Fernão do Mercadão

Fernando não se chamava Fernando. Seu nome verdadeiro começava com W, mas só ele sabia o resto. Morava em Belo Horizonte há quase cinco anos. “Sozinho, não!”, ele dizia, “Tenho minhas mulheres por aí.”. E tinha mesmo, mas não importa. Nascido em Sorocaba, viveu os primeiros trinta e sete anos de vida na cidade antes de se mudar para a capital mineira. Era formado em Direito mas nunca havia exercido a profissão porque não acreditava em leis — pelo menos não nas que havia aprendido em aula.

Sua rotina consistia em uma dieta regrada de pão de queijo, pingado e histórias absurdas contadas para quem passasse e lhe desse ouvidos em frente à entrada do Mercadão.

Com o tempo sua presença virou chamariz para todo tipo de gente: executivos em horário de almoço, mendigos, lojistas, guardas de trânsito e gente gente mesmo. Todos na região paravam para ouvir suas presepadas improvisadas; alguns chegavam a dizer que as narrativas eram melhores que qualquer novela da Globo.

A audiência cresceu, e Fernão — como agora seus fãs o chamavam — colocou uma caixinha de papelão doada pelo dono da pastelaria ao lado para arrecadar uns trocados. Logo arrumou outra maior, vide a generosidade das doações.

Passado um ano, tinha dinheiro suficiente para lançar um livro, mas nem precisou: um dos fiéis da platéia trabalhava em uma editora e levou o chefe para assistir ao show de Fernando. O homem se apaixonou e resolveu lançar o livro sem cobrar nada. Finalizada, a obra continha mais de 300 contos que Fernão jurava serem verídicos: “Aconteceu com um amigo de um amigo meu, lá de Sorocaba”.

O livro foi lançado com o título “Fernão do Mercadão: contos e causos do bon vivant de Sorocaba”. Nunca li o livro, muito menos o vi na frente. Esses dias estava dizendo que tem outra obra em andamento, mas acabou meu horário de almoço e eu perdi o resto da história.

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