Uma reflexão sobre jornalismo que sempre me vem a cabeça é a questão de qual a parte mais difícil dessa carreira. Quanto mais eu penso nisso, mais chego a mesma conclusão: o trato com as pessoas que é a melhor parte de ser jornalista também é a pior.

O problema não consiste somente em ter que ouvir e lidar com opiniões que parecem vindas de um pacote da Idade Média. A questão é bem mais profunda e tem a ver com dilemas éticos que conflitam o que seria ser um bom profissional e um bom cidadão.

Muitas vezes o que seria certo para a profissão jornalística, isto é a isenção, não é necessariamente aquilo que seria o ideal enquanto membro de uma sociedade. É por isso que um grande dilema ético do jornalista é a decisão entre certo e o certo.

Recentemente tive uma conversa sobre o caso da imagem acima. O fotógrafo, Kevin Carter, congelou o momento num clique e depois deixou o garoto lá para a morte. A foto rendeu a ele um Prêmio Pulitzer, mas custou sua vida ao cometer suicídio apenas um ano depois da fotografia.

O mundo viu a imagem e julgou duramente Carter. O próprio Kevin se julgou, com veredito de morte por sufocamento. Porém, se levarmos uma visão da ética profissional ao extremo, o fotografo foi correto por seguir a risca o que manda a seu emprego e apenas registrou um fato.

Puxei essa discussão para o extremo, eu sei. A ideia é mostrar que a isenção não é o melhor caminho para o jornalismo. Pelo menos não aquele que eu quero fazer. Não acredito em seguir a risca um roteiro que diz que para fazer um grande trabalho eu devo mostrar neutralidade e não ajudar o objeto (pessoa!!!) da matéria.

Acredito que muita gente escolhe essa profissão com o sonho de mudar o mundo. Mudar no sentido macro principalmente. Eu acredito nisso até o meu último fio de cabelo, mas entro na discussão do método para alcançar esse objetivo. São fazer pequenas mudanças no micro que levam a mudança no macro, pelo menos quando falamos de jornalismo.

Quando eu penso em gente que parte ousadamente para fazer matérias que são tabus ou diálogos que precisam ser abertos, minha admiração pela pessoa cresce. Eu não sei se teria a força e a coragem de dar a cara a tapa para escrever muitos textos que leio.

Sei que eu não sou o único, muita gente não faz isso por medo de bater de frente com a realidade. Isto não se limita ao jornalismo, muitos médicos abandonam a carreira no começo da residência pela pressão que é trabalhar com a vida de pessoas. 
Não é fácil para um repórter ter de dizer a moça periférica que ele acaba de entrevistar que não tem como ajudá-la a não ser com uns poucos trocados para ele comprar o leite do filho naquele dia, assim como para o médico dizer a mãe que outra criança de apenas quatro anos não irá sobreviver.

Tudo isso são pequenos desprazeres que fazem partes das profissões em que se trabalha com pessoas. Em ambos os casos o tato é essêncial e de algum modo que ainda não sei conceber talvez isso vire algo mais natural, porque banal é impossível.

Vivemos num país desigual e a realidade é dura quando se trabalha com pessoas. Vivemos num país de pessoas maravilhosas que dão prazer de trabalhar com elas. Este é só mais um dos contrastes deste país. Resta a nós, com um bloco na mão e a caneta na outra gerar pequenas mudanças como parte de um projeto maior.

Só para não terminar o texto de forma mais esperançosa e descontraída:

A criança da imagem não morreu: http://www.jn.pt/media/interior/crianca-sobreviveu-ao-abutre-fotografo-sucumbiu-a-dor-1789058.html

E um vídeo de Hermes e Renato que consegue demonstrar o qual bizarra é a isenção total do jornalista: