João Bley
Jul 28, 2017 · 3 min read

IV — Das diferenças à adaptação

Vlog do Fernando, produção ficcional sobre um youtuber da 3ª idade

Várias características de Memórias Póstumas e do seu personagem principal começaram a revelar certos problemas assim que eu comecei a considerar a transposição do livro pro contexto dos videoblogs ficcionais.

A primeira delas seria a diferença material das mídias. Em um livro, não há nenhuma evidência física de seu autor, além de suas palavras. Há, portanto, um caráter “etéreo” em torno de uma obra escrita, ou seja, não há uma exposição automática do momento e lugar em que o autor teceu suas memórias — traço conveniente para a situação de um defunto-autor, cuja “localização atual” não interessa ao livro de Machado de Assis.

Já o Youtube é uma mídia com base na imagem, cujos vlogs se caracterizam por uma estética “sem floreios”, cujo diferencial está ma postura franca dos seus criadores que não passam por intermediação para se comunicar com seu público. Isso se traduz, na maior parte das vezes, em uma estrutura simples da pessoa no seu quarto, falando diretamente para a câmera.

Em outras palavras, o lugar e momento da feitura de um vlog é característico de sua linguagem. Além disso, diferentemente de um romance, em que o personagem pode escrever suas memórias de forma incorpórea, o vlog demanda um corpo, uma voz, o registro de uma presença física.

Outro problema é a faixa etária do protagonista. Faz sentido um homem morrer aos 64 anos e então decidir escrever suas memórias do além; isso parece uma decisão natural de um homem frustrado que decide refletir sobre a vida que viveu. Porém, fica inverossímil que esse mesmo homem resolva fazer tal rememoração através de vídeos para o Youtube.

Isso acontece porque o Youtube é uma mídia feita prioritariamente por jovens, sendo também a essa faixa que a maior parte do seu conteúdo se destina. Isso é perceptível ao se analisar a média de idade dos maiores youtubers brasileiros, que varia entre 20 e 24 anos. Ainda considerando que exista um ou outro caso isolado, pode-se dizer que o Youtube, e principalmente o gênero dos vlogs, definitivamente não são uma mídia ou linguagem típicas de alguém que já alcançou a chamada terceira idade.

Outras questão é a diferença histórica e cultural entre 1881 e hoje: o livro se passa no século XIX, em pleno Brasil Império, sendo que suas peripécias são marcadas pelo pano de fundo socio-econômico do país de então, com sua economia rural e escravocrata. Além disso, as próprias referências do romance são fruto de um contexto cultural específico daqueles anos, com a presença marcante de referências francesas, renascentistas e greco-romanas.

Enquanto isso, o Brasil em que o Youtube se faz presente é o do século XXI, uma nação recentemente democrática cujo contexto econômico e histórico se mostra diverso, permeado por questões como o neoliberalismo, a globalização etc. Considera-se também que, culturalmente falando, o arsenal de referências do Youtube é sensivelmente diferente do utilizado pelo livro, pertencendo a um campo moderno que já é considerado um denominador em comum de qualquer vlog: a cultura da Internet.

Todos esses apontamentos servem para mostrar que minha criação passaria inevitavelmente por um processo de escolhas e transfigurações, visto que o próprio conceito de trazer Memórias Póstumas ao Youtube já propõe uma mudança, ou diferenciação essencial do romance.

Foi a partir desse ponto que começou a ser pertinente a compreensão dos percalços de uma adaptação, o que me levou a estudar um pouco sobre isso. Mais especificamente, eu queria entender qual o tipo de postura que um adaptador precisa ter diante de questões como a fidelidade à obra original, a busca por uma personalidade própria e as possibilidades de diálogo entre as duas.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade