Hell de Janeiro, uma bomba-relógio

Por Jota Marques Especial para os Jornalistas Livres

O texto é grande 
porque a dor é 
imensa.

Hell de Janeiro,
uma bomba-relógio.

Ontem [10/8/2016] 3 militares da Força Nacional entraram desorientados-desavisados na Vila do João, na Maré.
O resultado, cês sabem: medalha de chumbo para os milicos (todos gravemente feridos).
Nesse momento, qualquer morador consciente projeta: amanhã o chicote vai estralar, vão escaldar a gente. E não deu outra. Pela manhã [11/8], as forças militares do mundo com direito a helicóptero-caveirão-e-muitas-balas-encontradas, entraram sem café.

Aí, cê que mora no asfalto reflete a seguinte genialidade:

“ah… mas esperavam o quê? Os caras fuzilaram a polícia, pediram para que fizessem operação, agora ‘aguenta’.”

Claríssimo pensamento antipático de quem, muito provavelmente, desconhece a realidade-sobrevivência do periférico. Mas eu explico aos desconectados com o mundo real: no meio da guerra, entre a polícia e o bandido (muitas vezes a mesma fita), estão os moradores. Surpresa.

Vale o lembrete então: moradores não possuem peito de aço, não dispõem de coletes a prova de balas, não andam armados, não circulam dentro de caveirões blindados e nossas casas não possuem passagens secretas e não são revestidas como as do Batman. Surpreendente, né?.

Ao contrário do imaginário, quando a bala come e o bicho pega, a gente se joga no chão, literalmente. Se esconde nos escombros e até em meios aos corpos mortos, sim,

c-o-r-p-o-s-m-o-r-t-o-s.

Falta ao trabalho, a escola fecha, o compromisso será perdido, mesmo que o mais importante do mundo-vida e se alguém estiver chegando em casa, naquela hora, volta… fica por aí… e aí cê fica onde? Sim, na rua. E se alguém estiver morrendo? “Aguenta aí, vai ter que esperar.”
Mesmo assim, são muitas as mães levando seus filhos, no meio do quebra-pau, para a UPA, para a emergência, porque pais desesperados com seus filhos enfrentam tudo e a necessidade grita, filhão.

“MAS por que não denunciam então? Vocês são cúmplices da ‘bandidagem’”.

Esse talvez seja o pensamento-questionamento mais antipático e alienado do universo, mesmo assim, sério, olha aqui, olho no olho, face to face. Cê acha mesmo, na moral, que denunciar bandido– para bandido –resolve alguma coisa, e mais, aprende a brincar antes de descer ao play, a roda parou de girar há séculos para a realidade à margem e a culpa-responsabilidade é do morador… Jura?

Vamos considerar, por um breve momento, o seguinte: o sistema de segurança sabe quem é quem dentro de uma favela, quem manda, quem desmanda, quem vende, quem recebe. Quem é quem, parceiro.
Essa é a primeira– e única –verdade que você aprende em qualquer filme asqueroso a respeito da guerra as drogas.

Contudo, o que “Os Caras” fazem?

Bola um roteiro cinematográfico, enche a periferia de fardados, esculacham os moradores, ganham o aval da sociedade para entrar e fazerem o que bem entenderem e, no fim, prende alguém?
Agora é a hora do show: você não é inocente, olha aqui no olho novamente, o que eles prendem, depois de matar um ou outro, são… buchas. E bucha é o que não falta, até morador, se estiver na reta do cano, vira bucha, parceiro.

Amarildo virou bucha e corpo sem vida em 10 minutos.
Já se esqueceu do Amarildo, né?

Esqueceu do Rafael Braga também?
Esse está vivo e com acusações até o pescoço por coisas que nunca fez.

E o presídio todo está lotado de malucos que nada fizeram, papo de quem trampou no sistema e que trocou ideia com todo tipo de gente nessa vida. Essa é a fita, meu caro.
Colocar no peito do morador a responsabilidade pela segurança pública é moleza, mas enfrentar as consequências ninguém quer. E a gente, à margem, está pagando dia-e-noite pelas cagadas de uns fardados, mas principalmente, pelas cagadas de uns engravatados.
O show de horror é patrocinado por gigantes de todos os tipos de indústrias, políticos de todas as estirpes, gente de altíssimo calibre que precisa manter o caos do jeitinho que ele é.
E os caras matam policiais, também, irmão.
Matar faz a roda girar, é o jogo.

Mas isso deve parecer conspiratório demais para a sua cabecinha…

Pois saiba que não é, parceiro. A guerra as drogas é a obra ficcional mais bem roteirizada-produzida-dirigida da história. O projeto de empreendedorismo mais criativo pensado até hoje e, por tudo isso… fuzila morador e depois justifica… COLOCA NA CONTA DO PAPA.

E tem um plus para o texto gigante, com direito a exercício final, reflete uma outra parada aí, sobre essa tal “olimpíada”. Por aqui, no Hell, a violência, segundo os jornais, não existe mais.
Duas semanas atrás, todos os dias, a periferia estava na telinha. Agora, ninguém mais ouve falar. A gente está até ganhando medalha, porra. Quando noticiam alguma operação, “… trabalho de rotina em comunidades”.
Nada nunca mais aconteceu, moradores nunca mais foram entrevistados e casa nenhuma fotografada, mas eu te mostro, o que mais tem é carro-casa-criança-perfurada.
Para gringo-e-turista andar tranquilamente, os caras fizeram a seguinte paradinha daora: ocuparam todas as comunidades, esculacharam quem precisava. Agora, a gente está indo para casa mais cedo e com medo de chegar tarde, ninguém mais quer dar rolé para longe com medo de não voltar.

BINGO!
Para quem acertou que a higienização foi um sucesso.

Exercício de casa:

Rio de Janeiro 2016 para quem?
Olimpíada para quem?
Mobilidade para quem?
Segurança para quem?
Lazer para quem?
… Legado para quem?

Respostinha de orientação:

somente hoje, 11 de agosto de 2016, para quem ler depois, 5 morreram na cidade olímpica.

Foram 4 na comunidade Bandeira 2, em Del Castilho e outro 1, na Maré.


Jota Marques, educador social, é escritor-observador das periferias, morador da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Em constante luta, carrega como bandeira a resistência da própria vida e o combate à exclusão e genocídio dos historicamente marginalizados: os mais pobres.

Texo Originalmente Postado: Jornalistas Livres https://goo.gl/sbVtfK

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal