Normalidades

Joyce Baena
Nov 2 · 6 min read

Estou nesse momento lendo o livro “A Menina e a Montanha”. Essa é a segunda bibliografia que leio onde a autora discorre sobre as violências e abusos que passou na infância, tratando esses fatos como “normais”, até o momento em que se dá conta da estupidez que só a ignorância consegue produzir.

Durante a leitura ela nos conduz a uma realidade quase insana que ela passa a acreditar como sendo única. No caso dela: médicos, sistema, governo, escola é tudo colocado em um saco de repúdio, até o momento em que ela consegue sair do círculo vicioso e esquizofrênico familiar.

Isso me faz pensar na questão da realidade que forma crenças. Já há um bom tempo venho travando discussões em sala de aula sobre o que forma nossa realidade e é muito interessante ver que na verdade, ela é o que construímos em nossas mentes por meio de nossas experiências. E a complexidade dessa formação é assustadora, tema estudado por diversos estudiosos.

Quando olho para minha infância, lembro claramente de colocar meu pai em um pedestal até certa idade, porque dentro de uma realidade de criança pequena, a necessidade era brincar e bom, meu pai brincava, minha mãe não.

Crescendo mais um pouco, passei a perceber que a comida que era colocada na mesa, a escola, as minhas roupas, todo o meu sustento vinha da ausência da minha mãe, afinal, ela estava sempre se desdobrando e trabalhando para criar os 3 filhos sozinha. Era fácil meu pai parecer o super-herói quando a gente só se via a cada 15 dias e pra passear. Essa nova percepção mudou radicalmente a minha relação com meu pai mas não me aproximou da minha mãe, no máximo trouxe mais respeito por ela.

A coisa realmente mudou de figura quando por fim, eu virei mãe aos 22 anos. A loucura de receber uma criança nos braços muda muita coisa dentro da gente. É um misto de raiva porque você ainda quer ser a jovem que vai viajar o mundo confrontada com o sentimento de amor profundo por aquele projeto de gente totalmente dependente de você. Acho que nesse momento a gente consegue entender o que é ser mãe e o respeito e amor pela própria mãe cresce junto.

Ficar acordada noites e noites, viver parecendo um zumbi e passar a ser somente “a mãe” é quase que um apagão momentâneo da nossa existência, que a gente acaba acatando meio que sem perceber. Mas tudo se torna normal depois de um tempo. É a realidade se adaptando de acordo com as experiências.

Mas dentro dessas experiências macros vem os detalhes que nos fazem olhar mais de perto para outras “normalidades” criadas por nossas experiências. As grandes questões, mesmo que sem querer, não tem como fugir. Ver pai e mãe de modos diferentes a cada nova fase da nossa vida são mudanças grandes, palpáveis, escancaradas.

Quero adentrar aqui nas “normalidades” mais sutis, aquelas quase imperceptíveis, mas que dilaceram a nossa alma de tempos em tempos, ouso dizer que às vezes, diariamente.

No meu caso, vamos falar de abuso. Não abuso sexual, como já deve ter passado na sua cabeça nesse exato momento. Vamos falar de um abuso mais suave, aquele feito por meio das palavras.

Sabe quando alguém chega para você e diz:

· você é a pessoa com menos inteligência que eu já tive contato. Deveria ficar feliz porque estou aqui gastando meu tempo falando com você.

· Me admira muito você ter uma empresa, ainda bem que tem um sócio homem pra te ajudar, né?

· Você vai largar a faculdade de direito pra fazer comunicação? Vai morrer de fome, o que diabos faz um comunicador?

· Isso é frescura; engole o choro; vou te dar razão pra chorar de verdade; isso é mimimi; tá irritadinha; você pergunta demais.

Ao citar algumas dessas frases ainda sinto um arrepio na espinha porque já ouvi todas, de pessoas totalmente diferentes na minha vida. Cresci num ambiente italiano, português, trabalhei com judeus, espanhóis. Enfim, existem milhões de desculpas que tentam justificar a violência verbal como algo normal e que me levaram a também ter a minha participação na construção de uma comunicação diretiva, impositiva e extremamente grosseira.

Eu mesma já disse coisas como:

· Isso é o melhor que você pode fazer?

· O que você fez com esse cabelo? Não vai ficar assim, né?

· Fazer um escândalo desse por isso? Quando tiver um problema de verdade vai fazer o quê, se matar?

· Não tenho vontade de falar com você porque não me agrega em nada.

E aqui estou sendo gentil nas palavras, se eu forçar um pouco mais posso me lembrar de coisas muito mais violentas.

