Depressão, Netflix e Maniac.

A depressão é a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo. De acordo com as últimas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015. E quando a gente traz essa pesquisa para o nosso país, temos o resultado de 11,5 milhões de brasileiros que sofrem com essa doença. E isso é uma pesquisa de 2005 a 2015, estamos em 2018 e com certeza esse número já mudou consideravelmente.

A depressão tem diversas fontes de origem e pesquisando para fazer esse texto, descobri que lá em uma universidade do Texas fizeram uma pesquisa e associaram o ato de maratonar séries como um fator determinante para a depressão. Sentimentos de solidão, depressão e deficiência de autocontrole são apontados na pesquisa. Acredito que não só séries, mas animes, filmes, reality shows ou qualquer meio de entretenimento que sirva como uma válvula de escape para a sua realidade. Mas, esse texto vai ser sobre séries e vou desconsiderar todos os outros meios, então vamos lá.

Termo pomposo para Maratonar.

Como tudo tem que ter um termo hoje em dia, assistir série por muito tempo não ficaria de fora. Aqui nós chamamos de maratonar, mas lá fora o termo ficou com o nome de binge-watching. Se pegarmos para analisar o termo em inglês, vemos que o verbo binge significa empanturrar ou comer algo que você gosta muito. Watching é assistir, então juntando os dois dá o nosso maratonar, para ficar mais simples. Esse feito moderno é culpa do avanço do sucesso comercial da Netflix, ela estimula esse comportamento em pequenas coisas como emendar um episódio no outro ou até mesmo em sua abordagem pouco habitual de uma empresa. Você não sente que a Netflix é sua amiga? Se você pegar qualquer postagem da empresa no Facebook, ela responde e conversa com as pessoas normalmente. Isso não é ruim, pelo contrário, antes eu não via essa tendência das empresas se humanizarem e ficarem próximas aos seus cliente. Agora, até as empresas mais conservadoras estão mudando a forma de como agir com o seu cliente. Nessa mesma onda da Netflix, temos o Spotify, Uber, Ifood e tantas outras. Ao fazer esse tipo de abordagem a empresa se torna quase uma pessoa e meio que convida a utilizar o seu produto.

Mas o principal motivo para causar o fenômeno de maratonar é liberar uma temporada inteira de uma só vez. Eu não me lembro em nada parecido antes, eu sofria para ver um mísero episódio de Lost por semana, dublado e na Globo, sim era terrível. A maioria das pessoas que eu conheço já maratonaram pelo menos uma série inteira em um único dia. Creio que elas só passaram a maratonar depois da Netflix, justamente pela facilidade para assistir uma série inteira em apenas um clique. É claro que elas poderiam fazer isso antes, mas agora ficou bem mais comodo e fácil. Parece papo de tiozão, mas antigamente eu tinha que comprar um box, que não era nem um pouco barato, para assistir as séries que eu mais gostava. Então, vou pegar como exemplo Lost. Eu adorava ver a série e no meu aniversário de 18 anos juntei o dinheiro que eu ganhei de presente e comprei os 4 primeiros boxes da série, e foi bem caro na época. Hoje, para você assistir a série na íntegra é só abrir o programa e apertar play, simples e direto. Isso também deixa as pessoas mal acostumadas, quem nunca indicou um filme ou série e ouviu essa pergunta como resposta: Tem na Netflix? Se a resposta for não, a pessoa simplesmente abstrai a indicação e parte para uma obra que tenha dentro do serviço de streaming.

Como esse fenômeno é relativamente novo então só encontrei uma só pesquisa e achei interessante essa fala do pesquisador:

- Mesmo que algumas pessoas argumentem que “binge-watching” é um vício inofensivo, resultados do nosso estudo sugerem isso que não deve mais ser visto desta forma — diz Sung. — Fadiga, obesidade e outros problemas podem ser relacionados a esta prática. Quando se torna algo desenfreado, os telespectadores podem começar a negligenciar seus trabalhos e suas relações com os outros.

É aquela velha história que a nossa mãe diz pra gente, tudo em excesso faz mal. Agora entrando no campo do achismo pessoal, particularmente eu enxergo o excesso de entretenimento uma fuga da nossa realidade. Vou colocar um exemplo próprio para falar com mais propriedade. Nessas eleições caóticas que tivemos nesse ano, eu me exilei do Facebook por conta de crises de ansiedade e fui assistir filmes aleatórios. No final das eleições notei que todo dia eu assisti a pelo menos 1 filme por dia e inconscientemente estava buscando refúgio nessas obras. O mesmo deve acontecer com as pessoas que são viciadas em maratonar uma série, mas claro, isso pode ou não ser inconsciente. Mas como a pesquisa diz, o ato de maratonar mexe diretamente com o auto-controle do seu cérebro. Você induz ao seu cérebro a achar prazeroso e recompensador maratonar uma série, mas na verdade isso pode trazer malefícios a sua saúde. Tá, mas por qual motivo eu falei tudo isso?

