ME DESCULPEM…

Eu concordo com o Marcelo Freixo, o amor é revolucionário: “menos ódio, menos raiva, menos medo, muito amor e liberdade para todo mundo”.

O afeto transforma, constrói, é possível mudar.

— Mas não será hoje, irmão.

Nem amanhã.

E não é porque eu não quero.

Eu quero.

Mas a cidade está lavada de sangue, parceiro. Da minha rua ao beco mais esquecido-escondido da cidade há buracos de balas por todo o trajeto, carros-portões-muros-paredes-pessoas.

Foto:Sergio Moraes / Ônibus pegando fogo no bairro Maria da Graça, Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2010.
Foto: Felipe Dana / Morador baleado sendo socorrido por vizinhos durante uma operação policial, na favela da Grota, Rio de Janeiro.
Capsulas.
Sapatos perdidos.
Roupas rasgadas,
ensanguentadas.
Restos mortais,
miolos de cérebro.

Famílias desesperadas, pessoas correndo-fugindo, deitadas no chão, debaixo da cama, atrás da geladeira, abraçadas, orando, chorando, TV no último volume, “são fogos, filho. Então deixa eu ir ver, mamãe”, exiladas, feridas, traumatizadas,

mortas.

Foto: Silvia Izquierdo / Reação de crianças durante operação policial contra traficantes de drogas, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro.

Gente pensando seriamente em botar um “trêsoitão” na cintura para se defender, gente alimentando o próprio ódio e a sede em fazer justiça com as próprias mãos, gente desesperada disposta a fazer qualquer coisa pela a família, ao próprio estômago, ao bolso vazio,

gente considerando terminar com a própria vida antes que a vida acabe com ela.

Quem sou eu para dizer ao pai de família que ele tá viajando nas ideias? Estamos falando aqui de uma estrutura histórica de violênciaS, de chumbo grosso e muito chicote no lombo e na mente, exclusão, exploração, opressão, perseguição, genocídio.

Há diversas formas de se matar um sujeito.

Há diversas formas de se aniquilar um povo.

E quando a gente apanha…

a gente aprende a bater, filho.

Invadiram, roubaram, venderam e alugaram a nossa terra-território, destruíram a nossa história-ancestralidade, eliminaram os nossos irmãos, as nossas mães, os nossos pais, estupraram as nossas mulheres, violaram os nossos corpos, sequestraram as nossas crianças…

Foto: Felipe Dana / Soldados durante operação contra traficantes de drogas, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro.
Sobrevivemos.
Mesmo assim.

Estamos em cada canto, em cada buraco, em cada esquina; dirigimos o seu carro, limpamos a sua bunda, cozinhamos a sua comida, passamos a sua roupa…

E há muita sede de vingança.

Me desculpem…

quando o morro descer e não for carnaval a cidade será incendiada, literalmente. Não há mais tempo para amor, sede por abraços coletivos, flores, cirandas,

HÁ ÓDIO DEMAIS PARA ISSO.

Em cada vírgula.
Em cada casa invadida.
Em cada comunidade violada.
Em cada um.
Essa é uma triste constatação e
do jeito que caminhamos…
Foto: Evandro Teixeira / Favela Vila do João, Rio de Janeiro, 1998.

o que está por vir vai fazer muita gente sentir o que sempre praticou.

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal

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