O calor político e seus riscos

Outra rodada de polêmicas referentes ao impeachment se avizinha. A semana que se inicia promete mais controvérsias, debates inócuos, estereótipos, manifestações e o rebuliço nas redes virtuais que produzem e replicam simplismos futebolísticos que almejam o status de análise da conjuntura política.

Vermelhos e Amarelos são parecidos em seus estados de ânimo, algo como um siamês político tropical. O grosso da quizumba ocupa o mesmo lugar social, a classe média, e replicam os mesmos lugares-comuns e cacoetes da política brasileira nos últimos anos: apostam suas fichas em líderes salvadores que esconjurarão as trevas para sempre, reclamam para si os símbolos da identidade nacional — uma imensa bobagem patriótica — e se definem como o “povo”, essa categoria que não explica nada e que frequentemente é empunhada pelos canalhas.

A ágora está tomada pelo fla-flu político alijado de qualquer tipo de autocrítica e repleto de ódio. Petistas estão certos ao exigirem que todos sejam objeto de investigação de forma isonômica, mas erram ao usar isso como pretexto para a não realização da autocrítica política e quiçá para a punição dos capos aninhados no partido — foi no mensalão que o partido começou a agonizar. Por sua vez, os defensores do impeachment acertam o alvo ao defenderem a investigação irrestrita do partido que, como ajuda do PMDB, colonizou os cargos de estatais e fez uso de uma maquina fraudulenta que despejava dinheiro na política através das construtoras, mas erram rude ao abraçarem uma Câmara Federal duvidosa encabeçada por aquele outro corrupto que é estrategicamente preservado na presidência a fim de que o projeto político do impeachment se efetive — é como querer limpar o chão sujo com merda, como alguém escreveu um dia desses!

Honestamente, não sei o que vai acontecer. O que receio é a escalada do absurdo político encarnado hoje pelo populismo salvacionista de Jair Bolsonaro. As crises tornam possíveis a existência de palcos para espetáculos políticos que visam a promoção de algum infeliz que alcança a condição de redentor, o que repristina miseravelmente o cacoete do salvador a que aludi. Bolsonaro é um vendedor de “pânico moral” que conta com o respaldo verborrágico dos tele-feiticeiros que aguardam uma chance de fazer aprovar uma agenda teocrática apinhada do moralismos que sustenta seus “empreendimentos mágico-religiosos”. Discursos dessa natureza geralmente são acolhidos na medida em que o sentimento de precariedade se expande pelo país.

Carro de Jagrená em um ritual religioso hindu em Puri, Índia. A palavra ganhou um significado interessante em inglês: uma força terrível e indomável. Imagem: http://www.postcardman.net/india/265684.jpg

Mas existem outros riscos que certamente fazem com que os políticos no Brasil fiquem minimamente preocupados. A realização do Impeachment pode provocar reações capazes de romper com qualquer tipo de represamento da indignação que foi fermentada nos últimos meses. Nesse quadro, as rodas indomáveis do “Jagrená tupiniquim” triturararão bem mais do que a Presidente e seu partido. A crítica moderada ou tardia que alguns governadores fizeram ou fazem ao Planalto parece testemunhar alguma consciência disso. Assim como a presidente, muitos governadores enfrentam a desconfiança da opinião pública em virtude de episódios que sinalizam corrupção — São Paulo e o Paraná seriam os primeiros a sentir os danos do efeito cascata. Em outras palavras, o capital político da maioria dos grandes gestores desse país pode ser profundamente arranhado pelo ânimo político pós-impeachment.

Assim como o calor que me abate nesse quinhão de terra onde ainda há algum vestígios do cerrado, o atual clima político não é saudável, não é construtivo ou lúcido. Quando a gritaria e os estereótipos ocupam o lugar da argumentação, como acontece dos dois lados da contenta, o horizonte de expectativas se torna embaçado.

Like what you read? Give João Paulo Silveira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.