Recentemente estreou na Netflix uma mini-série chamada Maniac. Antes de saber qualquer coisa sobre a série, ela já estava na minha lista por conta de um nome: Cary Joji Fukunaga. Esse cara dirigiu e foi o produtor executivo da primeira temporada de True Detetive, série da HBO. Em 2015 ele dirigiu o excelente filme Beasts of no Nation, produção da Netflix. E em 2018 ele apresentaria mais uma parceria com o canal de streaming e sinceramente eu não poderia deixar passar uma obra desse cara.

Maniac tem como plot inicial uma empresa farmacêutica que pretende exterminar problemas psicológicos de uma vez por todas. Chega de sofrer, chega de pagar psicólogo/psiquiatra e tomar remédios controlados. Essa empresa tem um método em que consiste dar 3 pílulas para os candidatos. As pílulas tem o nome A, B, C e cada uma delas age de uma forma diferente da outra. A pílula A que mapeia o trauma de cada um, a pílula B mostra os pontos cegos e os organismos de defesa que cada paciente utiliza para esconder o seu trauma, já a pílula C é para o paciente confrontar e aceitar o seu trauma.

Os personagens principais são o Owen, que é interpretado pelo Jonah Hill e Anne, que é interpretada pela Emma Stones. Owen é um cara socialmente deslocado no mundo e principalmente dentro de sua família, ele é esquizofrênico e procura a empresa para tentar acabar de uma vez por todas com suas condições. Já Anne utiliza a pílula A como droga do dia-a-dia. Quando essa droga acaba ela se vê obrigada a comprar mais, mas por fazer parte do processo da empresa, essa pílula não é comercializada. Sabemos mais tarde, no episódio 2 se eu não meu engano, que o seu trauma é a perda de sua irmã em um acidente brutal de carro, onde um motorista de caminhão bate no carro delas e a tragédia acontece. O motorista estava drogado e acordado por muito tempo, então isso ocasionou o acidente.

A sinopse foi dada e a partir daqui é pura interpretação minha. Pode ser que seja isso mesmo que o diretor quis passar, mas pode ser que não. Então vamos lá.

Antes de falar dos personagens em si, quero deixar claro alguns pontos que me fizeram refletir bastante. Primeiramente a série se passa em um futuro distópico, talvez num futuro distante ou próximo. Os locais lembram bastante o Japão, justamente por causa de seus letreiros e pela maioria dos contratados da empresa serem japoneses, mas até agora não sei onde se passa a série. Quando começa o processo de tratamento é exibido um vídeo para explicar do que se trata o programa. Eu não consegui achar no YouTube, mas esse aqui tem a mesma ideia executada de forma mais contida, a original é um show de vaporwave e bizarrices.

Basicamente, a tecnologia em si não é levada a sério aqui e em partes parece arcaica, lembrando até a primeira série de Star Trek com vários botões, luzes e com coisas manuais. Tirando a empresa, os personagens em si não possuem uma tecnologia tão absurda, então é válido mostrar somente a empresa com um potencial maior. De qualquer forma, a maneira como a tecnologia é abordada é arcaica e caricata, como no vídeo acima. Enquanto séries tipo Black Mirror optam por ter uma tecnologia mais moderna e integrada em nossas vidas, aqui acontece o oposto. As únicas tecnologias acessíveis aos personagens principais são pequenas, mas quando se trata de personagem com maior poder aquisitivo como o Dr. James, aí já começa a mudar de figura. Da a entender que a tecnologia virou um nicho como era na época de Steve Jobs e Bill Gates, tanto que a logo da empresa tem uma fonte parecida com a IBM e com as cores parecidas com a primeira logo da Apple. Mas esse nicho passou a ser exclusivo de pessoas com dinheiro, mas isso tudo é uma divagação, voltemos ao assunto.

Esquerda: empresa da série. Direita: primeira logo da apple, aplicada em um Macintosh.

