Dia 1: começar de novo

Mais um ano foi, mais um ano vindo. A vida é meio doida, né. Sexta, dia 29 de dezembro de 2017 rolou o Setemeia Scubalypse. Eu estava acostumado com rolês onde sempre a galera miava e dava dois gato pingado. Tinham umas 30 pessoas em casa. Todas cantando, dançando e botando tudo pra fora. Parece uma tacada louca, uma vez que eu sou agorafóbico, com episódios de ansiedade, depressão e isolamento. Mas ainda assim, passada a primeira onda, quando você percebe que o chão dá pé, a coisa toma outro rumo. Foi talvez uma das melhores noites de 2017, se não a melhor de todas. O Iury, da Scuba Divers fez uma resenha tão linda, e só pude ler agora. Um dos trechos simplesmente me pegou na curva e fez eu desmontar aqui, agora que todos foram embora pra suas rotinas, pegar um último descanso antes que o ano realmente comece acertando a gente como um ferreiro, e eu acho justo dividir aqui:

Este rolê me fez vir à cabeça a tal da piedade com a gente careta e covarde que devemos todos os dias cultivar em nossos corações. Eu não concordo muito bem com isso — não totalmente. Com algumas delas devemos, sim, ter piedade. Mas com outras devemos ter mesmo é força — com estas devemos ser um grande e pesado martelo, e golpeá-las tenazmente. E com outras, ainda, não devemos nem ter piedade nem exercer força, pois nem de longe são elas caretas e covardes — aquilo que elas são dispensa completamente o que usam, e são elas iluminadas por isso.
Os bichos, a erva e toda a gente presente compuseram uma das mais sísmicas impressões musicais que já tive de mim e da minha banda. Nós dichavamos nossos instrumentos, nossas mãos e pés e nossas goelas. Deles não sobraria nada que não fosse a própria música que deles saiu. Nos demos inteiros e, em harmonia com aqueles que doaram seus ouvidos a nós, construímos um laço, uma ponte entre sorrisos.

É exatamente o que eu queria quando tive a ideia do setemeia. Juntar gente. Fazer momentos como esse onde a gente sente pertencimento, mesmo que dividindo meio quintal entre dez pessoas, um monte de nuvens chuvosas e garrafas pra todo lado. Mostrar que a gente tá num fim de mundo arenoso mas ainda assim não estamos sós.

A virada foi igualmente edificante, e talvez eu fale sobre ela outra hora, mas o foco do post não é esse. Foco, inclusive que precisa ser recobrado esse ano, e é o que vai me motivar a manter essa conta. Talvez eu comece atualizando diariamente e com o tempo vá mantendo semanal ou algo assim, é tudo uma coalescência onde preciso descobrir o ritmo certo.


Metas, métricas, tônicas, grampos — 3⁴

Uma das grandes mudanças em 2018 pra mim é o fato de que vou começar a tomar Venvanse, para ver se consigo domar todo esse turbilhão que passa pela minha cabeça quando os pensamentos ruins estão dormindo. Talvez seja por ser uma anfetamina, talvez seja a vontade de querer algo novo, mesmo que seja o fim, mas eu decidi que talvez seja interessante que eu possua uma métrica e uma rotina.

Como a maioria que me conhece sabe, eu sou muito adepto do mindset em que eu não vou passar dos 35. Eu não quero que meu corpo se torne decrépito e fraco. Eu não quero ser assolado pelos problemas que a idade vai me trazer como uma árvore com fungos dentro do seu tronco esperando a hora certa pra corroer tudo. A minha genética é terrível, e eu sei que são fantasmas que ficam rodeando longe, no horizonte, cada virada, cada aniversário, cada natal mais perto.

Ao mesmo tempo, eu tenho me conectado com um lado experimentalista, quase um desejo inato de querer ser um Jacó-de-todas-as-trocas em um âmbito de querer experimentar meios de arte visual, música. Tentar encontrar algo que seja um checkpoint onde eu possa respirar, soltar aquilo que tá dentro de mim pra acalmar essa angústia em se sentir vazio de significado.

