ME DÁ UM ABRAÇO, FILHO

“Jovem educador baleado na cabeça…”, não quero.

Considerado um sujeito corajoso; destemido, eu sinto e senti medo muitas vezes nessa vida. Mas,

é papo de gente carente de herói! Sou um baita bundão, desculpa a decepção. Ao contrário do que pensam… eu fujo quando posso, corro quando dá. Já quis morrer. Mas amo a minha vida.

Certo de que enfrentei muita briga, bati e apanhei, me arrependi todas as vezes… a coragem matou muita gente, podia tá morto. Não quero tá morto.

Quero tá ‘vivaum’. Precisam de mim, porr!

Dois momentos me são marcantes. O 1° quando apontaram uma arma para a minha cabeça ao socorrer uma pessoa em situação de rua com alguns amigos… um dia desses eu conto.

O 2° foi um outro lance.

Há poucas semanas, inclusive. Pensei que minha mãe ou eu veríamos um ao outro morrer. Era tiro para dar e vender. O povo tava apavorado. Todos pegos de surpresa. Muita gente corria. Estávamos contentes, conversando. Era tiro demais. Travamos… vamos ou voltamos… vamos ou voltamos… seguimos. Muita gente começou a voltar… voltamos… do outro lado da rua a Polícia corria… recuando.

Caralh!, maluco, a polícia tá recuando.

Armados! Fuzil… pistola… bomba… colete… blindado… viatura… 8 homens…. os caras TÃO recuando, maluco. Quem sou eu…

Quem é a minha mãe na fila do pão da morte?

Caguei.

Não tava pronto para morrer.

Não tô pronto para ver minha mãe morrer.

“Mãeeeee, volta, vem para a minha frente, vamo entrar aqui….”.

BUMMMMM…. BOMMMMM ….

SEI LÁ, IMAGINA O BARULHO DE UMA BOMBA MUITO ALTA AÍ E DE UM TIRO DE BAZUCA… Vi minha mãe com medo, era a primeira vez em toda a minha vida, mano.

Porr!, fiquei mal.
Tinha que tirar ela de lá… daquela situação.

Sempre ando com algum dinheiro, cartão qualquer escambo. Naquele dia, não. Resolvi deixar tudo em casa, só ia buscar ela e voltar para casa, nada demais, rolé na minha favela, não preciso de nada.

Precisei. Era melhor esperar antes de ligar desesperado para alguém… nem taxi, nem uber, nem nada iria passar tão cedo naquela zica. Foda. A vida é foda, pensei.

Amo esse lugar, mas quero ir embora.

Chega! Vou morar no mato, sei lá.

Foda-zi, chega de social, chega de educação, chega de textão, chega de tudo… a gente tá morrendo aqui, ninguém liga, ninguém quer saber de nada… hora dessas vão escrever um textão para mim…

“Jovem educador levou bala na cabeça…”, não quero.

Foi horrível.

Antes disso, caminhávamos com uma mãe e o seu filho no carrinho na mesma calçada, ela já tinha dado a pala… “tá acontecendo alguma coisa na Cidade de Deus, não me deixaram passar… tive que dar a volta, preciso levar meu filho na UPA…”, porr!!!!

Que noite.

Ela não recuou com a gente, rapaziada.

Ela precisava levar o filho na UPA e ia levar, mano.

A gente entrou num beco, num lado da comunidade que eu nunca fui, acabamos numa praça… minha mãe e eu. Não vimos mais nada… Deus proteja aquela mulher. Ninguém podia a segurar. Ninguém.

Sentamos no banco de uma praça. Ouvíamos os tiros de lá. As bombas. O caos. Tinha um casal tomando sorvete… estão ou estavam apaixonados… Não ouviam nada. “Casal, ei, casal. Vai por aí não, o bicho tá pegando………………”.

Sentaram perto da gente, nem ligaram.

No fundo, ficariam mais tempo juntos, foda-zi o mundo.

Tentamos nos distrair, minha mãe e eu, trocamos umas ideias…

Passou um grupo de pessoas vindo do mesmo lugar de onde saímos, perguntamos: “como que tá lá?”, meio embolado, meio nervoso…. “tá mais tranquilo, mas vão rápido”.

Nem pensamos. Fomos. Vem atrás de mim, mãe. Vou olhando as ruas. Fomos. Tipo ninja. Tipo quem tem amor pela vida. Chegamos numa esquina. Em outra. Em outra.

BAZUCA DE NOVO.

Caralh!, vamos morrer, deus.

AJUDA.

“VAMO, MÃE, VAMO, ENTRA NA UPA…”.

“DEITA, DEITA, DEITA, DEITA”, ordenavam um grupo de pessoas desesperadas deitadas na entrada da UPA.

Éramos uns 7 em um pedaço de PISO. REFLETINDO. De lá a gente via os puliça acuado. Tava foda. Meu JESUS. BUDA. SENHOR. QUERO IR PARA CASA. ME LEVA, LEVA NOIS. Minha mãe já tava calma, eu soava parecer.

Tava com o c* na mão, talvez ela também estivesse.

“Mãe, a hora é agora. Acalmou, vamo por trás… fazemos isso e aquilo e isso e aquilo e damos lá na frente e viramos e tamo em casa, vamo?”, ela topou e fomos. Tipo ninja de novo. Bagulho doido. Minha mãe correndo, véi. Ela não corre. A gente tava correndo. Pô!, espero que ninguém passe por isso.

Chegamos no limite do mapeamento estratégico, agora era subir aquela rua, virar duas esquinas e correr para o abraço da casa. Mas o bagulho tava doido.

Estávamos 20 passos à frente da puliça…

Dava para ver ela entrando nos becos. Encontramos um grupo de tias da igreja andando em direção errada… alertamos. “VAI, NÃO, TIA. VOLTA, TIA, VOLTA…”.

Atravessamos, corremos… entramos nas ruas, dobramos as esquinas, conseguia ver minha casa, vi… abri os portões, entramos, caralh!,

“me dá um abraço, filho, conseguimos”,

disse minha mãe.

Minutos depois… o bonde todo na minha rua dando tiro.

Espero que cês nunca passem por isso. Mas é por essas e outras que eu sigo escrevendo textão e ocupando salas de aula.

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal

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