UFRN contra os pobres

Daqui a sete dias começa, para mim, o sexto período do curso de Direito. São dois anos e meio frequentando — e vivendo — a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sim, não é muito tempo, mas acho que consegui compreender um pouco a dinâmica de como as coisas ocorrem lá dentro. Aprendi, lentamente, que existe pouco diálogo. Sobretudo entre os gestores da Universidade e seus viventes.

Setor II — UFRN. Foto: Victor Romero

No primeiro semestre de 2015, a UFRN foi tomada por uma onda de assaltos, sendo as paradas de ônibus — praticamente abandonadas pela administração — os locais mais recorrentes. Não obstante, aumentaram o número de seguranças e de catracas no Restaurante Universitário — certamente para proteger os frangos — provocando filas ainda maiores. E vai piorar: o segundo semestre ainda nem começou e os caras já estão pisando feio na bola mais uma vez.

A nova política dos gestores da nossa instituição entrou em prática hoje: todos os vendedores ambulantes estão sendo expulsos da Universidade. Quem quiser comer, terá de ir às lanchonetes que, em sua maioria: exercem preços abusivos, têm poucas opções de comidas (saudáveis então?) e não dispõem de empregados qualificados — inclusive chegando a desrespeitar alunos e professores, em alguns casos. São comércios que, com raras exceções, não sobreviveriam no “mundo real”, isto é, fora do monopólio vendido — vulgo licitação — pela UFRN.

Mais ambulantes = mais liberdade

Lembro da primeira vez que fui ao Setor II à noite. Quando vi aquele monte de gente nos corredores, a primeira coisa que senti foi inveja. Como não? As opções iam de Strogonoff de frango a cachorro-quente vegan, frutas frescas, açaís, diversos vendedores de salgados, enfim, uma variedade altíssima de comidas a preços justos. Parecia uma feira! Até livros e artesanatos eram vendidos. Ah, e fui atendido com um sorriso no rosto, ainda por cima. Pensei “queria que fosse assim no meu Setor ”.

Setor II — UFRN. Foto: Victor Romero

Hoje, esses indivíduos que ousaram fazer diferente e empreenderam — sem a proteção de um monopólio — estão sendo expulsos da UFRN. Expulsos para sustentar um cartel que há anos não atende a demanda dos alunos e professores de forma eficaz. Perdendo um investimento alto, pois em sua grande parte são pobres tentando vencer na vida. Mulheres e homens que sustentam suas famílias com o dinheiro ganho vendendo coxinhas, pastéis e biscoitos, por exemplo. E ainda querem dizer que eles não são empreendedores? Pra mim, eles são o conceito do termo empreender.

O ambulante, inevitavelmente, corre o risco de ter suas mercadorias e ferramentas de trabalho apreendidas pelo Estado, cujas abordagens, via de regra, são autoritárias. Mesmo assim, consegue suprir uma demanda específica melhor do que um cartel institucionalizado e dotado de infraestrutura muito superior. Quem empreende melhor, pelo visto?

É uma questão bem simples: todos nós somos livres pra escolher. E porque escolhemos os ambulantes? Porque eles são melhores, mais eficazes, têm mais opções a oferecer, pois vale a pena pagar X pra ter Y. Porque ninguém liga se eles compraram, ou não, um monopólio.

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