ENCONTRO DESMARCADO

Havia um portão e um muro alto no lugar em que marquei de me encontrar. Toquei várias vezes a campainha e esperei que alguém viesse abrir a porta. Eu estava sem sombrinha e por isso tomava chuva ali na frente do portão, o céu estava em tons de tristeza e melancolia. Chamei mais uma vez, mas, o Meu Eu, parece, já tinha ido embora.

Marquei novamente um outro encontro em um parque. Fiz café. Café forte e amargo pra conversar com o meu pequeno coração. Queria entender minhas neuroses, rir das minhas piadas ao lado de minha companhia, falar dos meus amigos, da minha família e das pessoas que amava. Queria falar mal do meu ex, viajar nas minhas crises existenciais, buscar o significado das cores e da minha vida, entender minha astrologia. Iria me abraçar até me sentir humano novamente. Porém, o meu Eu se atrasou. Ficou preso no trânsito da cidade depois de sair de um relacionamento meio tóxico, disse-me que estava no caminho certo, mas, que seus pensamentos se tornaram um nevoeiro bloqueando a estrada. Contou-me que as flores que levava murcharam no banco de trás do seu carro.

Outro dia saí novamente para me encontrar e meu corpo encheu-se de ansiedade. Não sabia se o Eu iria gostar do meu jeito, se iria com a minha cara, ou, se implicaria com o corte do meu cabelo. Contei para os meus amigos que iria me buscar, separei alguns discos e comprei chocolate. Abri os vidros do carro de deixei o vento bater no meu rosto, até acendi um cigarro e cantei os refrões enquanto dirigia. Escutei alguns discos do Roberto e do The Smiths. Eu iria para a natureza, um lugar de calmaria em que eu pudesse me olhar sem sentir falta da água salgada. Queria me desplugar, acender uma fogueira na noite, dançar e gritar com os pulmões, perder minha sobriedade por alguns instantes. Queria ficar em silêncio sem que isso perturbasse alguém — porque o silêncio alheio incomoda. Será que o meu Eu conseguiria entender?

Por fim, dirigi de volta sem o meu passageiro no banco de trás. Havia várias facas onde eu precisava de apenas uma colher.

Marquei várias vezes de me encontrar mas sempre tinha um imprevisto. Quem sabe um dia me encontro no acaso, me vejo em algum local inesperado e ganhe a tão sonhada epifania.

Fugir tem sido uma habilidade, um grande dom.

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