V — Fidelidade

João Bley
Aug 8, 2017 · 3 min read

Quando se trata de uma adaptação, a primeira discussão que vem à mente parece ser a da fidelidade. Esse tópico é constante em praticamente todas as abordagens do assunto, tanto no campo teórico de estudo do gênero quanto no final de uma sessão de cinema, com seu amigo falando que o filme não é tão igual ao livro e, por isso, não é bom. Por conta disso, fui levado a considerar qual a real importância da fidelidade como um parâmetro dentro do meu processo de adaptar Memórias Póstumas.

Antes de tudo, fui atrás de uma definição mais teórica do conceito de adaptação. Através de alguns estudos, cheguei a essa definição bem simplificada: a adaptação é qualquer transposição de um determinado objeto ou signo a um destino diferente do que lhe é originário, um “ajuste de uma coisa a outra”.

Colocado dessa forma, uma adaptação pode ser feita tanto entre mídias quanto entre línguas diferentes, o que acaba trazendo um terreno comum entre o conceito de adaptar e o de traduzir; afinal de contas, toda tradução também requer escolhas que adaptam certas expressões ou palavras específicas para o contexto de uma outra língua e cultura. Um exemplo disso pode ser encontrado no filme “Festa da Salsicha”, em que o elenco do grupo humorístico Porta dos Fundos adaptou o roteiro da animação americana para maiores, trocando piadas que só funcionam nos Estados Unidos para o humor deles, que é bem brasileiro.

Qualquer tradução requer escolhas, pois é impossível fazer um mero transporte de um texto ou diálogo original de uma língua/mídia à outra. Sempre há um trabalho de recodificação, que leva em conta as diferenças entre os sistemas linguísticos de origem e de chegada. Nesse trabalho, ocorrem escolhas guiadas por um senso crítico específico; seja ele o do grupo humorístico do Porta dos Fundos, seja o da tradutora Lia Wyler, responsável pela tradução da saga Harry Potter no Brasil. Numa entrevista, Wyler define o seu trabalho como a construção de uma ponte entre a cultura de J. K. Rowling e a nossa, um verdadeiro trabalho de adaptação.

Portanto, considerando que a mudança é inevitável nesse tipo de processo, o conceito de fidelidade fica então restrito à maneira como essa adaptação é feita: o senso crítico que a executou é julgado por ter feito ou não “jus ao original”.

O problema é que a ideia de “fazer jus ao original” sempre parece cair em discussões muito subjetivas. Voltando um pouco ao campo teórico: muitos estudiosos defendem a desconsideração da fidelidade como um foco da análise de uma adaptação. Segundo eles, considerar uma adaptação fiel seria afirmar que há um único e correto significado em torno de um texto-fonte, significado ao qual o adaptador adere ou, em algum sentido, viola ou adultera.

Trata-se, portanto, de um parâmetro que desconsidera o fato de que a interpretação desse texto-fonte pode ter mais de um caminho. Além disso, considerar que uma adaptação deve alguma coisa ao seu original denuncia um moralismo implícito dentro do preceito da fidelidade, visto que a obra adaptada parece ser considerada inferior à obra original.

Pensando de maneira prática, partir de um complexo de inferioridade seria um passo, no mínimo, limitante para minha criação. Baseado na minha experiência de diferentes discussões que tive sobre adaptações para o cinema ao longo da minha vida, também fiquei com uma forte impressão de que a avaliação do que se deve preservar da obra original cai inevitavelmente em escolhas arbitrárias de quem as define. Além disso, conheço muitos filmes “exatamente iguais” à obra original que não encontraram nessa fidelidade cega um caminho para a qualidade.

O que acabei tirando dessas pesquisas é que uma adaptação deve ser encarada como uma obra por si só que não deve, necessariamente, “se justificar” perante o texto que a originou. A única coisa que se deve ao texto-fonte, no final das contas, é a sua compreensão. Pois é só entendendo a força remanescente da obra original — que a levou a ser escolhida como base para o seu trabalho em primeiro lugar — que você pode começar a subvertê-la do jeito certo.

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