Estanque

Thiago Teixeira
Sep 7, 2018 · 3 min read

Tinha acabado de acordar, e só acreditava que tinha conseguido dormir em condições tão inapropriadas por que, apesar da música alta e ruim, brigava para abrir os olhos, e não para fechá-los, como costumava fazer durante os agudos mais incômodos do vocalista.

Saiu o quanto antes pode do bar excessivamente iluminado e se deu conta, com a mesma surpresa, da companhia de uma leve embriaguez, de sua carteira e das chaves ainda nos bolsos da calça. Talvez tivesse saído de casa carregando mais coisas consigo, mas se ainda lhe restavam esses itens, deveriam bastar.

Já na rua, vagou a esmo retomando o caminho daqueles que vão com o objetivo preciso de não chegar. Tendo vivido muito tempo num porto seguro, descobriu durante uma ressaca que deveria conhecer um pouco melhor as incertezas das navegações inesperadas.

Costurando os passos, foi cruzando ruas até achar um ponto de esquina juntando a expectativa de futuros novos com um bom descanso para as pernas, menos afeitas a continuar a caminhada que o seu juízo comprometido. E, sentado, nem percebeu o quanto esperou até resolver embarcar num ônibus decadente da viação Cometa.

Tardiamente, tentava descobrir aonde o levaria a decisão de girar a catraca, mas a vista turva pelo álcool e pela tremedeira dos pneus no asfalto irregular o fez contentar-se em simplesmente encontrar rápido um assento vago.

Àquela hora, já não haviam mais tantas as pessoas viajando como no início do dia. Contudo, ainda era possível encontrar gente interessante, como uma moça de sorriso cheio, a dois bancos de distância.

Sem condições de aproximar-se — o hálito não devia estar bom por causa da bebida e o raciocínio cheirava ainda pior — , imaginou-se dizendo um “Oi” despretensioso, ao qual a bonita talvez respondesse.

Sem fazê-lo de fato, seguiu imaginando respostas convenientes a tudo que tinha vontade de perguntar. Assim, conversava com a moça sobre o trabalho e os amigos que talvez tivessem em comum, sobre os gostos artísticos e as divergências políticas, sobre o desânimo em relação às segundas-feiras e às atividades esportivas e tudo mais, sem ainda conhecer sua voz. Dirigida pelo dono do devaneio, a passageira atuava sob o rigor de seu script mesmo quando o contrariava.

Era um plano mágico, e dessa afinidade calculada já ficava claro um destino inevitável com filhos e um cachorro expansivo que faria buracos no jardim da casa no campo.

À parte de toda essa ficção, a moça cansada na volta do trabalho a princípio evitava reagir ao olhar permanente, compreensivelmente incomodada. Agora, no entanto, tentava entender por quê era observada de forma tão contínua quanto absorta:

“ — Oi!”, disse, com um aceno tímido, sem certeza da prudência do seu gesto.

Acontece com todo mundo que se pega distraído no transporte público. Uma hora a gente precisa descer, e nem sempre o ponto certo nos espera acordar.

Num arco-reflexo, ele se levanta, aperta o botão de parada, mas não se dirige imediatamente à porta de desembarque. Hesita alguns instantes enquanto aguarda o ônibus reduzir a velocidade e frear, mas não poderia descer sem responder ao aceno gentil de quem lhe fora uma companhia agradável durante o itinerário compartilhado na estrada e no delírio.

Cabe a vida inteira naquele intervalo entre duas frases de um diálogo, no qual a gente fica maquinando uma resposta. E ele reviu toda a vida que acabara de criar com ela, e queria contar-lhe tudo, mas só conseguiu esse resumo descuidado:

“ — É uma pena eu já ter entrado aqui pesado demais para sair do lugar”.

Disse e seguiu. Olhando o vão entre o degrau e o meio fio, sabia que não tinha sido muito objetivo, mas imaginou satisfeito que a moça passaria a prestar mais atenção às janelas.

Thiago Teixeira

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histórias banais do cotidiano de um desconhecido seu.