Montagem Cinematográfica e Acossado

O experimentalismo de Godard em “À Bout de Souffle”.

Lucia Santaella em “Por que as comunicações e as artes estão convergindo?”:
“O experimentalismo é reencenado sempre que o artista se vê diante de um novo meio de produção de linguagem e propõe-se como tarefa encontrar a linguagem que é própria do meio.”
À Bout de Souffle (1960)

Cinematógrafo e os Primeiros Filmes

FRANÇA

No final do século XIX os irmãos Lumière ficaram conhecidos por reproduzir aquele que é o primeiro filme já feito: La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (A saída da Fábrica Lumiere em Lyon, 1895). Louis e Auguste Lumière popularizaram o cinematógrafo (máquina de gravação e projeção de filmes).

Eles foram os pioneiros no audiovisual mas seus trabalhos eram apenas de registro. A saída da Fábrica Lumiere em Lyon (som adicionado posteriormente) que só registrou a saída dos operários da fábrica de negativos fotográficos da família Lumière. O filme foi projetado no Grand Café de Paris ainda em 1985. No ano seguinte, chegou a vez do famoso L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat (A Chegada do trem na Estação, 1986). Agora sim, projetado em uma sala de cinema.
*Seus filmes são facilmente encontrados no youtube. Estarão linkados no seus respectivos nomes.

Irmãos Lumière

Ainda na França no século seguinte, chegou a vez de George Méliès revolucionar o cinema. Este que é considerado por alguns o inventor do cinema, uma vez que os irmãos Lumière teria invetado apenas o cinematógrafo. Criou a primeira ficção científica: Le voyage dans la Lune (Viagem à Lua, 1902) e inovações de linguagem dando cara o que se conhece como “montagem”. Corte dos filmes, efeito de aparecimento/desaparecimento e sobreposição de imagens são as inovações mais atribuídas à ele.

George Méliès (1861~1938)

Aperfeiçoamento

EUA

Cinema já estava sendo feito em diversas partes do Mundo e no outro lado do atlântico não era diferente. Edwin S. Porter ficou reconhecido por ser pioneiro na filmagem noturna em Pan American-Exposition by Night (1901) além do pouco mais famoso Life of American Fireman (Vida de um Bombeiro Americano, 1903). Contudo, foi em The Great Train Robbery (O Grande Roubo do Trem, 1903) que Porter trouxe suas grandes contribuições como movimento de câmera, montagem paralela e narrativa.

Edwin S. Porter (1870~1941)

Doze anos depois veio um grande salto de qualidade em The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação, 1915) por D.W. Griffith, “O homem que inventou Hollywood” como está nomeada sua autobiografia. O Nascimento de Uma Nação fez com que o cinema começasse a ser visto como uma arte e Griffith aperfeiçoou tudo que veio antes: os enquadramentos (mais fechados, menos parecidos com o teatro), a duração dos planos, os movimentos de câmera e o que pra mim merece destaque; dividiu a cena em planos (como se uma unica cena estivesse sendo vista por mais de um angulo).

Consolidação

URSS

O cinema Russo completa o top 3 países mais importantes pra popularização do cinema. Quase que ao mesmo tempo Vsevolod Pudovkin (1893~1953) e Sergei Eisenstein (1898~1948) fizeram verdadeiras obras de arte e trouxeram inovações incríveis pra linguagem cinematográfica. Mat (A Mãe, 1926) de Pudovkin e Bronenosets Potemkin (O Encouraçado Potemkin, 1925) de Eisenstein.

  • Inovações de Linguagem

Vsevolod Pudovkin | A Mãe (1926):
- Montagem construtiva: pensa a cena a partir dos planos
- Montagem dramática: drama através da montagem (controlando duração dos planos e os ângulos)

Sergei Eisenstein | O Encouraçado Potemkin (1925):
- Montagem intelectual: uso de metáforas na montagem (como a cena da queda da estátua no filme)
- Procedimentos
 montagem métrica: duração dos planos
montagem rítmica: enquadramento, direção/movimento
montagem tonal: relacionada a emoção em cena
montagem atonal: todas as 3 anteriores

Sergei Eisenstein — Bronenosets Potemkin (O Encouraçado Potemkin, 1925)

A montagem cinematográfica foi crescendo e sendo lapidada ao redor do Mundo. E como toda arte, esse aperfeiçoamento ocorreu de forma devagar e através da influencia dos trabalhos anteriores. Não só a montagem, mas toda a linguagem, estética e gêneros cinematográficos. Novas tecnologias, movimentos culturais e movimentos artísticos ajudaram a moldar certas normas de gênero. 
Porém estamos aqui para falar de montagem; convenções foram sendo criadas para esconder os cortes e para dar fluidez e conforto ao espectador (montagem invisível, montagem rítmica e quebra de eixo)… Até chegarmos em 1960 e Jean-Luc Godard rasgar essas convenções no meio com Acossado.


À Bout de Souffle (Acossado, 1960)

Esqueça o protagonista bonzinho de Hollywood, esqueça montagem invisível e esqueça convenções. Roger Ebert, um dos maiores críticos da história do cinema, resumiu bem Acossado no livro “Great Movies”:

“Filmes modernos começam aqui.”
Trecho do filme “The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing” de Wendy Apple.

Nesse que é um dos primeiros filmes da Nouvelle Vague, Godard fez o que passou a ser conhecido como “jump cut”, fez quebra de eixo e colocou um ladrão como protagonista. Ele justificou seus jump cut’s pois queria cortar diretamente pra ação, não tinha nenhum outro propósito particular. Deu espaço para improvisos criando assim casualidade nos diálogos.
Foi o filme libertou o cinema, suas histórias e a forma de contá-las… Foi uma influencia direta no clássico americano Bonnie and Clyde(1967) de Arthur Penn. Hoje os jump cut’s são usados aos montes principalmente nos filmes de ação e terror e histórias de ladrões ja foram contadas milhares de vezes. A impressão é de que Godard não decidia o destino de seus personagens e sim observava. Basta criar um personagem, com uma filosofia e motivações, colocá-lo em um universo e imaginar onde ele vai parar. Acossado é de fato um marco para o experimentalismo no cinema.

Jean-Luc Godard