Como fui criada por famílias que se agridem verbalmente, assim como a menina do livro, eu cresci acreditando que o mundo era assim e passei a repetir o padrão. Era normal ser transparente, seca e direta, afinal, essa era uma qualidade de pessoas inteligentes.

Tudo mudou quando minha filha, por volta dos 7 anos, fez xixi na minha frente com medo de mim - logo minha filha, a pessoa mais doce que eu conheço. Nesse dia eu vi que tinha algo muito errado comigo.

Já enfrento uma saga de pelo menos 12 anos de terapia, abri uma empresa de comunicação que ao longo dos anos, se transformou em uma consultoria que ajuda a deixar a comunicação mais gentil, leve e fácil de entender. Meu trabalho é promover conexão entre as pessoas.

Minha vida como um todo virou um processo de cura diária, intensa e repetitiva. Entendi que apesar de sutil, as falhas na minha comunicação acabaram com meu primeiro casamento, destruíam a relação com todas as pessoas ao meu redor.

No começo eu tinha que ficar 100% atenta a tudo o que eu falava, hoje já consigo relaxar e se percebo que fui grosseira, eu já peço desculpas e tento reverter o ruído.

A coisa mais interessante que aconteceu nesse processo é que, quando mais eu presto atenção nisso, mais eu consigo ser paciente com pessoas grosseiras. É como se eu tivesse passado por todo o processo do atleta de começar a correr, sentir dores, entender as dificuldades do caminho e agora, que estou fazendo minhas primeiras maratonas, super entendo aqueles que não conseguem nem dar os primeiros passos.

De presente, tenho percebido que todas as minhas relações mudaram drasticamente. Hoje, ligo para meu pai e consigo deixar passar a fase de falar do tempo, que antes me irritava, e depois, consigo entrar em questões mais profundas, falar da família e até de sentimentos. Isso não é algo que forço, muito pelo contrário, só passei a ouvir mais e entrar dentro das histórias dele.

Com minha mãe, tentei várias vezes forçar uma conversa sobre os porquês do passado, até eu entender que isso a agredia profundamente. Quando entendi que ser gentil com ela era simplesmente aceitar que seu tempo era diferente do meu, a gente começou a se conectar e dessa conexão de admiração e respeito, floresceu um amor gigantesco. Hoje ligo pra ela pra falar nada, só pra ficar ouvindo sobre suas costuras, comidas e aprendizados. Respeitando o tempo dela consegui abrir portinhas pra eu entrar.

Já minha filha foi mais fácil, porque ela é minha professora, sempre. A Lulu já nasceu com uma luz que me conduz a sabedoria. Me escuta, me dá conselhos saídos direto do mundo espiritual. Eu só tive que relaxar e me tornar criança diante de seu amor.

Com meu ex-marido eu tive que pedir desculpas. E quando fiz isso me libertei. Contei a ele sobre minhas dificuldades, reconheci minhas grosserias e deixei clara a minha falta de consciência, que não tira o peso de minhas ações. Foi uma conversa linda e libertadora, o que possibilitou sermos amigos até hoje.

Para cada relação, uma forma diferente de conexão. Não existem fórmulas mágicas e essa é a grande dificuldade da comunicação, ela é complexa tal qual nós somos, afinal, ela é o espelho de nossas almas.

O ponto é que, só é possível reconhecer o outro quando a gente se reconhece primeiro. Tive que aprender a me respeitar, ser gentil comigo mesma e também, aprender a colocar limites de forma gentil. Quando me sinto abusada, aprendi a dizer:- estou ficando chateada com essa conversa porque estou me sentindo desrespeitada quando você fala dessa forma. Não vou aceitar isso. Se quiser ter uma conversa sobre isso estou aberta. Algumas pessoas me olham como se eu fosse um ET e eu até entendo, afinal, a grosseria é “normal” para muita gente.

Independente do trajeto da “Menina e a Montanha” - aliás, narrativa maravilhosa, super recomendo - ou da minha trajetória no campo da comunicação mais gentil, ambos tem o mesmo processo: abrir a consciência e com isso, ampliar a realidade.

Realidade é sempre um ponto de vista sobre alguma coisa e quanto mais eu abro esses pontos de vista, mais consigo enxergar possibilidades. E olhar para isso, me faz pensar que aquela frase “os ignorantes são mais felizes” não faz o menor sentido. Porque os ignorantes sofrem sem saber que sofrem e ficam o tempo todo tentando se convencer que a violência e os abusos de todos os tipos que acontecem na sua vida são absolutamente “normais”.

De verdade? Eu prefiro entender melhor as raízes e tratar as origens, para de fato me libertar.

    Joyce Baena

    Written by