NÃO EXISTE BALA PERDIDA NA PERIFERIA

Ocupar os espaços. Transformar a realidade.

São 9h. Mas antes mesmo das 8h. Às 7h. Às 6h. Depois às 17h. Às 18h. Todos os dias. Em todos os horários. O chumbo está comendo e o chicote estralando no lombo do morador, aqui na Cidade de Deus.

E a fita é certa, se procurar saber, em várias outras periferias pelo Brasil e becos do mundo.

Trata-se da manutenção da miséria humana — e do medo, mantendo-condicionando o pobre e o preto em seu “devido lugar”. “Operações Policiais” (dizem), o dia inteiro, não buscam outra coisa, senão!, acertar em cheio a liberdade e o corpo da família à margem.

No café da manhã. No almoço. No lanche da tarde. Na ida ao trabalho. Na chegada das crianças. No rolé por algum lazer. Na volta do mercadinho. Ir e vir não é um direito.

“E-N-J-A-U-L-A-M-E-N-T-O”, é o que nos cabe; é o que nos resta. Aprisionados-exilados em nossas próprias casas, escondidos, supostamente protegidos, afinal: estão lá fora cuidando da gente (QUE GENTE?).

Mas temos responsabilidades, compromissos e desejos também. Não somos animais e, mesmo eles, merecem algum respeito — ou não? A guerra às drogas é a obra ficcional mais bem roteirizada-produzida-e-dirigida da história; o projeto de empreendedorismo mais criativo e rentável idealizado até hoje.

Fuzila o ‘morador’ e depois justifica: “bota na conta do papa”, estamos cuidando da cidade. MAS,

Que cidade?
Para quem?

QUE CIDADE E PARA QUEM?

Precisamos conversar sobre a guerra às drogas.
Precisamos conversar sobre novas políticas públicas de drogas.

Por favor.

Texto inicialmente escrito para o jornal Cdd Acontece.

Perfil Pessoal: Jota Marques
Página Oficial: Marginal