História e cultura à conta-gota
Eu tive o privilégio de crescer visitando museus, indo aos cinemas, conhecendo a cultura brasileira erudita e popular. De algumas rodas de samba, sertanejo, peças infantis e outras nem tanto, filmes que iam dos maiores blockbusters até alguma coisa muda que não me interessava tanto.
A verdade é que sempre estive em grande contato com uma efervescência cultural e, mesmo com esse privilégio, tenho até hoje dificuldades de reconhecer formas heterodoxas de manifestação cultural e expressão popular. É um preconceito que sei que não carrego sozinho, mas deixa noites em claro explorando essas contradições.
Sei que meu pensamento começa a se solidificar e entender o valor das culturas brasileiras quando entro no ensino médio. Minha escola fazia parte da história da cidade de São Paulo e por isso acabei tendo que estudar a cultura e a história do município.
A soma desses fatores, conhecer e contar a história popular e formal de São Paulo foi algo que pesou na hora de escolher o jornalismo. Nesse período que aprendi a amar e preservar nossas formas de expressão mais autênticas e a levar a tradição oral adiante, seja no papel, no áudio ou nas imagens e frames audiovisuais.
Tudo isso contribuiu bastante para que com o passar de mais de duas décadas eu começasse a entender melhor minha relação com a cultura e a arte. Ainda nebulosa, para dizer a verdade. Me considero muito mais um apreciador e participante que um criador dessas expressões.
Consegui ao menos concluir que à conta-gotas, ao longo de anos e anos que minha sensibilidade a cultura se construiu. Isso porque sempre fui estimulado, desde ouvir Caetano e Inezita no berço até a hora de leitura que minha mãe estimulou e virou hábito nos horários mais absurdos possíveis até hoje.
O que quero dizer com tudo isso não é uma conclusão, mas uma observação. A apreciação cultural consciente é uma construção. Todos apreciamos algumas formas de expressão que são autênticas artes populares, mas esse pensamento consciente não existe, a tradição oral é da nossa gente brasileira e a história não perdoa, fazendo-se esquecer muita coisa.
Desde o incêndio que atingiu o Museu Nacional uma parte de mim está inquieta e esse texto é resultado desse estado. Eu nunca fui no MN e jamais irei. O que nascer dos escombros será um museu diferente, mas certamente aprendi um pouco sobre meu relacionamento com o passado do nosso povo, a nossa educação e a nossa ciência.
É injusto eu cobrar valorização aos museus de quem chega em casa, janta e dorme porque no dia seguinte tem que acordar cedo e trabalhar. Com todos os privilégios, não valorizei nossa história como deveria. Como gente brasileira, erramos em não valorizar nossas raízes. Mas amanhã é um novo dia.
Dia 7 de setembro vem aí. Aniversário da Independência. 3 de outubro. Eleições. A liderança está com um falso nacionalista, que honestamente não vejo sequer chegando ao segundo turno. Independente do vencedor, que aqui não irei entrar em detalhes, espero que entenda a importância de valorizar a cultura e a história para a emancipação da nossa gente.
Uma gota atrás da outra, com diferentes sabores e essências, formamos o caldo tupiniquim e multifacetado que é nossa história e cultura. À conta-gotas. Sem medo ou pudor, precisamos valorizalá-las. Evitando tragédias como a do Museu Nacional e nos tornando de fato um povo livre, pois como dizia Plínio Marcos:
“Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas, jamais será um povo livre”