Murders in The Rue Morgue, onde tudo começou

Existem hábitos tão arraigados em nossa existência que pouco pensamos sobre como tudo começou. Qual foi o momento que uma determinada realidade se tornou presente para nós? Ainda mais quando essa realidade passa a ser realmente parte de nossa vida a ponto de não imaginarmos essa mesma vida sem ela. A música é um desses casos.
O ano era 1987. Eu morava em João Pessoa, na Paraíba, e tentava escutar rock em uma cidade onde as estações de rádio eram dominadas pelo forró. De vez em quando eu conseguia gravar alguma coisa, geralmente um rock nacional, mas era uma pescaria difícil. Diria que na proporção de 10 para 1.
Eu acompanhara por alto o Rock In Rio. Aquele desfile de artistas famosos me fascinara, como a todos da minha geração, sabia citar as bandas, mas pouco conhecia das músicas. Eu tinha 12 anos quando o festival aconteceu. Não cheguei a assistir os pedaços de shows que passavam na TV.
Lembro particularmente de um album de figurinhas lançado em 1986 sobre Heavy Metal. Durante muitos anos guardei-o, mesmo que incompleto. No Colégio Princesa Isabel, em Botafogo, era um sucesso e resultou em muitas partidas de bafo.
Retornando a 1987, depois de dois meses estudando no Instituto Presidente Epitácio Pessoa, meus pais resolveram me trocar para o Colégio Objetivo, recém inaugurado na cidade. Íamos receber uma visita de uma tia, vindo de Leopoldina, terra do meu pai. Lá morava um primo que era fã de uma banda que só conhecia de nome e que tocara no Rock In Rio, o tal Iron Maiden. Vi uma oportunidade para que ele gravasse e me mandasse uma fita K7 com músicas da banda. A fita tinha músicas dos 3 LP que ele tinha: Killers, Live After Death e Somewere in Time. A música que iniciava a fita era Murders in the Rue Morgue.
Difícil descrever o efeito que esta música teve sobre mim. Acostumado ao rock nacional, cujos engenheiros retiravam o peso das guitarras, o que só fui saber recentemente pelas entrevistas do Lobão, para dar um ar mais pop ao som, não estava preparado para aquela porrada musical.
Até hoje considero a introdução de Murders in the Rue Morgue a mais perfeita feita pelo Iron. O dedilhado inicial, composto por toques espaçados, que aumentam o ritmo iniciando um riff, a virada de bateria e a banda entrando toda junta depois de uma pausa, com todos os instrumentos em alta velocidade geraram um efeito que nunca esqueci. A voz nervosa de Paul Di’anno entrava cortante, misturando juventude e um tom pessoal que lhe era próprio. A partir daí, um ritmo que não dá fôlego, com solo alucinante, baixo cavalgando e uma melodia simplesmente hipnotizante.
Eu não tenho idéia de quantas vezes escutei aquela fita. Lembro de tê-la ainda em 1994, sete anos depois, já na era do CD. O Iron Maiden foi a minha primeira banda do coração. Outras seguiriam, mas ela sempre terá um lugar especial em minhas memórias, especialmente a música que me conquistou para o rock’n’roll, de onde nunca mais saí.