O melhor jeito pra aliar tudo isso que encontrei, foi aliar: a planilha que o Ricken usa pra controlar como passa seus dias, um sistema de metas 3⁴ (3 metas diárias/semanais/mensais/anuais). Tudo isso enquanto mantenho isso aqui como um diário de bordo.


Metas diárias

Entre as minhas metas diárias, eu pensei em algo que fosse facilmente executado diariamente, que me trouxesse um senso de realização ao completar, e ainda assim que me traga algum desenvolvimento seja pessoal, na minha busca pela arte perdida ou mesmo na minha relação com as pessoas ao meu redor. Os itens que consigo pensar são:

  • Manter meu quarto organizado: Meio autoexplicativa, essa é uma meta que vai me trazer um pequeno senso de passagem de tempo, uma vez que vai ser mais fácil de notar coisas, que como no estado atual mostram o quanto eu me deixei levar. Latas, cartelas vazias de remédios, uma camisa de pijama pendurada no mancebo que deveria ter ido pra lavar. Isso vai acabar melhorando minha energia aqui na caverna, uma vez que é onde eu posso dizer com plenitude que passo meu tempo todo.
  • Produzir algo: Esse e o próximo item são mais amplos de sentido, já que podem abordar uma porrada de coisa. Com algo, eu penso em desde um desenho, uma música, ou um texto, a um snippet, alguma API ou algo assim. Preciso pensar em um meio que consiga reunir tudo isso pra no final do ano ter uma referência…
  • Não me machucar: Outro item mais aberto, eu pretendo levar isso desde o lado físico, onde eu pretendo continuar sem me cortar, como também no lado mental e emocional disso. Eu vou abrir mão de toxicidades em amizades, e principalmente o que eu já vinha me desvencilhando durante 2017 mas que vai se tornar mais concreto esse ano: a minha busca pelo amor. Depois de 24 anos no jogo, você percebe que quando o mundo não sorri pra você não tem muito que se possa fazer. Não sou a melhor pessoa pra socializar. A garota que eu gosto veio passar a virada aqui e eu não consegui deixar nada claro, exatamente como na música do Fences por puro medo de estragar tudo e só ficar pior ainda. É o tipo de experiência que mostra que talvez eu só não esteja apto pra isso agora ou talvez nunca esteja. E que só vai ser um hog de tempo e integridade emocional, o que não combina nada com a minha busca por conectar com o meu eu interior. Eu não descarto que algum bug pode acontecer na maquina do universo e as coisas mudem até o fim do ano, mas é o tipo de coisa que é divertido de acompanhar, justamente pra poder comparar no final. Espero que eu esteja errado nisso, já que sou um dos maiores defensores do Omnia Vincit Amor, mas na situação atual, eu só estou socando facas correndo atrás de algo que não posso ter.

Um item bônus nessa lista, que não sei como encaixaria é o hábito que vou cultivar de anotar todas as coisas que me azedem diariamente, e tentar resolver, entender ou lidar com elas de cabeça fria.

Metas semanais

  • Desenvolver um projeto: Mais uma vez, como eu quero buscar uma visão experimentalista, cada semana vai ter um projeto diferente, seja eu montar um site pro meu portifolio, compor um punhado de músicas, soltar um game, ou fazer um pedal de guitarra sozinho. O senso de realização nesses é maior, e por se tratar de algo de um impacto um pouco maior, é interessante que isso seja algo com uma frequência mais curta do que um mês mas ao mesmo tempo não tão exaustiva quanto diariamente. Talvez, com o passar dos meses eu consiga tomar o foco pra transformar isso em algo de dois projetos por semana, ou talvez eu descubra que eu precise de mais tempo pra isso. Tudo uma questão de conhecer meus limites, já que essa é a meta principal, concluir essas coisas são só o meio que eu achei pra isso.
  • Ir à praia: Eu percebi que ir à praia é algo bacana, e um banho de mar de fato pode ser uma experiência bacana. Não digo nem de perder uma tarde nem nada, mas acompanhado ou não, dar um tibum no mar pelo menos uma vez na semana, nem que seja uma quarta feira de manhã, ou uma terça em fim de tarde. É um exercício leve, uma vez que eu pedalo um pouco até chegar lá, e tem todo o negócio de nadar um pouco e lutar contra a corrente, ao mesmo tempo é tão relaxante quanto e ainda me dá uma boa quantia daquela vitamina lá que a gente pega tomando sol.
  • Aprender algo novo: Aprender um idioma novo, estudar uma linguagem de programação ou um framework que eu não conheço mais a fundo. Algo que vá ser uma referência útil em algum ponto da vida, mas não necessariamente de um impacto primário ou que mude o chão onde eu piso.

