Bem-vindos a Pasárgada

Por João Pinheiro

“Bem-vindos a Pasárgada”. Todos os dias; todos os momentos; incansavelmente falava o cansado cumprimentador-oficial, cargo que, por incrível que pareça, cá existe! Lá fica; e fala; e vê; e pensa; não, não pensa; pensa; não sabe se pensa. Por lá passam, em todo seu esplendor, carregados de enfeites e despundonor, os amigos do rei. E aquele cansado ser lá plantado, incansavelmente os cumprimentando.

Na terra do Rei, chegam príncipes, duques, nobres, amigados, pessoas felizes, tristes, todos entram. A seus olhos, Pasárgada é outra civilização, com telefone automático e prostitutas bonitas para se namorar. Das diversas bocas que surgem, ouve-se o clamor pela aventura, pela diversão, pelo prazer de cá estar. Aos portões do castelo, vê-se o cumprimentador-oficial, de nome Ciro. Dele, ouve-se apenas uma frase, eterna e incansavelmente cansada: “Bem-vindos a Pasárgada”. O rei, do topo de sua torre, ao chão olhava. Não se sabe se buscava algum convidado entre a multidão, não se sabe se vigiava seus servos em plena atividade de cumprimento.

Eis que surge a Ciro um amigo especial do rei. Não o conhecia. Igualmente. A primeira visita do convidado à terra. Inicia-se a conversa como de praxe.

— Olá, senhor. Bem-vindo a Pasárgada, terra de aventuras e diversão. Preciso de seu nome para autorizar a entrada.

— Exatamente como Rosa me contava! Sou Manuel.

— Lista de convidados especiais! Mas… já veio aqui antes?

— Não. Apenas conheço as histórias contadas pela minha Rosa, ama-seca. Ela sempre me falava de fazer ginástica, andar de bicicleta, montar em burro brabo, subir no pau-de-sebo, tomar banhos de mar!

Ciro congelou-se. Não conhecia essa Pasárgada comentada pela velha Rosa, de Manuel. Nunca um cumprimentador-oficial houvera escutado uma descrição de sua terra, muito menos uma que não conhecia. Não, não conhecia. Não podia ser. Será?

— Muito bem! Lá me vou. Até breve amigo, o rei me espera.

Em passos curtos, caminhava o convidado a observar todas as paisagens da terra com olhos de criança realizada. O outro ainda pairava sobre os pensamentos. Durante todo o turno, ficou pensando. Pensava; não, não pensava; pensava; não sabia se pensava. Onde já se viu um cumprimentador-oficial de Pasárgada pensar!?

Já anoitecia.

O caminho até sua casa é longo. Ele anda; anda com os pés; anda com o medo; anda com as pernas; anda com cansaço; anda com problemas. Somente anda. As palavras do convidado especial ainda vinham à mente. Então olhava aos lados. Via gente nas ruas, via lixo nas ruas. Não via ginástica, bicicletas, burro brabo, pau-de-sebo ou mesmo mar, que cá ainda há de virar.

Chega em casa. Zuleica o espera. Soltam meia dúzia de palavras ao ar. Não se entendem. Senta-se à mesa em sua única cadeira. Toma à mão seu único copo para beber água. Come seu único pedaço de carne com arroz. Tira o uniforme e seu único sapato. Toma seu banho rápido. E deita-se. A manhã já vem aí!

Mas a mente não desligava. Ainda pensava nas palavras de Manuel. Pensava; não, não pensava; não sabia se pensava. Procurava aquela Pasárgada para si. Já é tarde, homem! Deixe de sonhar! Logo cedo deverá estar ao portão do castelo para receber mais convidados de todos os cantos, todos os tipos, todas as características. E dizer, como de praxe, “bem-vindo a Pasárgada”.

Ciro tentava descansar. Mirava o céu com suas pupilas, todas as duas focadas nos inúmeros pontinhos luminosos que via. Coçava os olhos, mas não caía no sono. Ainda pensava nas palavras de Manuel. Pensava; não, não pensava; não sabia se pensava. Conversava com as estrelas, implorava-lhes algo. Por mais que falasse qualquer coisa, as estrelas que ele tanto precisava estão distantes. Seu brilho chega até aqui, mas não para nos iluminar, apenas para destacar sua presença. De repente, decidia mudar a direção das pupilas. Mirava, então, ao longe, o castelo. Tentava falar, conversar, implorar com o rei. Não! E lá ficava, no topo do monte, o castelo, todo iluminado, mas sem nos iluminar, apenas para se destacar. Imaginava lá dentro os amigos do rei. Pensava como se fosse um. “Lá tenho mulher que eu quero, na cama que escolherei”. Espremia violentamente os olhos. Virava-os ao lado. A sua mulher ali dormindo, e ele divagando sobre outras que ele quisesse ou pudesse vir a querer. Nesse vaivém de imagens, pensamentos e sentimentos, conseguiu pregar os olhos. Caiu feito um tijolo. E lá ficou, à beira da cama.

Já é manhã.

Levanta-se indisposto. Caminha até a mesa. Senta-se em sua cadeira preferida. Toma à mão sua xícara preferida. Bebe o seu café preferido. Veste o uniforme e seu sapato preferido. Mais um dia em seu trabalho [não] preferido. É hora de agir, hora de falar “bem vindos a Pasárgada”.

O caminho até os portões do castelo é longo. Ele anda; anda com os pés; anda com o medo; anda com as pernas; anda com cansaço; anda com problemas. Somente anda. E pensa; não, não pensa; não sabe se pensa. Via gente nas ruas, via lixo nas ruas. Não via ginástica, bicicletas, burro brabo, pau-de-sebo ou mesmo mar, que cá ainda há de virar.

Chega ao posto. Fixo em sua posição de sempre, já demarcada pelo desgaste do chão após incontáveis dias de trabalho. Iniciava sua rotina de bem-vindos. Via chegar príncipes, duques, nobres, amigados, pessoas felizes, tristes, enfim, todos.

Até que algo novo lhe ocorre. Algo que nunca esperaria. Sente uma mão às suas costas. Uma voz conhecida pronuncia-se:

— Obrigado, amigo, pela recepção no dia de anteontem. Fiquei feliz com as suas palavras e, agora que me vou, gostaria de me despedir.

Seria ontem ou anteontem? Ou há três dias? A voz não era estranha. O rosto, idem. Enfim, por mero respeito e consideração, decidiu quebrar o praxe:

— Volte sempre a Pasárgada!

E então apagou de sua mente alienada. Hora de voltar ao trabalho.

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