ELES MORREM DE MEDO

O burguês tem medo.
A classe média — emergente — tem medo.

Foto: Sebastião Salgado, 1986, Serra Pelada, Pará, Brasil.

Eles morrem de medo… dos textões, dos vídeos, dos virais, das denúncias, das mobilizações, das rodas de conversa, das discussões, da educação de qualidade, de políticas públicas eficientes para todos e, inclusivas, da criatividade à margem, da sobrevivência, da resistência, das dividas históricas e, até mesmo, das notas de rodapé.

Eles morrem de medo.

Têm medo! Têm medo para dar e vender. Têm medo escorrendo pelas paredes, infiltrando todo o corpo. Têm medo do preto de terno não ser segurança, motorista ou testemunha de jeová. Tão gotejando medo da filha aparecer com um favelado em casa e o danado dizer que é c-i-n-e-a-s-t-a e que viajou o mundo inteiro vencendo prêmio e lecionando.

A bateção de panela é para não ouvir …

a própria consciência, pesadíssima, diga-se de passagem, os monstros do armário, o desespero… o nó na garganta é latente, convivem diariamente com aperto no peito. Por isso, remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para comer, remédio para cagar, remédio para viver, remédio para deixar de tomar remédio,

remédio para não morrer na completa merda que é a própria vida.

Porque nada nessa vida faz o menor sentido para quem tem tudo e descobriu que não tem porr! nenhuma.

O bolso tá cheio, a geladeira tá cheia, os álbuns tão cheios, não há mais lugares para check-in, não há sonhos, não há perspectivas, não há projetos… somente vazio, frustração, exploração, revanchismo aplicado no lombo da Dona Maria, diarista, 4 casas de família por semana, 6 filhos, 3 netos, viúva, crente, canta todos os dias, nunca dormiu 8 horas, nunca foi ao cinema, nunca deixou de contribuir com a igreja, é feliz para c@ralho…

… apesar de tudo.

Dona Maria não sabe o que é yoga, não sabe o que é meditação zen, não sabe o que é imersão, não sabe o que é veganismo, não sabe o que é startup, não sabe o que check-in, não sabe o que é ‘textão’.

Dona Maria sabe o que é boldo, sabe o que é fé, sabe quanto custa viver nessa vida e paga um altíssimo preço diariamente.

Mas já entregou.

Dorme tranquila.

Tá todo mundo na escola, tá todo mundo com o bucho cheio, tá todo mundo com saúde e amanhã é outro dia, amanhã é outro dia, tá ligado?, amanhã é outro dia, porra.

Não, Dona Maria não fala “porra”.

Porque Dona Maria inventou o conceito de resiliência, porque nossas mães pretas desenvolveram a teoria do empoderamento e P-R-A-T-I-C-A-M.

Porque foi a Tia da Limpeza a primeira a cantar a bola sobre sororidade para aquela mina chorosa no recreio da escola.

E sabe quem tá ligado nisso?

O Doutor Paulo, o Engenheiro Marcos, a Patroa Fátima.

Eles tão ligados que a costureira, empregada, o porteiro, o motorista, o segurança, a faxineira, a passadeira, a cozinheira, o garçom, o frentista, a camareira, a babá, o Paulinho Faz Tudo, sobrinho do Zé, o caseiro, possuem o poder, a chave da revolução, a bomba, o gatilho, as balas, o rolé todo na mão, no peito, no coração, na sensibilidade adquirida observando o mundo,

aguentando o chicote da vida.

Deixe estar.

Foto: Sebastião Salgado / Obra “Terra”, fotografias em preto e branco, registradas entre 1980 e 1996, que retratam a condição de vida de trabalhadores rurais sem-terra, pessoas e crianças em situação de rua e outros grupos excluídos socialmente, marginalizados e desterrados no Brasil.

Quando a gente resolver acabar com a brincadeira, a gente explica o que é meritocracia e zera o jogo… Porque segundo as regras, é o Zé, o Caseiro, e a Dona Maria, a diarista, os donos do mundo.

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal

Like what you read? Give Jota Marques, Marginal a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.