Noire

O salão estava cheio, mas não tive dificuldade para encontrar mesas vazias. O lugar era amplo e convidativo. A penumbra criada pela luz fraca dos abajures colocados em cada mesa ambientava uma atmosfera ideal para os visitantes mais tímidos como eu. Das pequenas caixas de som embutida nas paredes decoradas de quadros de molduras rústicas, ouvia-se um jazz suave, relaxante e irreconhecível. Provavelmente criada por algum algoritmo metido a besta, mas àquela altura da noite, não importava. A melodia era boa. Um garçom vestido de forma impecável se aproximou assim que me acomodei. Me ofereceu uma bebida e com muita educação sugeriu um “Le Chat Noir”. Aceitei e agradeci. Enquanto ele se afastava em direção ao balcão, outra pessoa se aproximava. De sobrepeliz fina como seda e vestido longo que lembrava as águas negras e brilhantes do rio Mierrat nas raras noites estreladas, minha cliente havia chegado. Clarice era notável a olhos atentos, mas sabia como passar despercebida por qualquer lugar, inclusive pelo seu coração se você a deixasse a vontade. Quando chegou a mesa, levantei, mas ela acenou com a mão me pedindo para voltar a sentar e então o fiz. As cinzas do seu cigarro longo e fino caíam ao mesmo tempo que retirava dentre seus seios um bilhete. Colocou o pequeno pedaço de papel sobre a mesa e com as pontas de seus dedos metálicos o aproximou de mim. Quanto mais perto eu estava daquele corpo mecânico, mais me embriagava do perfume doce daquela mulher. Ela então tocou seus lábios pálidos e frios em meu rosto, dando-me um beijo na testa e depois sorriu. Parecia ter lido meus pensamentos. Deu-me as costas e assim como a lua costumava desaparecer nas noites frias da cidade a beira do rio Mierrat, ela também desapareceu. O garçom aguardava afastado com minha bebida e assim que Clarice foi envolvida pelas sombras, ele se aproximou e me serviu. Um drinque estrangeiro, escuro como piche, amargo como cacau e embriagante como o amor. Pelo menos esse era o sabor de quando o provei pela primeira vez à 20 anos atrás, quando ainda possuía papilas gustativas. Coloquei a taça sobre a mesa que automaticamente registrou minha compra e então peguei o bilhete.

1934, Portïu Clevare. 23:47

Haviam poucos bares de qualidade na década de 30 e eu odiava ter que viajar no tempo pra executar um serviço. Nunca voltava no período certo ou quando voltava, encontrava os estabelecimentos fechados. Não havia muito o que ser feito. Me prontifiquei a olhar meu relógio para ter certeza do momento em que deveria voltar. Ambos os ponteiros estavam direcionados para o doze. Um problema comum quando se usa um aparelho analógico antigo, mas eu gostava. Parecia comigo. Levantei da cadeira e segui em direção ao balcão. Gentilmente perguntei ao garçom que havia me servido mais cedo a hora e o dia de hoje. Sem que eu precisasse pedir para que me dissesse tanto o dia quanto o mês e o ano, ele se prontificou em dizer. Eram 3 da manhã do dia 13 de Janeiro de 3136.