Yuval Harari e a proposta do globalismo

O historiador Yuval Harari é conhecido no Brasil por seu livro Sapiens, um relativo sucesso. Em entrevista no TED Talks, ele apresenta suas idéias sobre o debate político atual. O primeiro passo para criticar o pensamento de alguém é entendê-lo. Tentei resumir abaixo os principais pontos da entrevista para poder organizar meu pensamento. Se errei em algo ou deixei uma idéia relevante passar, me corrijam!

  1. Nos acostumamos com a idéia que a felicidade seria garantida com a globalização econômica e a liberalização política. Esse modelo é uma mentira pois não podem coexistir as duas coisas.
  2. A política tem que se tornar global para se tornar compatível com a globalização econômica. Não há como retornar a economia para o nível nacional-local.
  3. Os problemas atuais são globais.
  4. Os dois grandes problemas da humanidade hoje são: mudanças climáticas e ruptura tecnológica
  5. A tecnologia é a grande ameaça ao emprego e não a competição entre países
  6. Não existe uma narrativa cósmica para a existência do homem. O grande objetivo da humanidade deve ser vencer o sofrimento.
  7. Toda noção de identidade é falsa pois é baseada numa ficção (mito, religião ou ideologia)
  8. É necessário um governo global para lidar com essas ameaças.
  9. Esse governo não se parecerá com uma democracia dinamarquesa. O provável é que se pareça mais com o antigo império chinês, onde uma governança forte terá que impor a solução dos problemas globais. É um preço que se deve pagar pois a alternativa é pior e causará mais sofrimento.
  10. A grande divisão da política atual, portanto, é entre globalismo e nacionalismo. Conceitos de direita e esquerda estão ultrapassados.
  11. Vivemos a melhor época da história.
  12. Abandonar as narrativas míticas e religiosas é sinal de progresso.
  13. Não há uma visão clara de como deve ser a governança global, mas ela é necessária.

Pois bem, faço então a seguir meus comentários sobre esses pontos:

  1. Yuval ignora o aumento do poder centralizado da política no último século. Parece que os governos se tornaram mais democráticos e liberais. Para ele, o mal-estar atual se deu pelo enfraquecimento dos governos e não por sua excessiva intervenção.
  2. Será mesmo que a globalização econômica não pode conviver com economia local? Por que é preciso um nível superior aos estados para regular a economia? Não se pode retomar as negociação bilaterais?
  3. Não estou convencido que os problemas principais são globais.
  4. Não estou convencido do problema das mudanças climáticas. Em Sapiens, Yuval argumenta que toda mudança climática e ecológica, mesmo na pré-história, foi causada pelo homem.
  5. Não estou tão seguro que a tecnologia permitirá ao homem criar vida (e se tornar Deus).
  6. Estamos chegando ao ponto que não será mais possível a substituição de emprego? Até agora sempre foi possível abrir novos caminhos. Mas admito que o ponto é válido e a dúvida é real.
  7. Sobre o objetivo do homem ser vencer o sofrimento, isso remete a uma palestra do Peter Kreeft sobre o sentido do sofrimento. Não me parece corresponder à verdade.
  8. Mitos, religião e a própria ideologia possuem mais de verdade do que mentira. Acho que Voegelin está correto neste ponto de considerar estas narrativas como símbolos compactos da transcendência, assim como Mircea Eliade, o maior estudioso de religiões comparadas.
  9. Não é possível concordar com Yuval e ao mesmo tempo crer na transcendência. Seu mundo é material e físico. Ele propõe o fim da religião.
  10. Ele não sabe direito como será o governo global, mas defende que é necessário. Isso me parece perigoso.
  11. Pode ser que algumas soluções podem ser necessárias ao nível global, mas é preciso um governo para impor-las? A que preço?
  12. Em termos de riqueza material, não há dúvida que vivemos na melhor época da história. Mas o mesmo vale espiritualmente? Somos mais felizes do que nossos antepassados?
  13. Abandonar as narrativas mítico-religiosas é abandonar, com elas, a verdade. Corresponde a rebaixar o homem ontologicamente. Parece-me que Yuval propõe, disfarçada, uma religião da humanidade.

Como podem ver, não concordo muito com os pontos centrais do pensamento de Yuval. Confesso que quando li Sapiens, algo me incomodou mas não soube ver o que se tratava. Essa palestra foi esclarecedora. Comecei a entender melhor o que ele propõe, e não gostei.

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