Um item bônus que eu mais uma vez não conto oficialmente por ser algo mais experimental é adotar as “segundas-feiras sem carne”, que vi alguém comentar no facebook. Eu entendo que não vai ser sempre que vou conseguir, mas se eu reduzir um bocado vai ser uma boa evolução.

Metas mensais

  • Fazer dinheiro: Não falo no sentido de ficar rico. Só o bastante pra eu ajudar com meus remédios, conseguir comer um lanche com a turma no final de semana, esse tipo de coisa. Eu não aspiro por coisas materiais, sendo que na real eu ando cada vez mais voltado a uma visão frugal e minimalista onde tenho me desfeito das minhas coisas, então sei lá.
  • Não tomar refrigerantes, sucos industrializados ou álcool: Essa daqui vai ser relativamente fácil. Já fiz isso o tempo que morei em Minas (não tomando suco/refri no caso), e como aqui em casa eu já era o único que ainda tomava refrigerante só vou me adaptar a isso e ficar total rodando à base de água (eu já tomo água pra caralho normalmente então só ponto positivo pro organismo). O álcool eu vou dar uma reduzida (unicas exceções sendo aniversários importantes e carnaval) drástica pra melhorar a eficiência dos meus remédios. Eu sinto que me deixei levar pelo “cê pode tomar um chope” e transformei isso em mais do que o ideal.
  • Sair com alguém diferente: Eu percebi durante o setemeia e a virada que existem pessoas bem legais ao meu redor e que eu não costumo dar rolê. Vou tentar manter um fluxo de sair com amigos e amigas que não costumo conversar tanto mas ainda acho maneiros o bastante, porque sempre todo mundo tem alguma coisa legal a acrescentar. É assim que as pessoas que não são estragadas da cabeça socializam, né?

Metas anuais

  • Voltar à faculdade: Eu tenho a leve impressão de que talvez não consiga entrar no primeiro semestre, mas definitivamente em 2018 quero voltar pra faculdade, pra reforçar minhas rotinas e melhorar no meu sentido de ressocialização depois de tanto tempo sendo consumido pela agorafobia e por não interagir com pessoas fora do meu circulo de amigos por tanto tempo. Eu tenho visões totalmente opostas à faculdade então depois de três cursos desistidos eu acho que posso garantir pra mim mesmo que não vou perder a cabeça com mais um curso e depois pensar em como fiquei nervoso à toa, porém vou levar o curso a sério.
  • Viajar pra um lugar diferente: Uma meta que é um longo prazo porém nem tãããão inviável assim, quero conhecer algum lugar diferente. Ano passado foi o Rio/Nova Iguaçu, que foi uma experiência incrível, quem sabe o que me aguarda esse ano?
  • Conseguir estabilidade mental para manter um emprego fixo: Essa podia ser mais uma meta pros próximos 5 anos do que 1, já que isso acaba forçando uma deadline pra algo que não funciona assim, que é minha saúde mental. Porém eu espero que até o fim do ano eu esteja com minhas crises depressivas, ansiosas e autodestrutivas quase nulas, que meu foco retorne pra que eu consiga retomar tarefas tipo ler livros, ou conseguir me manter concentrado enquanto trabalho. Parece bobagem, mas quando você percebe o quanto tá perdido em pequenos arranhões mentais, eles viram um corte que você não consegue ignorar e fica doendo porque você lembra que dói. Resolver isso seria um dos maiores avanços e traria com certeza uma grande sensação de aprimoramento na minha qualidade de vida nesses anos que restam.

No mais, eu acho que é isso. Essa entrada ficou muito mais longa do que eu imaginava, mas por ser o primeiro dia, eu acho que tá tudo bem. Espero que vocês torçam por mim, e morte ao falso metal!

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