Maria e a estranha mania de ter fé na vida

Maria Ângela e sua alegria de sempre

Bom, não sei até que ponto minha história é relevante e muito menos se ela merece ser contada. No momento em que vivemos, de enorme envolvimento com as mídias sociais, temos a mania de achar que nossa existência é a coisa mais importante e a necessidade de contar para o mundo como somos felizes ou tristes, bem sucedidos ou desiludidos, seja com as nossas carreiras ou em nossas relações interpessoais, tomam grande espaço dos conteúdos publicados.

Além do incentivo de pessoas próximas e de médicos que me acompanharam nos últimos 19 meses, a insônia é um fator determinante para que eu esteja escrevendo nesse momento.

Como disse, passei os últimos meses frequentando(ou internado) o Hospital Federal da Lagoa, que é gerido pelo SUS. Tudo começou em Dezembro de 2015, quando fui diagnosticado com uma doença grave. Durante todo esse tempo tentei manter a calma e me relacionar da melhor forma possível com os profissionais da área, o que não é muito fácil, por culpa de ambos os lados. Mas acredito que soube lidar com essa situação, pois fui muito bem tratado e ainda fiz grandes amizades.

O ambiente hospitalar é extremamente pesado. Eu, particularmente, jamais trabalharia na área. Fiquei cerca de 4 meses internado no CTI, mais outros tantos meses na enfermaria. Lidei com centenas de profissionais que pensam e trabalham de maneira diferente. Passei pela sala de cirurgia 16 vezes, tomei incontáveis agulhadas, perdi minha privacidade, autonomia, vi muita coisa errada acontecer, mas também presenciei coisas que me emocionaram. Muitos parceiros de quarto partiram e tantos outros tiveram alta. Enfim, era um Hospital.

Mas o que mais me marcou nesse período foi o carinho e as histórias das pessoas que convivi. Hoje que estou em uma situação confortável, mas ainda dependo de um tratamento, tento dimensionar a importância de alguns fatos.

Me lembro da véspera do meu aniversário, 15/05/2017, eu estava no meu leito recebendo minha medicação, quando um enfermeiro comentou em voz alta que estava chegando o dia. No local onde recebo essa medicação estão também pacientes que vão operar Catarata, receber bolsa de sangue e outros procedimentos que não exigem uma longa internação. Todos vão embora no mesmo dia, assim como eu. Após o enfermeiro comentar sobre meu aniversário, eu botei meus fones de ouvido, selecionei minha playlist favorita e apaguei. Acordei na hora do almoço, comecei a ler um livro pra passar o tempo mais rápido. Quando a medicação chegou ao fim e eu já estava me arrumando para ir embora uma senhora com mais de 80 anos se aproximou. Era Maria Ângela, que logo me chamou pelo nome: — Oi, João Pedro, tudo bem? Você está internado aqui há muito tempo? ___perguntou a simpática senhora. Eu respondi que sim, mas que já estava em um momento mais tranquilo e próximo do fim do tratamento. Ela perguntou quantos anos eu estava completando e disse que rezaria por mim a partir daquele momento.

Eu agradeci e perguntei sobre sua saúde. Ela disse que sofre de anemia e que regularmente vai ao Hospital receber as bolsas de sangue e me mostrou seu braço, marcado com hematomas, judiado de tantas transfusões. Logo ela se despediu e eu desejei melhoras.

Esse é apenas um de vários outros exemplos de pacientes que se comoveram com meu caso, mas ela é também uma das poucas que conseguiram trazer apenas discursos positivos e que me acrescentasse algo. Sua energia e carisma me fizeram muito bem.

Já nos encontramos outras vezes e é sempre um prazer. Batemos papo, brincamos com a situação e ela conta minha história para os demais pacientes, como se eu fosse um herói. Mas não me envaideço, pois sei quem me trouxe até aqui. São pessoas como a Maria, gente que ri quando deve chorar, que fazem os problemas parecerem pequenos e ainda encontram motivos para ter fé na vida.