A Paixão do Cristo: Bíblia filmada

Cristo em toda sua humanidade

A Bíblia, por si mesma, é um dos pilares da civilização ocidental. O crítico literário canadense Northrop Frye considerava que o ensino da literatura deveria começar por ela e que seu entendimento se dava em quatro níveis. O primeiro, o literal, tratava do sentido histórico, do que realmente aconteceu. O segundo, o alegórico, trata do simbolismo, das imagens que nos permite compreender a realidade. O terceiro, o moral, apresenta os ensinamentos e conduta de uma vida correta. Finalmente o nível anagógico trata da visão da salvação. A riqueza da Bíblia é tão grande que qualquer perspectiva isolada já é de beleza sem igual, mas é na compreensão das quatro perspectivas principais que ela se transforma em uma experiência única.

Os filmes bíblicos sempre ressaltaram o primeiro aspecto, o histórico. Os grande épicos de Hollywood são histórias bem contadas, que agradavam o público em geral, enquanto o ensinamento moral e imagens simbólicas eram aspectos secundários, que não interferiam na narrativa. Belos filmes foram produzidos, mas a experiência estética sempre era parcial em comparação com o texto bíblico, pois a Bíblia era amputada ao ser transposta para o cinema.

A Paixão do Cristo (2004), de Mel Gibson, conseguiu uma proeza ao realizar, com sucesso, esta transposição da Bíblia com todos os seus níveis de compreensão. É quase uma Bíblia filmada, se isso é possível. Muito se falou do extraordinário realismo, e com razão, mas poucos ressaltaram os aspectos alegóricos do filme.

Sim, o filme tem o carácter histórico. Os acontecimentos das últimas 12 horas de Cristo estão mostrados tais como narrados nos Evangelhos. O cuidado de utilizar o aramaico (e o italiano) foi extremamente feliz, pois sempre se perde qualquer coisa ao se colocar personagens bíblicos falando inglês. Além disso, a muito criticada violência explícita do filme era absolutamente necessária. Era preciso que o filho do homem sofresse como nunca alguém sofreu para que o sacrifício tivesse a ressonância que teve na história da humanidade. Não é crível que algumas chicotadas fizessem este serviço, não é mesmo? O martírio tinha que ser impactante e concreto. Os flashbacks também foram muito bem colocados, ressaltando o contraste entre o Cristo como pastor e o Cristo como cordeiro em sacrifício, o que nos leva ao maior acerto de todos, o aspecto simbólico.

O trono partido do templo de Jerusalém, os ramos e as orelhas do jumentinho, o sangue derramado no pátio, a presença constante de Satanás, o pão e o vinho, o sacerdote rasgando as vestes. Essas imagens são tão centrais na Bíblia quanto a história narrada. Observem como em uma rápida cena, uma das minhas favoritas, a câmera se coloca no lugar de Jesus entrando em Jerusalém e tudo que vemos é a multidão colocando os ramos no chão e as orelhas do jumentinho que o Cristo montava. No seu livro "Jesus de Nazaré", o Cardeal Joseph Ratzinger (depois Papa Bento XVI), explica de maneira magistral essa passagem. Requisitar meios de transporte era um direito régio reconhecido em toda antiguidade, bem como estender mantos e ramos pelo caminho. Jesus entrou em Jerusalém como um rei, mas um rei diferente. Não montava um imponente cavalo ao estilo romano, mas um jumento. Neste símbolo está a questão central do julgamento. Ele era rei, mas não deste mundo. Os sacerdotes do Sinédrio entenderam muito bem o que tinha acontecido. Foi a gota d'água para os acontecimentos que vieram. Um diretor menos capaz teria utilizado um diálogo para ressaltar coisas como essa. Felizmente, Mel Gibson respeitou seu público e deixou para nós as descobrirmos.

Uma transposição não funciona bem sem alguma licença poética e, nesse ponto, mais uma vez, Gibson acertou. A cena de Jesus com Maria, onde termina de fazer uma mesa, e a testam, como aconteceria em qualquer casa, e no fim o filho joga água na mãe por brincadeira, ressalta toda a humanidade de Jesus, um ponto fundamental para a história. Pequenos gestos como esse substituem, com extraordinária vantagem, longos diálogos. Isso é entender os recursos que um filme permite.

Os elementos para reflexão moral e salvação foram colocados com cuidado, mas Mel Gibson não induz a interpretação. Deixa para seu público o trabalho de refletir sobre o significado da Paixão. Desta forma, evita pregar ou dar lições de moral, optando por mostrar a realidade através de uma sequência de acontecimentos que mudaram a história da humanidade. Cabe ao expectador fazer todo o trabalho.

Por tudo isso, A Paixão de Cristo é um filme que beira a perfeição. É uma experiência completa para quem quiser desvendar todas as suas camadas, estabelecendo um padrão de qualidade para os filmes bíblicos, o que desde já o candidata a clássico do cinema. Sucesso de público, enfureceu grande parte da crítica e de Hollywood. Uma pena. Infelizmente a geração impregnada pela revolta metafísica contra Deus terá que passar para que o filme seja reverenciado pelo seu extraordinário valor como obra de arte. Como costuma acontecer, seus detratores passarão à história como aqueles que não souberam ver, e com toda justiça.

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