vi 46 filmes do Woody Allen — e daí?

Criticar em público os filmes de Woody Allen é correr um sério risco de vida. Fato. É preciso coragem para, em voz alta, apontar algo negativo, mesmo quando evidente, no trabalho do “melhor cineasta de todos os tempos”, “gênio da comédia e do cinema”, “cujos piores filmes, ainda assim, conseguem ser superiores as melhores obras de qualquer diretor consagrado” (as aspas se referem aos comentários que já ouvi, tanto de fãs exaltados quanto de jornalistas, críticos, estudiosos, acadêmicos, ~entendidos de cinema~). Acreditem. Ok amar alguém ou algo intensamente, mas não perder de vista o senso crítico — que deveria estar instalado nas pessoas como um plugin — , tá bem?

Sempre me incomodei com unanimidades. Mas, por outro lado, considero inviolável a lei: ‘se quiser falar mal de alguma coisa, primeiro conheça, depois critique’. Sendo assim, deixei de lado algumas birrinhas e preguiças que eu tinha a respeito da figura do diretor (em parte, baseada em polêmicas relacionadas a sua vida pessoal, assumo) e resolvi encarar o desafio de assistir toda a filmografia do veio. Sim, eu vi 46 filmes (contemplei somente os que ele dirigiu) de um cara que se eu fizesse uma lista de trinta diretores que eu gosto, ele estaria longe de fazer parte. Mas tudo bem, toda experiência é válida e eu realmente estava interessada em tentar entender o por quê as pessoas piravam tanto nele. Posso não ter encontrado uma resposta exata, mas ao final dessa longa (e por vezes dolorosa) jornada, eu conclui algumas coisinhas, vamos lá:

