MERITOCRACIA

Cê sabe,

nem todo garoto foi “esperto”, nem toda criança tem/teve estrutura, nem todo mundo nasceu com o c* virado pra lua. Queria ter sido apresentado pra uma outra vida, mas a minha foi dura. Desestimulado desde pirralho, não me dava bem na escola.

O único conselho que a diretora achava que me dava:

“se tudo der errado, vá pedir esmola”.

Acabei revoltado. E com o currículo nas mãos, despreparado, desesperado, ainda assim, corri atrás, caí no mundão.

Todas as empresas de telemarketing sabiam o meu nome. As redes de fast-food então… até o meu sobrenome.

Malcolm X discursa emocionado para uma multidão em um comício ao ar livre em 1963. Foto: Bob Parent

Queria ter sido

Martin

Malcolm X

mas

de KING

só me restou o Burger.

Rev. Dr. Martin Luther King Jr. discursa em comícidio no Mississippi em 1966. Foto: Flip Schulke

Não que fosse degradante, não é, mas não aguentava mais ser humilhado por meia dúzia de burguês que nunca havia trabalhado. Porque tá fácil: ser branco e não ser operário, não fazer parte da classe que só sai no…

no-ti-ci-á-ri-o.

Pensa ser normal só ter preto algemado?

Cuidado com esse seu racismo, ele tem o imbecilizado.

Infelizmente, foi isso aí.

Desde moleque desacreditado que eu não podia muito mais do que alguns trocados. E que eu ainda devia ficar contente de ter um emprego, sorrir e mostrar os dentes.

Era o que esperava da gente que sobrevive na favela.

É assim que a gente é estereotipado na novela: que na favela tá todo mundo contente e que não existe tristeza. Mas nunca se interessaram pela verdadeira história da gente.

Cento e vinte e oito anos de abolição e a gente segue sendo escravo, irmão.

Agora a colocação mudou, é diferente, carteira assinada = senzala da mente. E aí tentam culpar o ‘menó’ que desacreditado começou a traficar…

Já foi ver os benefícios da empresa do crime e do tráfico?

Aposto que ficaria tentado se tivesse tido a mesma vida que eu tive.

Mas eu sei, eu sei.

Não é todo mundo que aceita, nem se encanta, mas se todo mundo fosse igual, irmão. Estávamos bem — ou não. Eu sei é da minha realidade: saí porta afora do Shopping, não tinha mais um pingo de vontade. Daqui 20 anos talvez! eu fizesse uma universidade ou fosse nomeado gerente, era o que dizia o meu patrão cheio de dentes.

São vinte anos de esperança e a gente cansa. Lá na boca a felicidade não é latente, pode me chamar de fraco, e-u-n-ã-o-l-i-g-o.

Porque quando olho para a história da minha vida,

eu justifico.

Não fui ensinado a acreditar.

Não fui ensinado a esperar.

Não fui ensinado a amar.

Até porque…

O que mais podiam me oferecer?

Eu tinha que aceitar, né, não?

Que nem todo pobre é ladrão,

então, aceita a sua condição:

tem arroz,

feijão?

Então fica feliz, ô meu irmão.

Porque é isso que a gente merece;

ser limpinho e talvez não passar fome.

Porque só rico pode desejar e a gente tem que acreditar numa tal:

meritroc

meri,

me…

cracia…

- Deixa pra lá.

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal

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