O fim dos produtos que não fazem sentido é necessário, disruptivo e exponencial.

Do capitalismo selvagem ao colapso de um modelo que tem por essência o consumo desenfreado. Será que estamos prontos para viver com menos?

Antes de começar a falar sobre o conteúdo central deste texto, eu gostaria de deixar bem claro que ele não representa uma verdade absoluta e não tenho nenhuma pretensão de que as pessoas concordem com este ponto de vista. Eu trabalho há 10 anos dentro da indústria no desenvolvimento de produtos e demorou muito tempo até que eu conseguisse enxergar e entender as coisas da maneira como eu vou colocar. Esta é a minha opinião e o meu ponto de vista sobre uma temática que vai ganhar cada vez mais espaço nas empresas.

Tendo dito isso:

Enquanto escrevo este texto, muitas toneladas de plástico, aço e tantas outras matérias primas são transformadas em produtos que muito em breve devem chegar as mãos do consumidor. Digo devem, porque antes que isto aconteça de fato, estes produtos serão transportados e estocados algumas vezes e provavelmente vão receber um bom impulso dos setores de marketing das diversas empresas envolvidas no grande desafio de fazer um produto vencer as barreiras existentes entre o fabricante e o consumidor final. Garantir que a maior parte dessa produção seja escoada para o mercado gerando a maior lucratividade possível é o objetivo dos executivos envolvidos neste processo, em que o grande desafio diário, é o de reduzir ao máximo o preço dos produtos na busca por competitividade e poder de barganha frente a um comprador (não consumidor final, falo aqui do varejo) que olha com cada vez mais atenção para suas margens de lucro na venda de cada produto.

Após anos de envolvimento com a indústria e participando ativamente do desenvolvimento de novos produtos ficou muito claro para mim que o cenário acima descrito não é somente real como corriqueiro. Eu mesmo aceitei por muitos anos a ideia de que é assim que as coisas acontecem, e fazer a máquina girar não é uma opção, mas uma necessidade para o fim de manter vivo o mercado e movimentar essa grande máquina que usa o consumo como força motriz.

A revolução industrial nos possibilitou desenvolver e fabricar produtos em uma escala nunca antes vista, transcendemos as limitações físicas do nosso corpo e materializamos tudo o que a nossa mente inventiva concebia. Sabíamos identificar o desejo das pessoas baseado no simples propósito por trás de cada produto, foi assim que vimos o nascimento do carro; que encurtava distancias, da prensa; que compartilhava o conhecimento, do telefone; que conectava as pessoas. Foi baseado nos propósitos mais autênticos e dignos que produtos nasceram e se desenvolveram em uma sociedade que, gradualmente, buscou evoluir em cima de um modelo econômico aonde a velocidade de evolução é a velocidade do mercado. Foi assim que o carro virou grife, o livro virou revista e o telefone virou melhor amigo.

A necessidade de alimentar este monstro que crescia rapidamente, nos fez mestres na criação da necessidade sobre supérfluo e, associado a obsolescência programada, compunha um jogo de tabuleiro dos mais nobres e sem qualquer consequência aparente. Passamos a fomentar demandas que não temos, despertar o desejo por produtos que não fazem sentido e fazer com que o novo de hoje seja o obsoleto de amanhã. Por muitos anos a máquina girou com força e evoluiu em cima da máxima do consumo, foi somente na segunda metade do século 20, em 1972 na conferência do clima, que o mundo começou a se questionar sobre o possível impacto que este modelo que depende do consumo poderia ter no nosso planeta e na vida como um todo.

Black Friday — EUA: Uma ode ao consumo.

Qualquer pessoa que esteja mais atenta já percebeu uma rápida e consistente mudança nos últimos anos… Empresas como a Box1824 souberam nos mostrar com maestria as diferenças de comportamento das gerações e o reflexo deste comportamento em uma nova geração, que vibra com liberdade, hedonismo e busca por mais propósito em suas vidas e consequentemente nos produtos que consome. Estamos presenciando o nascimento de um capitalismo consciente que aparece para humanizar e mostrar que ganhar dinheiro é bom, saudável e pode sim ser sustentável e baseado em relações de win-win-win, ou seja, bom pra mim, pra você e pro mundo. Gerar valor baseado em impacto positivo e assim aumentar a rentabilidade nos negócios.

A General Motors, empresa que simboliza tão bem a força da indústria e do automóvel, passa a sentir na pele o desinteresse do novo consumidor sobre um produto que gradativamente para de fazer sentido na nova conjuntura de mundo. A busca por canais como MTV e que conversem com o estilo de vida deste consumidor virou uma tentativa desesperada de se conectar com uma geração que entende bem as suas necessidades e não vê problema no compartilhamento de recursos para estabelecer esta relação de win-win-win, substituindo o carro por alternativas que entreguem a mobilidade que o carro proporciona de formas alternativas e que acabam por fazer muito mais sentido neste novo contexto.

