
As subjetividades da Comunicação
Comunicação é sempre algo complexo de se resolver. Não existe 2+2=4, comunicação não é ciência exata. É sempre um ponto de vista individual se debatendo contra outros pontos de vista individuais, impactados sobre diversos fatores cognitivos, emocionais e situacionais. Nessa conta entram crenças, hábitos, carências, expectativas, valores e tantas outras subjetividades que, quando a gente pára para analisar, a linha tecida é gigantesca para todos os lados.
Os desentendimentos acontecem justamente porque ao nos colocarmos do lado de cada um dos pontos de vista, provavelmente enxergaremos ângulos e necessidades legítimas e verdadeiras precisando ser reconhecidas.
Em comunicação não existe certo ou errado, não há realidade absoluta. O número de possibilidades são infinitas e sempre haverão distorções porque os conceitos e a visão, é individual e filtrada por histórias únicas e de alta complexidade.
Mas como então é possível negociar? Como é possível chegar em acordos que atendam às necessidades de todos os lados?
Para responder a essa questão precisamos desconstruir o conceito de objetividade que se baseia no objeto em si, externo ao ser humano. O objeto de discussão em si não se conecta com nada, não se relaciona. Mas quando olhamos para a subjetividade, essa vem de sujeito, formado por uma realidade psíquica, emocional e cognitiva, que entende o mundo de forma única e especial. Sem conhecer as subjetividades não há como formar uma experiência completa nem como definir contextos claros. É preciso adentrar no universo individual do outro para de fato entender seu ponto de vista. Nessa hora, normalmente, nos surpreendemos com novas percepções nunca antes imaginadas, novos caminhos nunca antes percorridos.
Nossa visão limitada, quando se expande e enxerga o outro, automaticamente, causa uma calmaria em nossas frustrações. Ao enxergar as necessidades do outro, sob o ângulo de vida dele, nos permitimos sentir o que ele está sentindo, se colocar no lugar dele e entender o que ele entende. De repente, toda raiva e angústia criada por nossas próprias expectativas que não foram satisfeitas, se desmancham como nuvem bem diante de nossos olhos. A isso chamamos “ah, agora fez sentido o que você está dizendo”. E não preciso concordar pra entender, essa é a mágica da coisa.
Imagine quantas guerras seriam evitadas se usássemos nosso tempo para enxergar com mais curiosidade o mundo do outro antes de espernear? Quantas emoções negativas, discussões e desavenças deixariam de existir antes mesmo de começar?
O contraponto a isso é viver uma vida tranquila, fechado em seu mundo perfeito. Perfeito está feito e não há o que discutir. Posso viver um tempo assim, muito bem e feliz.
Fechar-se no mundo perfeito, de iguais, a curto prazo, é fácil e confortável, mas tem seus perigos. A régua da perfeição é cruel com o que é diferente, acumula raiva e frustração porque nunca o que o outro entrega, pensa ou faz está bom. É possível enraizar nesse mundo perfeito e envelhecer nessas raízes. E quanto mais perfeito tento ser, mas me encaixoto dentro de limites que vou sofrer em manter. Por quanto tempo isso é possível?
Sempre haverá momento de mudança, afinal, se um dia estou bem, no outro estou mal, se um dia tenho tudo, no outro tenho nada. A vida é de verdade, uma caixinha de surpresas e a perfeição é uma utopia criada também pelas subjetividades que a objetividade tenta destruir.
Termino essa reflexão trazendo um chocolate em questão:
— Quer um pedaço?
— Não gosto não.
— Mas esse é bom.
— Pra quem meu irmão?
— Mas faz bem ao coração.
— Pode comer então.
— Não vale nem experimentação?
— Você está comprando irritação.
Quem está certo e quem está errado nessa discussão? Se na insistência eu não entender as histórias por trás da confusão, entender qualquer um dos lados está fora de questão.
E pra encurtar conversa, no final da situação, podemos até entender os dois lados mas, possivelmente, chegaremos à conclusão que: um ama chocolate e o outro detesta. E tá tudo bem.