envelhecer não tem graça?

Acho curioso que o tempo nos reserve cada vez menos… tempo. Um ano vivido, por melhor que ele seja, é também um ano perdido. Um emprego novo com um salário melhor é também menos tempo disponível e coisas divertidas com que gastar. Um relacionamento novo é também abrir mão de todos os relacionamentos possíveis, etc, etc. E o contraste é tanto que até faz me crer que a lei da troca equivalente faz algum sentido, e que a vida, essencialmente, não é sobre saber perder e tirar algo de produtivo disso, mas sobre ficar vencendo e desfrutando os louros disso com os amigos diversos.

É até estranho que, tendo isso mente, seja tão espantosa a reação comum quando se fala em ex amigos. Parece que as pessoas se forçam a ideia de que as relações permanecem as mesmas, ainda que não tenhamos mais nada em comum, ou não nos vejamos a uma década, ou odiemos os posicionamentos uns dos outros — não penso que elas acreditem realmente nisso, mas não verbalizam e, eventualmente, fingem que sim. E não, eu não sou esse tipo de tolo, talvez por isso seja tão pouco habilidoso socialmente. Eu coleciono ex amigos, a maioria sem algum rompimento, é verdade, mas quando a vida nos permite contornos distintos em nossas jornadas, penso que seja natural que algumas pessoas fiquem pelo caminho, num espaço do passado, em que eventualmente vamos nos lembrar e pensar sobre “o que aconteceu com aquele Juninho, hein?”, ou coisa do tipo.

O fato é que a vida se torna potencialmente melhor na medida em que adquirimos experiência, mas esta traz consigo uma gama de obrigações, que por si só somam cansaço a corpos nem tão resistentes quanto antes, a cérebros nem tão dispostos e encantados quanto na juventude. Acho que por isso é tão natural esse apego simbólico a nostalgia, ou a tentativa de resgatar pessoas do passado, ou o constante interesse em manter as relações já construídas do que investir em coisas novas. Conhecer gente nova dá trabalho, custa caro, e quando o dinheiro para lazer é curto, o mau humor constante e as costas doem, é difícil parecer uma pessoa legal e não uma cópia pós-moderna do Charles Bukowski.

É um meme da pós-modernidade essa ideia de que a misantropia é um mito, ou que pessoas solitárias — quando não são doentes, optaram por isso, quando a verdade costuma ser bem mais triste. Enfim, o fato é que a vida caminha em direções que fogem a nossa expectativa. O próprio amadurecimento é uma dessas direções. E infelizmente ou não, grande parte da vida parece nos levar para isso, um tipo auto imposto de misantropia — simbólica ou não — onde o mais valioso é o tempo que sobra. Aquelas horas em que podemos ser — nós mesmos ou qualquer coisa mais divertida. Eu gosto disso, ou quero gostar.