Woody Allen e o sentido da vida

A vida não faz sentido e o máximo que fazer é aproveitar os poucos momentos de felicidade. O além é uma poderosa ilusão criada para nos consolar nas ocasiões difíceis e uma mente racional demais, que recusa este mecanismo escapista, nos levará certamente à infelicidade. Pelo menos é o que nos diz Woody Allen no filme You Will Meet a Dark Tall Stranger (2010).

Allen professa publicamente estas teses, embora críticos como o Bispo Robert Barron¹ perguntem se ele realmente acredita nelas. De qualquer forma, seus filmes são ricas reflexões sobre as consequências de seu próprio niilismo.

Em “You Will Meet…” acompanhamos dois casais. Alfie está em crise de meia-idade e separa-se de Helena após 40 anos de casamento e, na busca pela juventude perdida, casa-se com uma garota de programa, Charmene. Helena encontra consolo em uma cartomante charlatã, Crystal, que, com boas doses de whisky, prevê um futuro de alegria com um novo amor. O outro casal é formado pela filha de Alfie e Helena, Sally, que vive um casamento em crise com Roy, um escritor de um único sucesso, que não consegue terminar o segundo livro. Sally apoia a mãe em sua busca espiritual, embora secretamente rejeite a cartomante. Roy é o céptico racionalista que não aceita nenhuma forma de espiritualidade. Ele passa a observar uma nova vizinha, que vê sempre pela janela do seu apartamento. Sally, por sua vez, vai trabalhar como assistente de um charmoso curador de galeria de arte, que também vive uma crise em seu próprio casamento.

Casamentos em crise, vidas sem sentido e busca de uma fuga para a realidade. Alfie se entrega ao prazer sem perder tempo com considerações morais e é feliz; pelo menos por um tempo. Helena se empenha cada vez mais no falso espiritualismo e vai encontrando consolação. No fim, é a única feliz. Ou seja, em uma vida sem sentido, o melhor mesmo é se entregar a uma espiritualidade rasa.

Sally se apaixona pelo chefe e tem a perfeita oportunidade para um caso. No entanto, seu senso moral a impede. Quando seu casamento termina, tudo que lhe resta é o arrependimento de não ter aproveitado aquele momento, pois agora o chefe está com outra, uma pintora que ela mesmo apresentou a ele. Em uma vida sem sentido, não vale a pena se prender a uma moral; é preciso aproveitar a oportunidade quando ela aparece. Mas será mesmo?

Aproveitar a oportunidade é justamente o que Roy faz. Não só flerta com a vizinha, como não tem escrúpulos em terminar seu casamento e o noivado dela. Quando um amigo morre e Roy é o único que sabe que ele escreveu um romance brilhante, não hesita em se apropriar do manuscrito como seu. Só que tanto Alfie, quanto Roy, descobrem que aproveitar o momento não garante uma felicidade duradoura.

Alfie percebe que o sexo não é substituto para uma fonte da juventude. Charmene não tem a menor sofisticação intelectual e nada pode oferecer além de seu corpo. Não demora muito a estar preso a uma esposa que o trai e que engravida de outro homem. Pateticamente ele tenta um retorno com Helena, mas ela já tocou sua vida adiante.

Já Roy descobre que o amigo ainda está vivo, em coma, com boas chances de recuperação. O livro já está em edição e será publicado. Sua última cena é ver Sally pela janela e perceber que o gramado do vizinho é sempre mais verde, mesmo que você tenha mudado de gramado.

Dos quatro personagens centrais, apenas Helena termina feliz, ao se juntar a um viúvo, dono de uma livraria espiritualista. Ao se entregar ao espiritualismo escapista, encontra a fuga necessária para viver neste mundo. Os racionalistas acabam infelizes. Aproveitar o momento como fazem Alfie e Roy fazem apenas rendem efêmeros momentos de felicidade; Sally, nem isso.

Curiosamente, um tema ou fonte de sentido é deixado de lado por Woody Allen, a religião. Ele é inteligente demais para confundir o espiritualismo retratado no filme com um autêntico sentido religioso. Se deixou de fora essa possibilidade de sentido é porque teve seus motivos. O que nos sugere o filme é que, na ausência da religião, tendo de optar por um mundo materialista e sem sentido, e um charlatanismo espiritual, fique com o segundo. Esse filme faz espelho com Magic in the Moonlight (2014), cuja solução é diferente. Em Magic, rejeita-se tanto a amoralidade quanto o escapismo, e aposta-se no amor, um sentimento que não aparece no “You Meet…” em nenhum momento. Só existe cinismo.

Woody Allen é um retratista. Ele nos descreve os dilemas do mundo contemporâneo e nos coloca perguntas, explorando possíveis respostas. Se “You Will Meet…” incomoda pelo cinismo explícito, sem possibilidade para amizade e amor, ele também deixa evidente que trata-se de um beco sem saída existencial e nos faz perguntar até que ponto ele acredita em seu próprio niilismo. Podemos viver na expectativa de alguns efêmeros instantes de felicidade?

Eu penso que não.

Notas:

1: O Bispo Robert Barron faz interessantes reflexões sobre o cinema moderno e sua ligação com as idéias católicas. Há diversos vídeos gravados por ele no youtube analisando diversos filmes. Um exemplo é a análise do filme Bravura Indômita (https://www.youtube.com/watch?v=Ii_O1ONMwWg)

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