Thanos, o louco de boas intenções

Guerra Infinita é sobre Thanos, o personagem mais complexo e fascinante do filme. Desde que aparece na primeira cena, domina o espaço com sua presença realmente cósmica, estabelecendo o ritmo e o tom dos acontecimentos.

O filme é a celebração de dez anos da Marvel filmes, uma revolução que mudou a forma como os quadrinhos de super heróis são adaptados para o cinema, introduzindo conceitos como arcos que se conectam em crossovers, algo comum para quem lê os quadrinhos mas que ainda não tinha aparecido no cinema. Por isso não há muito espaço para a apresentação de personagens e situações, que são desenvolvimentos de filmes anteriores. Exceção, claro, para Thanos.

Thanos e a expressão da loucura primordial

Nada que impeça de entender e apreciar o filme; ninguém precisa se desesperar! Serve, ao menos, para despertar a curiosidade de como certas situações se desenvolveram (eu mesmo não vi todos os 18 filmes anteriores).
 Enfim, Guerra Infinita é ação do início ao fim, com conclusão de vários arcos dramáticos, mas também é um filme de Thanos. O titã, cuja loucura reflete muito do nosso mundo, o que desperta a simpatia de muita gente. Acertaram o tom do personagem ao colocá-lo como uma mente racional, que tudo pondera com cálculo __e não sem certa simpatia. Interessante que mais uma vez o mal aparece revertido de racionalidade para nos tentar.

A questão que permeia o filme é o inconformismo com a realidade. Thanos encarna uma visão que considera o mundo (ou o cosmos) como imperfeito, seja por uma criação defeituosa ou por uma evolução incompleta. Alguns que partilham esta visão acreditam que a perfeição do mundo pode ser alcançada e isso fica evidente quando Thanos diz a Gamorra que o planeta dela tornou-se um paraíso depois dele ter eliminado metade de sua população. O contraste é o planeta de Thanos, que pereceu por não ter tido a mesma intervenção, o que sugere a perigosa tese que é possível promover o bem pelo mal.

Os heróis possuem outra visão. Eles reconhecem a imperfeição do ser humano, a começar por eles próprios. Justamente por isso não possuem ilusões de construir um paraíso. Tudo que querem é lutar contra o mal e proteger o que está de bom no universo, mesmo com todas as suas falhas. Eles não se colocam acima dos demais, muito pelo contrário. Possuem o bom senso de não confundir o poder que possuem com superioridade moral. Imperfeitos, são constantemente levados pela hybris e fazem besteiras, como na cena que Peter Quinn coloca tudo a perder no confronto com Thanos por não se controlar. No entanto, e quando esquecem de si mesmos e lutam pelo companheiro que são melhores. Chama atenção quantas vezes o heroísmo deles é definido pelo sacrifício, como acontece com o Homem de Ferro no primeiro Vinadores ou o Capitão América em Soldado Invernal. A solução do herói para o dilema de salvar parte da humanidade para preservar uma parte maior é o sacrifício, uma idéia que nunca passaria na cabeça de Thanos.

Soma de Imperfeições

Chesterton dizia que só tinha duas perguntas para aqueles que advogavam que o mundo tinha gente demais e que uma parte não deveria existir. A primeira era qual grupo a pessoa achava que pertencia. A segunda era porque achava isso. Gosto de pensar que o velho sábio perguntaria a mesma coisa para Thanos.

Uma dinâmica interessante é entre o Homem de Ferro e o Doutor Estranho. O primeiro acredita que a tecnologia é a arma para resolver o problema da luta contra o mal; o segundo, que é a magia. Ambos descobrem ao lutar contra o mal absoluto que tanto tecnologia como magia possuem seus limites.

De todos, acho que é Thor quem melhor enxerga a verdadeira natureza de Thanos, a que se esconde debaixo de todo aquele altruísmo. Todo discurso de Thanos são camadas para esconder a essência de seu espírito, que é o desejo maligno por excelência, o de tomar o lugar de Deus. No fundo é disso que se trata. Deus fez um trabalho horroroso com o cosmos, é hora de alguém mais sábio assumir esse papel. Como todo bom ideólogo, Thanos quer definir a realidade, quer implantar o mundo como idéia, como dizia o poeta Bruno Tolentino. É a mesma tentação de Adão e Eva, de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por que Deus reage contra esse desejo? Porque não se trata do conhecimento humano do bem e do mal, mas do divino. Deus não conhece as coisas como nós, ele conhece por definir. Conhecer para Deus é dizer o que é. Ou seja, da verdade ser expressão de nossa vontade. Trata-se de uma grande ilusão, pois somente um ser infinito absoluto poderia ter essa capacidade. Por isso Thor diz a Thanos: você nunca será um deus. Ele vê que Thanos está tomado por esta loucura primordial e que esta será sua perdição.

Os heróis da Marvel são falhos e aceitam a realidade tal como ela se apresenta. Eles não imaginam solucionar o mundo, mas garantir a liberdade para que as pessoas possam escolher seus destinos, justamente o que os vilões estão sempre impedindo. A essência de todo vilão é tirar a liberdade de escolher das pessoas. De certa forma, Thanos apenas condensa todos os vilões anteriores.

Thanos é a representação do mundo como idéia em oposição ao mundo como realidade. Ele tem a chama a consumi-lo de que o cosmos pode ser salvo se houver alguém com vontade suficiente para tanto. Ele repete sua motivação à exaustão, talvez tentando convencer a si mesmo de seus bons propósitos quando no fundo está movido pela arrogância espiritual de ser considerar melhor do que todos os outros, um portador das verdades eternas. Estamos falando da idolatria de si mesmo, a absoluta centralização do eu. A raiz da mentalidade de Thanos está na soberania da intenção, que implica na relativação de toda ação, como defende, por exemplo o filósofo Slavoj Zizek. Thanos não aceita ser julgado por seus atos concretos, muito menos pelos resultados, mas sim por suas intenções. É aí que o demônio toma o mundo.

Este pensamento está disseminado desde a modernidade. Não faltam Thanos com a solução mágica para o problema do mundo, seja ele qual for. Só eles possuem a vontade necessária para implementar a solução que mudará o mundo, com o efeito colateral de de exterminar uma parcela da população. Trata-se da fé metastática descrita por Eric Voegelin, a transformação do mundo por um ato de magia fruto da vontade.

Resta, aos que reagem, a união como forma de enfrentar a centralização cada vez maior do poder, em Thanos representado pela manopla do infinito, um símbolo para o poder absoluto que almeja o totalitário de plantão. No fim, a realidade sempre termina por vencer e se impor, como alertava São Tomás. Thanos sempre será derrotado e a pergunta que sempre ficará é: a que custo?