Marlene
Todo dia ao acordar, Marlene escolhia com cuidado suas roupas, fazendo questão de vestir cores que combinavam com suas emoções.
“Como que tu ta sentindo azul mulher?”
“Não sei homem, só to me sentindo azul e só.”
E ela saia vestindo azul, não azul puro, não, ela saia vestindo azul composto. Além de um vestido azul, vestia um colar amarelo, anel e brincos vermelho, e um turbante colorido na cabeça. Saia feliz, se sentia harmoniosa.
Os que já a conheciam perguntavam “hoje está azul Marlene?”
E Marlene feliz respondia “Sim, hoje estou azul, azul composto”.
Os que não a conheciam só reparavam na mulher azul harmoniosa.
Fazia muito bem a ela vestir-se de emoções travestidas de cores. Não importava se o que vestia era alegria ou tristeza, sentir as suas emoções tocando sua pele, expostas ao mundo, dava-lhe energia, dava-lhe vida.
No dia seguinte a história foi mesma. Acordou se sentindo vermelha, mas não vermelha pura, e colocou um vestido vermelho, mas também não vermelho puro, o vestido era estampado com flores e folhas e pássaros.
“Como tu ta se sentindo hoje mulher?”
“To me sentindo vermelha homem, não vês não?”
“Pois não vejo mesmo, esse vestido seu é cheio de piricutecos!”
“Que cheio piricutecos homem, me deixe em paz” e Marlene foi colocar feliz suas bijouterias. Um colar de contas sortidas, duas pulseiras amarelas grandes e um brinco de pedra extravagante verdeágua.
Ah, e como era lindo o contraste das cores com a pele escura de Marlene. Todos se estonteavam com sua formosura, com a graça com que dava cada passo, com o enorme sorriso que estampava rosto mesmo numa manhã chuvosa.
“Por que tu ris tanto Marlene? É manhã e chove, não há sol pra iluminar, não há sol pra aquecer…”
“E eu lá preciso de sol? Me ilumino e me aqueço eu mesma!” E sorria, espalhando seu calor vermelho pelo cômodo, fazendo ninguém sentir falta do sol.