II — O livro
Seguindo o exemplo de The Lizzie Bennet Diaries, decidi fazer uma websérie para Youtube que adaptasse uma obra literária brasileira. A partir daí, fui atrás da escolha de um livro que agregasse interesse ou, ao menos, a curiosidade dos espectadores, assim como minha vontade de estudá-lo.
Foi assim que cheguei a Machado de Assis, um autor cuja obra seria interessante para a série por esses e outros vários motivos. Começo a enunciá-los lembrando que se trata de um dos maiores nomes da literatura brasileira, e um dos mais institucionalizados — mais especificamente no campo da educação.
Essa noção eu tirei de experiência própria: meu contato com Machado de Assis foi, na maior parte da minha vida, por via educacional. Ainda que eu tenha criado gosto por sua obra, a primeira leitura de seus livros e contos foi estimulada por trabalhos escolares e listas de leitura para vestibular. Ao rememorar meus ensinos fundamental e médio, posso confirmar um exaustivo contato com passagens das obras antes mesmo de tê-las lido, por conta de enunciados de exercícios e citações feitas por professores. Frases como “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; (…)”, ou ainda “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, povoaram minha cabeça antes mesmo de saber direito seus reais significados.
E o que eu fui percebendo é que minha relação com sua obra não era exclusiva; seu “verniz institucional” levou as escolas do país a torná-lo uma bagagem literária impreterível a seus alunos já há algumas décadas — quer eles gostassem ou não. E são inúmeros os relatos que guardei das pessoas que foram obrigadas a ler Machado de Assis, e nunca mais se esqueceram da “terrível experiência”.

Essa lista vai de colegas de cursinho, passa por minha mãe e chega até ao meu dentista. Entre os colegas, geralmente definíamos seus livros entre os piores, por serem os mais complicados de ler; eram livros muito menos convidativos do que os enredos simples de um José de Alencar, e menos interessantes que o divertido show de horrores d’O Cortiço. Quando o ódio vinha dos mais velhos, o assunto costumava aparecer logo depois de eu comentar que estava fazendo vestibular: “Nossa, vocês ainda precisam ler Machado de Assis? Eu lembro que eu li Memórias Póstumas na sua idade, meu Deus que coisa chata, eu não entendia nada, ficava maluco tentando ler aquilo”.
Portanto, para bem ou para mal, Machado de Assis forneceria uma obra com o “reconhecimento de marca” que eu procurava para o projeto.
A escolha de Memórias Póstumas de Brás Cubas, especificamente, é fruto tanto da sua presença atual nas listas obrigatórias de vestibulares, quanto de uma inclinação pessoal. Ainda assim, preciso admitir que só fui apreciar o livro devidamente depois do trabalho de adaptação; em retrospecto, tenho a sensação de que antes disso eu na verdade só replicava um reconhecimento mecanizado de sua qualidade, sem apreciá-la por mérito da minha própria interpretação.
O que procurei fazer com a série foi imprimir meu processo de redescoberta pessoal da obra, que só alcancei depois de reler muitas vezes, e me apoiar em trabalhos de outros autores para destrinchar uma prosa realmente bem dificilzinha. Dentre tais autores, devo muito a Roberto Schwarz e seu livro Machado de Assis — Um mestre na periferia do capitalismo.
Outra razão que posso citar para a escolha desse livro foi uma certa intuição quanto às possibilidades da obra dentro do contexto dos vlogs — por algum motivo, Brás Cubas me parecia um ótimo personagem para explorar o mundo dos youtubers.