Um dos principais abrigos de representantes desse modelo desfigurado de produção massificada de produtos que não fazem sentido é a China. Imagino que deva existir na enorme extensão territorial chinesa bons exemplos de empresas com consciência e responsabilidade por suas ações, mas vou focar em alguns maus exemplos, são eles que precisamos corrigir. A china é um "bom mau" exemplo não somente pelos produtos sem qualquer apelo e de péssima qualidade, mas também pela forma como os negócios são conduzidos, foco único e exclusivo na briga desleal por preço e lucro diretamente relacionado a quantidade, sem qualquer preocupação aparente relacionada ao ser humano ou ao impacto que este modelo gera sobre o mundo.

Commodity City — China

As fotos postadas pelo Bruno Monteiro no link abaixo retratam um pouco da angustiante realidade chinesa, com fábricas gerando diariamente toneladas e mais toneladas de produtos com uso de mão de obra escrava. Vejam as imagens e se nada parecer errado para você busque ser empático e se colocar no lugar daqueles trabalhadores que encaram muitas e muitas horas de trabalho por salários ínfimos.

Recentemente vi uma entrevista com o ex presidente do Uruguai, José Mujica, falando sobre suas percepções relacionadas a vida e a maneira como a sociedade vive. Encontrei na sobriedade das palavras desta grande figura uma síntese fantástica sobre a realidade que encontramos hoje e a necessidade de aprender a viver com menos, valorizando o que realmente importa.

Mujica: Aprender a viver com o que é necessário.

Pensar em um mundo aonde vivemos com o mínimo necessário é uma grande quebra de paradigma, tendo em vista o estilo de vida que a revolução industrial e o capitalismo selvagem empregaram nas últimas décadas, no entanto, já nos primeiros anos deste novo século, começamos a ouvir falar em uma nova forma de capitalismo, sobre a necessidade de entender o propósito por traz dos produtos que consumimos e da responsabilidade por parte de seus fabricantes.

Conforme aumentamos a nossa bagagem de informação no que diz respeito aos problemas envolvendo o capitalismo baseado no consumo desenfreado é impossível não ficar angustiado e cheio de dúvidas quanto ao futuro e quanto ao impacto que essas mudanças podem acarretar. A busca das pessoas por modelos alternativos e principalmente este tipo de consciência ganha espaço na sociedade e passamos a entender que o fim deste modelo e por consequência o fim destes produtos que não fazem sentido é necessário para a nossa perpetuação mas ao mesmo tempo traz uma série de preocupações, afinal a queda de um modelo leva consigo uma grande quantidade de pessoas que dependem deste modelo.

Necessário:

Optar por uma nova forma de consumir gradativamente deixa de ser um opção quando nos deparamos com as notícias relacionadas a saúde do nosso planeta. Desenvolver mecanismos que nos auxiliem a fazer isso da melhor forma possível é o grande desafio deste novo momento de mercado.

Assim com em um corpo, aonde a célula fagocita e expele tudo que representa uma ameaça, o que vamos começar a ver no mercado é basicamente o fim dessas toxinas em forma de produto que são despejados no mercado e que lotam prateleiras, estoques e lixões pelo mundo a fora na tentativa de gerar qualquer tipo de rentabilidade.

Esta movimentação que vem para desafiar a lógica do descarte por parte da indústria aparece para suprir os novos desejos de um consumidor que quer consumir menos, melhor e levando em conta o mundo que está a sua volta. O que a box1824 vem chamando de lowsumerism é na verdade a expressão máxima desse novo lifestyle, que impacta não somente na vida daqueles que optam por uma nova maneira de viver, mas também no meio ambiente e no mercado.

Falar em um mundo que possua uma mentalidade voltada para o consumo consciente ainda é uma utopia, mas o fato é que esta temática já começa a ganhar espaço nas conversas de uma nova geração e gradativamente se materializa em produtos que buscam mais personalidade, identificação com seu consumidor e deixam muito claro a fonte e a maneira como são produzidos, buscando causar cada vez menos impacto negativo no mundo e estabelecendo relações aonde todos saem ganhando.

