VII — Expectativa

Famosa obra do escritor romântico José de Alencar

Uma das coisas que mais impedem uma compreensão melhor de Memórias Póstumas de Brás Cubas atualmente é a diferença entre o seu público leitor de hoje e o do século XIX.

Lançado em 1881, Memórias Póstumas chega num momento de continuidade do movimento romântico na nossa literatura; para entender o que esse movimento significava, devemos ir um pouco além do senso comum das tramas amorosas e disposições maniqueístas do caráter dos personagens — embora esses traços também sejam bem importantes para entender o que a obra machadiana fez de diferente.

O Romantismo era, antes de tudo, um movimento nacionalista em vários sentidos: seguindo modelos da Europa e Estados Unidos, os escritores românticos pretendiam retratar o Brasil em suas especificidades geográficas e culturais, numa crença de que a representatividade nacional pela literatura pudesse resultar em consciência e civilidade para a sociedade brasileira.

Como se pode perceber, era também um movimento bem idealista, e ele pode ser exemplificado pela obra de José de Alencar: seus livros se passam em várias regiões diferentes do país, buscando retratar personagens e ambientes tipicamente brasileiros de norte a sul; seus protagonistas vêm “do povo” e são constituídos de traços heroicos — seu tom e escolhas insinuam que o livro tem a responsabilidade de falar com um público vasto espalhado por todo o território nacional.

Grande amigo de Alencar, o próprio Machado começou sua carreira como um romântico, e em seus primeiros livros e crônicas percebem-se os idealismos típicos de um escritor do movimento. Porém, a partir da década de 1870, essa postura foi mudando graças a várias percepções que o autor passou a ter da literatura e do Brasil; e uma das mais importantes é a percepção que Machado adquiriu do seu público leitor. Ela se deu após vários anos de decepção com as tiragens das suas obras, e de uma observação do pouco impacto ou influência que a literatura brasileira como um todo causava efetivamente na sociedade de então, visto que, se apenas uma parcela mínima da população (cerca de 15%) sabia ler e escrever, seriam poucos os que se aventurariam a ler um livro inteiro.

Memórias Póstumas chega como uma resposta, ou uma nova busca pela verdadeira disposição das coisas na literatura nacional. Brás Cubas abre o romance já dizendo que é bem possível que o livro não seja lido por 100 leitores, nem 50, nem 20, talvez 5. Esse defunto-autor, tão inverossímil em sua condição quanto o leitor ao qual o Romantismo alude, não se preocupa nem um pouco em retratar a “cor local” com descrições precisas da nossa geografia ou do nosso folclore — o que ele quer é parecer inteligente diante de sua classe, por isso cita franceses e mitologia clássica, e passa a maior parte do romance em casarões de gente abastada.

Não se trata de um personagem “do povo”, mas um exemplar mesquinho da nossa classe alta, e passa longe de ser dos mais notáveis: é um homem rico que vive uma vida medíocre e que morre por uma pneumonia aos 64 anos. Não se pode perceber qualquer maniqueísmo no livro porque é difícil achar alguém que preste de verdade para fazer algum contraste; as poucas relações amorosas que surgem são guiadas pelo egoísmo e obsessão pelas aparências, e degringolam diante da menor adversidade.

O público leitor de 1881, embora limitado, é pego de surpresa com essas escolhas, e Brás Cubas sabe disso: o próprio narrador antecipa muitas das indignações do leitorado, que espera traços de caráter menos apodrecidos e desfechos mais otimistas; mas o narrador simplesmente responde que não atendeu a tais expectativas porque “seria romanesco, mas não seria biográfico”.

Hoje é mais difícil sentir a força dessa subversão, pois a expectativa que temos do livro é absolutamente diferente da que ele previa em seus leitores de mais de um século atrás. Trata-se de um romance que se alimenta de questões muito concretas do seu momento: a forma como seria recebido, quem o receberia e o que esperariam dessa recepção. Era inevitável que essa disposição mudasse, e muitas das suas escolhas perdessem em efeito e compreensão.

O resultado pode ter ficado datado, mas a busca que o gerou não. Tentar comunicar as várias questões do país, pondo em evidência e questionamento os artifícios dessa própria comunicação (com suas regras e convenções) é o que mantém Memórias Póstumas viva e ainda aplicável aos nossos dias. Mas para fazê-la ser entendida com a mesma força de antes, é preciso reconsiderar o que as pessoas esperam, e repensar uma ou outra questão social .

É isso o que a série tenta fazer.