  • saber rir de si mesmo é para poucos: é inegável a habilidade de Allen para transformar situações cotidianas e banais, daquelas que todo mundo já vivenciou pelo menos uma vez na vida, em episódios cômicos temperados com frases de efeito e teorias malucas dignas de serem printadas ou anotadas num bloquinho. Com seu humor sagaz (e também repetitivo), ele zomba de si mesmo, por sua origem judaica, suas crises existenciais, por ser hipocondríaco, claustrofóbico, neurótico, ateu, pessimista, niilista, mal sucedido com as mulheres e também do seu próprio ofício, o cinema — comercial e de arte — , um de seus alvos favoritos, que já renderam muitas cenas marcantes. Depois de assistir a tantos filmes, chegou um momento em que eu quase podia antecipar as piadas que viriam.
  • a complexidade da vida a dois: se me pedissem para definir toda sua filmografia em uma só palavra ela seria: relacionamentos. Tudo gira em torno disso e de como as pessoas tentam se ajustar de alguma forma a padrões de comportamento, driblando seus desejos mais primários e nem sempre sendo eficazes nessa árdua missão. Sexo, traição, separação, (re)começo, drama, mentira, arrependimento, riso e choro. Tudo misturado a poesia, romantismo francês e crises existenciais, como não?Poucos diretores analisaram com tanto brilhantismo e perspicácia relacionamentos amorosos, sobretudo. É difícil não repensar suas próprias relações, após assistir a alguns de seus filmes.
  • o mundo é Nova Iorque: que Europa, que nada. Quem conheceu a obra do diretor pela onda “agência de viagens”, iniciada de certa forma por sua fase inglesa (Ponto Final: Match Point, Scoop: O Grande Furo e O Sonho de Cassandra) e popularizada com os filmes sequentes (Vicky Cristina Barcelona, Meia-noite em Paris, Para Roma, com Amor, Magia ao Luar e Blue Jasmine), pode se enganar e não saber que o melhor foi resguardado para seus filmes que tem como cenário a tão amada Nova Iorque. Através de sua câmera já vivemos inícios de romances, declarações de amor e brigas de separação pela ruas de Manhattan, conspiramos e testemunhamos crimes, perseguições, mal entendidos, melancolia e desilusão. Mais do que uma cidade, NY é um personagem, por vezes protagonista, das tramas de Woody Allen. E ele, que não é muito chegado a premiações e aparições públicas, abriu uma exceção e aceitou o convite da Academia para fazer um discurso no Oscar de 2002, pós atentados às torres gêmeas no ano anterior. Segundo o próprio, ele “faz tudo por esta cidade”.
  • referências e mais referências: Allan Stewart Konigsberg, ou Woody Allen, é um poço sem fundo de referências nas mais diversas áreas do conhecimento: arte, música (pra quem não sabe ele toca clarinete na banda Eddy Davis New Orleans Jazz), cultura, cinema, televisão, política, literatura, etc. Não seria exagero dizer que quem não possui um conhecimento prévio do vasto repertório despejado nos diálogos escritos por ele, corre o risco de perder parte da experiência de assistir seus filmes. Claro que não se tratam de obras herméticas e elas podem ser apreciadas, em diferentes níveis, por qualquer espectador.
  • nos definimos pelas escolhas que fazemos: por trás de comédias românticas com tramas aparentemente simples recheadas de clássicos do jazz, há uma eterna brincadeira do autor (já que ele também é roteirista dos seus filmes) com as convenções dos gêneros do cinema e das narrativas. Se valendo de “uma moral”, ora, presente nas entrelinhas, ora, explícita, seus filmes trazem a tona o melhor e o pior do ser humano, revelando suas linhas complexas e imperfeitas.
  • #todosquerem: é impressionante ver que em absolutamente TODOS os filmes, do mais picareta ao mais incrível, tem atrizes e/ou atores famosos-consagrados-bons. Alguns que ainda estavam dando os primeiros passos na carreira e depois viriam a ser tornar ídolos, outros já no auge do estrelato. Dizem as más línguas que muitos deles teriam aceitado cachês mais modestos pelo prazer e status de estar em um filme do diretor, que costumam ter orçamentos bem baixos comparados a média da indústria hollywoodiana. Só para citar uma galera que fez parte dessa extensa filmografia: Gene Wilder, Diane Keaton, Shelley Duvall, Christopher Walken, Geraldine Page, Meryl Streep, Mariel Hemingway, Charlotte Rampling, Mia Farrow, Jeff Daniels, Carrie Fisher, Michael Caine, Dianne Wiest, Max von Sydow, Julia Louis-Dreyfus, Gena Rowlands, Anjelica Huston, William Hurt, Sydney Pollack, Judy Davis, Juliette Lewis, Liam Neeson, John Cusack, Michael J. Fox, Helena Bonham Carter, Paul Giamatti, Edward Norton, Drew Barrymore, Natasha Lyonne, Natalie Portman, Tobey Maguire, Melanie Griffith, Kenneth Branagh, Winona Ryder, J.K. Simmons, Charlize Theron, Sean Penn, Hugh Grant, Debra Messing, Jason Biggs, Danny DeVito, Christina Ricci, Jimmy Fallon (!!!), Chloë Sevigny, Will Ferrell, Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Ewan McGregor, Colin Farrell, Sally Hawkins, Patricia Clarkson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Evan Rachel Wood, Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Brolin, Freida Pinto, Antonio Banderas, Owen Wilson, Rachel McAdams, Roberto Benigni, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig, Ellen Page, Cate Blanchett, Colin Firth, Emma Stone, Jacki Weaver, Joaquin Phoenix. Tá, parei.
  • universo particular: como toda obra autoral, alguns aspectos são recorrentes e acabam criando uma atmosfera que evidencia características de seu idealizador. Foi aí que eu pensei: um dos motivos que me fazem admirar David Lynch e Pedro Almodóvar, meus cineastas favoritos, é a capacidade que eles têm de construir histórias dentro de um mundo que lhes é tão particular, que os identifica há milhas de distância. Portanto, é natural que os fãs do Woody Allen também sintam-se essa proximidade, uma familiaridade que proporciona aquela sensação de “estar em casa”. A diferença, nesse caso, é que, pessoalmente falando, eu não tenha tanto interesse e fascínio pelo seu mundo. Acontece. O que não me faz ignorar, obviamente, sua importância na história da cinematografia mundial.

Os meus preferidos, em ordem cronológica, são: O Dorminhoco, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo, A Era do Rádio, A Outra, Maridos e Esposas, Desconstruindo Harry, Melinda e Melinda, Ponto Final: Match Point, Vicky Cristina Barcelona e Meia-noite em Paris.

E aí, alguém se animou para uma maratona?

(Ah, farei um ebook com a filmografia completa comentada e lançarei pelo Cinemascope.)