Panem et Circenses

Nós Estamos a um passo do caos. Só não percebemos isso.


Vivemos em um mundo onde nossas trajetórias parecem estar paralelas ao abismo, sendo que muitas vezes titubeamos neste penhasco sem perceber. Note que, quando falo em nós, estou generalizando a humanidade como um todo, mesmo que esta ideia de igualdade por conta da espécie seja falha. Ainda creio que somos todos iguais e indiferentes por baixo da pele — seres incorrigíveis e influenciados pela cultura. Entretanto, sabemos que as divergências sociais e culturais são como uma marreta estourando as sustentações destes ideais.

Todos os dias de nossa existência, a humanidade está se arriscando, atravessando alguns milímetros deste penhasco e depois voltando para sua trajetória ordinária, em movimentos não uniformes e não planejados. Não somos todos iguais.

É como se todo esse emaranhado de coisas estivesse gerando um conjunto de consequências que fogem do nosso controle e nós tapamos a vista para tudo isso. Quer dizer, uma vez ou outra até abrimos um vão entre os dedos pra dar uma espiada, o que não nos leva a nenhuma mudança.

Ultimamente, paira sobre a minha mente os próximos meses da sociedade brasileira. De 4 em 4 anos, viramos — generalizando novamente — todos patriotas orgulhosos de uma camisa amarela. Somos brasileiros “com muito orgulho e com muito amor”. Colocamos o torneio de futebol, que talvez seja o esporte que marque uma generosa parte da cultura brasileira mesmo não tendo, de fato, sido criado aqui, acima de qualquer coisa, a qualquer custo. Desta vez, não tapamos nossa visão, pois desta forma não conseguiríamos ligar a televisão e sermos 200 milhões de brasileiros e brasileiras representados por 23 atletas. Entretanto, honestamente não sei se podemos considerar estes atletas profissionais, com salários maiores do que a maioria de muitos e muitos brasileiros vai ganhar em, no mínimo, umas cinco vidas, como os “heróis” da nossa nação em caso de a taça do mundo ser conquistada. Lembrando que não há um desmerecimento acerca da luta do jogador para atingir seu sucesso profissional. Apenas acho que o retorno de jogadores de futebol para a sociedade, em termos realmente válidos, é baixo. Ele não nos entrega conhecimento e não nos passa algo que seja útil para o progresso da nação — ele é fruto de uma sociedade cuja cultura está focada para um único e exclusivo esporte. Ou você realmente acha que não temos times de outros esportes tão bem sucedidos, pois os praticantes das outras modalidades não são bons? Eles são. Porém, como você vai ser um profissional de um esporte que não é incentivado, de verdade, por nenhum órgão público? Eu já sonhei em ser um jogador de futebol quando era criança e eu acredito que a maioria dos meninos já teve esse sonho. Nunca fui bom e eu sempre soube disso. O problema é que quando você é criança, você já é capaz de perceber a glória que as grandes estrelas do esporte recebem. Nossa cultura nos leva a idolatrá-los e talvez essa seja uma das razões para elegermos ex-jogadores como vereadores, deputados ou senadores que, politicamente, não são tão craques assim.

Acredito que o grande ponto disso tudo seja a grande festa, a grande celebração deste evento de proporções gigantescas que é a Copa do Mundo de Futebol. Acho justo o fato de sermos considerados o país com as pessoas mais receptivas do mundo e por consequência, acho natural que na nossa cultura esteja enraizado este “espírito festivo”. Todavia ao mesmo tempo acho que as festas passam dos limites à partir do momento em que elas se tornam nossas prioridades. Você ainda tem alguma dúvida de que a Copa é o evento mais importante de 2014?

O Ministério da Educação, MEC, a princípio determinou que as instituições de ensino do Brasil deveriam adequar os calendários acadêmicos para não haver conflitos com os jogos do mundial. Na instituição acadêmica que estudo, alguns professores terão uma semana entre duas avaliações por conta do curto calendário de junho, que é fim do primeiro semestre e período de avaliações intensas em maior parte dos colégios e universidades do nosso país. Será que isso é um absurdo apenas na minha cabeça? Afinal, não aceito como pode um evento esportivo ter impacto tão direto e forte sob a educação que está longe — muito longe — de ter uma qualidade que seja motivo de orgulho. Empresas terão que se adaptar durante os jogos, pois sabem que em dias de jogo da seleção os seus trabalhadores não irão pensar em outra coisa. Antes, durante e depois dos jogos, seremos bombardeados com informações, notícias, opiniões, crônicas, desinformações — tudo sobre o futebol.

Enquanto nós, meros mortais, proletariados que não participam da alta sociedade brasileira, estamos desviando nossas atenções de 2014 única e exclusivamente para o evento, muita coisa vai acontecer no nosso país. Aliás, tenho visto pouca coisa do que foi prometida acontecendo. Você deve se lembrar de que foi dito que sediar o mundial seria um catalisador para a melhoria das questões urbanas em todos os grandes centros do país. Posso estar vestindo um par de óculos de pessimismo, porém não tenho visto uma mobilidade urbana mais flexível, aeroportos modernos, hospitais públicos com qualidade e outros problemas que incrementam a lista ad infinitum.

Nós estamos a beira do caos. Não fique surpreso caso protestos contra o governo aconteçam antes e durante os jogos. Ressalto que passa longe das minhas intenções ser um negativador e reclamão, todavia não consigo sentir sequer uma pequena onda de otimismo. No meu humilde ponto de vista, estamos prestes a vivenciar um dos momentos de maior tensão cívica da história recente do Brasil. Resta saber como a mídia vai entregar isso ao telespectador, como os integrantes do “Black Bloc” vão agir e o que o governo vai dizer. Será que a sociedade brasileira vai conseguir beirar o fracasso mais uma vez e fingir que está tudo bem? Não gosto de deixar interrogações em meus textos, porém eu não consigo, de fato, prever o futuro. Por outro lado, tento analisar o passado e o presente para criar uma relação de causa e efeito mais próxima da realidade.

Vamos separar as coisas. Deixem os jogadores fazerem o papel deles, que é vencer os jogos. Nós devemos curtir a festa da Copa também. Porém, não vamos tapar nossa visão frontal e muito menos a periférica. Enquanto o Brasil estiver em campo, continue olhando para os lados.

Não adianta falar que não vai ter Copa. Não temos mais forças pra isso e seria burro evitar que este investimento absurdo, já feito, seja concretizados.

Deveríamos ter agido antes, em 2007, sendo ativo contra à candidatura do país a sediar o mundial. Não fomos. Agora, que parecemos um pouco mais acordados e menos passivos, vamos evitar que desastres maiores aconteçam futur[…]

Quer saber? Vamos deixar pra decidir tudo isso, depois do carnaval.

Nós estamos à algumas passadas de um período de colapsos. Eu não sei o que fazer para tentar ajudar a resolver isso.