III — Memórias e vlogs

Com o projeto de recontar Memórias Póstumas de Brás Cubas em uma série de vlogs ficcionais, parti para um exercício imaginativo de entender o que o protagonista do romance machadiano teria em comum com um vlogueiro.
A primeira semelhança que levantei foi a forte presença da narrativa subjetiva em ambos os casos. Ao colocar Brás Cubas como narrador-personagem, Machado de Assis limita a descrição dos acontecimentos ao seu ponto de vista— afinal, o personagem está tecendo um livro de lembranças pessoais. De uma forma parecida, o mundo dos youtubers se faz em torno de pontos de vista específicos sobre coisas mundanas; o diferencial de cada vlogueiro não se faz, necessariamente, de temas que só ele ou ela tratam, mas da forma específica com que discutem tais assuntos.
Como consequência disso, há um controle absoluto dos youtubers em torno do seu canal, que passa a representar como que uma janela para suas visões de mundo. O mesmo ocorre no livro, que causa uma impressão de pessoalidade tão grande a ponto de muitos ficarem incertos quanto a onde começa Brás Cubas e termina Machado de Assis.
Outra semelhança é o fato de que esses vídeos, ou capítulos, têm uma forma constantemente curta e episódica, que muitas vezes se estrutura em torno de uma mera anedota — traço considerado transgressor no contexto de um romance, e corriqueiro no mundo dos vlogs. Essas anedotas surgem de eventos cotidianos dos narradores, e abrem espaço para reflexões que vão superando em importância o próprio evento que as gerou.
Com isso quero dizer que, quando Whindersson Nunes fala sobre sua ida ao cinema para assistir a “Invocação do Mal 2”, o interessante não é o evento em si, mas a graça específica que o youtuber comediante consegue tirar dele. O mesmo pode ser dito sobre a passagem em que Brás Cubas conta sobre sua irritação com o bater da pêndula do seu relógio; no fim, o evento serve como pretexto para uma reflexão sobre a insignificância do homem diante da passagem do tempo.
Nessas duas narrações, existe um valor performático muito alto, em que a presença do leitor/espectador é constantemente evocada, seja numa chave de interlocuções diretas e indiretas, seja no uso de artifícios performáticos que sempre procuram deslumbrar, enviesar e, muitas vezes, provocar o interlocutor. A relação que se constrói com o espectador dos vlogs, ou o leitor das Memórias, é central tanto para Whindersson, quanto para Brás.
Essas performances são compostas por diferentes ferramentas, que exploram a linguagem do formato de cada caso. Whindersson usa a dinâmica dos cortes, típica dos vlogs, para criar diálogos consigo mesmo, dramatizar passagens do seu discurso e tirar risadas de uma coisa tão simples quanto uma mudança de posição abrupta dentro do seu quarto. Enquanto isso, Brás usa mão dos recursos textuais e as convenções do romance para chamar atenção do leitor para sua natureza espontânea e subversiva; seja na maneira como expressa uma ideia em uma frase, ou como quebra supostas regras de composição vigentes até então.
A amplitude dessas ferramentas e a rapidez com que autor e vlogueiro as alternam fazem com que a “obra”que cada um compõe — o romance, no caso do defunto-autor, e o canal, no caso do vlogueiro — adquira uma volubilidade formal. Cada vídeo, ou capítulo, comporta uma experimentação diferente e, portanto, a junção desses vídeos e capítulos gera uma unidade pouco padronizada, que se assemelha a uma colcha de retalhos.
Além das brincadeiras com o formato, esses narradores ainda usam mão de um rico jogo de referências culturais dos mais variados tipos, com o intuito de reforçar e credibilizar seus discursos. Whindersson usa expressões e piadas populares para se aproximar do espectador e conquistar sua simpatia, enquanto Brás se utiliza de referências típicas da cultura da época para se provar parte de uma classe rica e culta — a única que teria a oportunidade de ler um livro como esse no final do século XIX.
Tanto Brás Cubas quanto Whindersson e os vlogueiros de maneira geral possuem prioridades parecidas. Eles querem compartilhar seus pontos de vista de uma forma que chame a atenção dos outros. Querem trazer o interlocutor para o seu lado, ou fã-clube, e para isso não poupam esforços: registram, ressaltam, constroem e distorcem sua realidade em prol de uma história atraente e de grande força expressiva, que vai compondo aos poucos um retrato múltiplo de suas personalidades.
Obviamente, não existem apenas similaridades entre Brás Cubas e o mundo dos vlogs. E foram justo as diferenças entre eles que geraram minhas primeiras escolhas e, portanto, o começo da minha adaptação.