Por onde começar? Tudo caiu e eu ainda estou perdido, tudo acabou, morreu de alguma forma que eu nunca vou conseguir resolver. O tempo é fulminante, tudo é uma questão íntima para ele, sem pressa o tempo vai passa no leve vento do fim da manhã e leva algo crucial. E me pego perguntando para o mundo: “a hora era essa?”. O tempo não responde, ele é uma justiça que efetua seus deveres sem pedir licença.
E ainda sinto a falta, quando acordo antes das seis, fico olhando para o teto, esperando algum barulho de tosse, seus pés rachados e duros arrastando pela casa, de noite era o cheiro de graxa, as piadas nos dias em que tudo dava certo e o mau humor nos dias em que tudo dava errado. Lembro com precisão das conversas que mais tarde viriam me formar a pessoa que sou, porra, como é ruim saber que eu me peguei em alguma situação e não ter a quem recorrer de uma forma implícita, pode parecer mimado, mas eu sempre soube que se fizesse alguma merda, você estaria ali por mim, estaria em pé do meu lado, me olhando com reprovação, um maldito incentivo contrário para que eu fizesse meu melhor. Eu não tenho a pessoa que mais me amou de verdade, eu a perdi.
Alguém me entende, mas ninguém é você. Todos se importam, mas não se importam como você. Que merda teve de acontecer? Onde existiu uma trama do universo para que tudo se culminasse dessa forma? Foi em um dia muito frio e de chuva que eu cuspi quando falei o nome de Deus e roguei pragas, você morreu embaixo daquilo que acreditava. Encontrou paz? De nada importava gritar para o ar, estava feito, aconteceu. Tudo foi para o fogo, nada era a mesma coisa e eu estava completamente perdido. Existe uma fina angústia, um rancor de que não deveria ter ido, me dói até a alma a imagem de seu melhor amigo sentado naquela cadeira da igreja, com olhares fixos no caixão, ele olhou pra minha mãe e engoliu o choro, a dor na garganta dele, deveria ser como a minha, mas eu não segurei o choro.
Tudo que deixou foi a mpb, o cheiro na casa e na memória — qualquer cheiro similar, e você — os hábitos herdados pelo sangue, as fotos que me fazem chorar sempre e as palavras que me fizeram ser diferente de todos da família… Por mais que existam dias que me sinta mais morto que ‘o senhor’, só basta lembrar de quem era, e me volta o orgulho de viver e de dizer que era seu filho.
