazes de entender atos errados. Nas pesquisas feitas com crianças de três a nove meses — onde bonecos apareciam para as crianças em certas ações — as crianças não apenas repudiavam o mal cometido como também queriam punir os malfeitores, pois a nossa felicidade depende disso.

Além disso, nossa moral pode ser baseada em preceitos Kantianos mais racionalistas, para Kant somos capazes de entender entre o certo e o errado, e estes juizos podem e devem ser maximizadas, de acordo com o filosofo alemão, assim como as leis da natureza nossa moral podem ser universalizada.
Além disso, por serem imperativos categóricos elas dizem o que devamos fazer independente da situação.
Estes preceitos usados por Kant pode ser usados tanto por religiosos ou não. [10]

Como afirma Ludwig Von Mises em Ação Humana [11], os indivíduos tendem a procurar ao máximo a felicidade, nas palavras do próprio Mises:
‘’O incentivo que impele o homem à ação é sempre algum desconforto. Um homem perfeitamente satisfeito com a sua situação não teria incentivo para mudar as coisas. Não teria nem aspirações nem desejos; seria perfeitamente feliz. Não agiria; viveria simplesmente livre de preocupações. Mas, para fazer um homem agir não basta o desconforto e a imagem de uma situação melhor. Uma terceira condição é necessária: a expectativa de que um comportamento propositado tenha o poder de afastar ou pelo menos aliviar os seus desconfortos ‘’.
E aqui assumo se a maldade é um dos empecilhos para isso, e ela é e será sempre, categoricamente é rechaçada, e mesmo que ela não seja um empecilho direto em nossas vidas, ela sempre limitará nossa felicidade, por isso tentaremos ao máximo diminui — lá.

A questão nevrálgica aqui é: esta moral chega ao mercado?
A resposta é sim, para ilustra uso o exemplo de Max Mosley, ex-chefe da FIA (Federação Internacional de Autombilismo) e membro do conselho da F1 que em 2008 foi fotografado em uma orgia vestido de nazista e que por pressões da sociedade e dos consumidores deixou sua cadeira em 2009 [12].
Veja que não é o mercado que gera uma moral, nossa moral é que chega até o mesmo de forma direta ou não [13].
E mesmo que um indivíduo com grande poder pratique um ato imoral, será o anseio e a luta da maioria que ele seja punido.
Para que isto seja feito a sociedade utilizará o que for necessário para que aconteça, independente do Estado, que legitima atitudes erradas como a agressão contra indivíduos pacíficos ou que cria um sistema onde a corrupção é vista como inerente, sendo às vezes colocada como um ato relativamente errado e não totalmente errado e onde punições são meras embromações, vide a operação Lava Jato e o Mensalão petistas e tucano, onde as punições foram mínimas, isso quando existiram é claro.

O mercado livre é extremante moral, pois a livre-troca nada mais é do que um indivíduo usufruindo do esforço de seu trabalho individual ou coletivo para atingir uma benesse para si. Essa livre-troca sempre favorece outros, pois gera uma oferta para as demandas das necessidades e, além disso, ela é “ipso facto” livre do uso da força.

Este texto fez apenas alguns ataques pontuais ao estado. Entendo que, intrinsecamente, as críticas ao Estado são feitas ao pressupor que meus argumentos são verdadeiros, além disso, entende-se que o Anarcocapitalismo é o único sistema naturalmente e moralmente aceitável por seguir uma ordem natural que busca a felicidade e o bem dos indivíduos sobre uma moral objetiva.

Referencias:
[1] https://ideallibertario.wordpress.com/2016/08/12/por-que-imposto-e-roubo/ 
[2] https://razaoemquestao.blogspot.com/…/valores-morais-objeti…
[3] https://rebeldiametafisica.wordpress.com/…/um-argumento-mo…/
[4] https://infidels.org/…/modern/jeff_lowder/martin_review.html
[5] https://www.ted.com/ta…/frans_de_waal_do_animals_have_morals
[6] https://www.amazon.com/Moral-Tribes-Emotion-Re…/…/1594202605
[7] https://hrcak.srce.hr/file/226492
[8] http://www2.unifap.br/…/…/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf
[9] https://www.amazon.com/Age-Empathy-Natures-Les…/…/0307407772
[10] https://plato.stanford.edu/entries/kant-moral/
[11] http://rothbardbrasil.com/…/uploads/arquivos/acao-humana.pdf
[12] http://noticias.r7.com/…/ex-chefao-da-f1-fotografado-durant…
[13] http://www.institutomillenium.org.br/artigos/moral-mercado/