Todo o processo é gerenciado por um computador e depois de alguns episódios, descobrimos que o computador tem uma personalidade e sentimentos reais. O humor do computador afeta o funcionamento da empresa e aos poucos você vai descobrindo o que é o computador. Então, acredito que o diretor fez uma crítica ampla nesse quesito. Alguns podem falar que foi uma crítica sobre a Siri da Apple ou a Cortana do Windows, ambas assistentes virtuais que auxiliam o usuário no seu dia-a-dia. Mas lembra que eu falei da humanização da Netflix lá em cima? Então, esse computador junto com as pílulas fazem as cobaias viajarem por vários lugares e épocas diferentes. Uma hora os personagens estão em uma realidade que eles formam uma família e em outro momento eles estão infiltrados em um local para roubar um certo objeto. Ou seja, o programa faz eles saírem de suas realidades para viverem em outras.

Aonde eu quero chegar com isso? A série faz uma clara crítica aos próprios espectadores que usam a tecnologia de forma errada. Temos vários personagens e cada um deles está fugindo de sua realidade traumática usando a tecnologia como válvula de escape. Os principais estão ali para curar uma doença, mas exemplos como o Dr. James que é interpretado pelo Justin Theroux chega a ser absurdo. Por conta de seus traumas, ele só se relacionada com mulheres virtuais e se encontra em forma decadente em um cubículo que ele chama de casa. Isso acontece em outras obras como Blade Runner 2049 (2017), Her (2013) e se paramos para analisar, todas essas obras existe uma empresa que incentiva esse tipo de comportamento, assim como a Netflix incentiva os seus usuários a maratonar suas séries e passar a maior parte do dia gerando números para empresa.

ExpectativaXRealidade

A imagem dos candidatos imersos dentro do programa é um retrato não tão distante da nossa realidade, com tantos óculos de realidade aumentada e tantas bizarrices que vemos pela Internet, essa imagem não chega a ser tão absurda assim. Muitas pessoas hoje falam com uma propriedade absurda que maratonaram uma série inteira em um dia ou que estão jogando tal jogo em realidade aumentada, parece até que esses atos merecem um troféu de comprometimento com o entretenimento, mas acredito que isso seja extremamente danoso e aumente ainda mais os sintomas descritos na pesquisa que eu linkei no começo do texto. Aos poucos a humanidade vai caminhando para um grau irreversível e aparentemente ninguém está notando isso. Por isso que o filme Wall-E (2008) soa tão assustador, ele é bastante verossímil e gera um tipo de discussão que confronta diretamente nossos hábitos. Eu não estou fazendo esse texto para criar uma figura maligna da tecnologia, pelo contrário, nós precisamos dela. Mas a partir do momento em que ela toma conta das nossas vontades, aí começamos a ter um problema sério.

Há uma frase na série eu achei interessante, ela é dita pelo Dr. Fujita (Sonoya Mizuno). Ele fala o seguinte:

“Pessoas assim não querem seguir em frente(…) As pessoas que sentem que merecem a perda devem tentar seguir em frente. Podem se sentir recuperados, mas sempre acabam voltando.”

Ao falar isso, o personagem deixa claro que os traumas nunca vão embora, mesmo você querendo se refugiar em seus passatempos. Normalmente a pessoa se auto-sabota para que essa situação perdure e acabam se acostumando com todo o cenário caótico que está ao redor dela. Anne, no mesmo episódio, diz que no universo não há padrão, tudo é caos. Ela é uma personagem extremamente complexa e só vê saída em suas viagens com a pílula A. Felizmente, o final da série dá um ar otimista para toda essa situação. Nós necessitamos de interações humanas em um mundo cada vez mais particular, solitário e competitivo. Tentem fazer uma auto-crítica ao assistirem uma série, tentem analisar quando um hábito se torna um vício. Não estou dizendo aqui para vocês pararem de assistir séries, eu também não vou parar, mas cabe a nós ver até onde isso está afetando o nosso estado mental como um todo. Empresas como a Netflix incentivam esse comportamento em seus usuários para gerar mais dinheiro, nós viramos meras estatísticas e em nosso inconsciente essas empresas soam como um amigo próximo em nossos momentos solitários em frente a TV.

Acho que é isso, escrevi coisa pra caramba e ainda não escrevi tudo o que eu queria falar. Muita coisa se perdeu em pensamento, mas a mensagem da série está enraizada dentro de mim. Pode ser que nada disso que eu falei aqui faça algum sentido e que o diretor tenha pensado algo diferente, mas a minha interpretação foi essa. Eu foquei somente no fenômeno de maratonar, imagina se eu colocasse no bolo todo lance de redes sociais, smatphone e afins. Acho que isso dá um texto até maior que esse aqui. Assistam Maniac, mas com moderação.