Disruptivo:

Menos produtos, menos poluição, menos demanda… Menos trabalho? Este é um questionamento inevitável frente a estas mudanças. Na era da disrupção, aonde vemos aplicativos como Uber, Air BnB, Facebook e Instagram por exemplo, mudando a proposta de valor e criando modelos de negócio que aniquilam segmentos de mercado é inevitável pensar se essas inovações disruptivas, portanto não sustentáveis, são de fato benéficas para o nosso modelo de sociedade. Na minha humilde opinião, independente do fato de serem benéficas ou maléficas, a verdade é que elas vão acontecer e ganhar força em uma proporção nunca antes experimentada. Se preparar para esta nova conjuntura de mundo passa a ser uma obrigação para as empresas de modo geral e até mesmo para os governos, que não podem mais assistir a estas mudanças e se dar ao luxo de não ouvir e atender este consumidor ou cidadão que, empoderado pela tecnologia, tem nas mãos o poder de opinar e contagiar uma grande quantidade de pessoas na velocidade de um post.

Exponencial:

Antes de falar sobre qualquer assunto relacionado a exponencialidade e futuro acho importante fazer uma menção as empresas e pessoas que abriram meus olhos para essa realidade e que podem falar com propriedade sobre o assunto.

Primeiro a flag.cx , do Roberto Martini, Luiza Martini e Matheus Barros com o translators of disruption. A flag é uma rede de empresas disruptivas e através do clan, sua unidade de transformação de pessoas, desenvolveu este curso com o objetivo de mostrar seu processos internos e principalmente apresentar temas relacionados diretamente com exponencialidade e disrupção. Foi meu primeiro contato com o tema e pra assimilar ao máximo o conteúdo foi preciso deixar de lado uma porrada de certezas que já estavam estabelecidas dentro de mim.

Depois veio a Aeroli.to com o Tomorrow, projeto encabeçado pelo Tiago Mattos e que fala sobre a experiência dele na Singularity University e várias questões relacionadas a futurismo. Essa experiência foi mais intensa e sai desse curso alucinado pelo assunto, o que já me garante meses pesquisando e estudando diariamente assuntos relacionados a futurismo e como o design se encontra com esse universo.

Eu acredito muito que esta nova mentalidade sobre os produtos que consumimos e os reflexos desse novo modelo de consumo vão se tornar realidade conforme as pessoas se conscientizam sobre questões envolvendo esta nova forma de consumo.

Estar dentro da indústria no momento em que me aproximava dos estudos relacionados a futuro e disrupção foi uma experiência única e em alguns momentos extremamente angustiante. Reunião após reunião via no relato daqueles diretores e donos de indústria uma evidencia para tudo que o futurismo e a disrupção me apresentavam. A crise política e econômica que vivemos em nosso país é real e realmente tem um impacto gigantesco, sendo o pior deles o fato de mascarar esta outra crise que assola o mercado e que faz referência aos modelos de negócio que vão na contra mão desse novo contexto de mundo.

Optar por uma nova maneira de consumir é opcional e começa tão logo temos a consciência sobre a importância envolvendo o consumo consciente. Se este modelo de negócio linear e industrial esta relacionada ao consumo e ao consumidor imagine você o que acontece quando esta mensagem se difundi nas redes sociais em alta velocidade e liga esse "gatilho" dentro da cabeça das pessoas, transformando o conceito de consumo e a maneira como consumimos na velocidade de propagação da informação. E se antes a noticia viajava dias até cruzar o mundo, pense quanto tempo demorou para você ficar sabendo sobre os atentados de paris ou colocar o arco íris na sua foto de perfil do facebook.

Estamos prontos?

Não se trata apenas de uma mudança de comportamento, mas sim de uma mudança de modelo mental e que reflete na maneira como vivemos, consumimos e obviamente no mercado. Viver com menos não é o desafio, mas sim viver com menos entendo que temos o colapso de um modelo que impulsionou por muito tempo a sociedade. Estamos prontos para reinventar nossos modelos de negócio? Talvez não, mas na minha humilde opinião isto não é mais uma opção e redesenhar os modelos de negócio passa a ser uma constante deste novo contexto de mundo. Certamente a humanidade vivenciou crises muito maiores ao longo de sua história e talvez o que nos deixe angustiado é simplesmente a consciência sobre os fatos e o medo do desconhecido.

Em meio a todas estas mudanças o que se vê de fato é que por bem ou por mal, as empresas estão se mexendo, se abrindo para essa nova realidade e, mais do que isso, estão começando a entender que inovação não é processo, mas uma cultura que deve ser assimilada e posta em pratica diariamente! Provavelmente o grande legado deste momento impar que estamos passando, seja o entendimento de que mais do que mudar e inovar, é preciso entender o que está de fato acontecendo a nossa volta, como as nossas empresas se encaixam nesse contexto de forma proativa buscando levar a humanidade pra frente e rumo aos novos desafios.