eu não nasci mulher

eu não nasci mulher

eu não nasci
depilada, controlada
comedida
de sapatos altos ou de
orelhas furadas
sexualizada
eu não nasci estuprada
eu não escolhi
o fogãozinho cor-de-rosa
o vestidinho cor-de-rosa
todos os inhos e todos os rosas eu não
tive escolha
a não ser vestir
essa fantasia.
eu não nasci
sentadinha
(inha)
de pernas fechadas
"que nem mocinha"
"tira a mão
daí"
eu não!
eu nasci
aos berros
desesperada
não silenciada
nasci gritando
chorando
implorando pra ser qualquer coisa que se assemelhasse a "livre"
mas disseram:
"é menina!",
não fui eu quem escolhi.
nasci com uma vagina
e não aprendi o que era vagina
só me disseram que eu era
menina
mocinha
princesa
psiu! psssssiu! piranha!
e devia agir como tal.
eu não nasci assustada,
me ensinaram.

eu não nasci desejando
ser pequena
eu não nasci almejando
a delicadeza
mas minha força e minha grandeza sempre foram repudiadas.
você é menina.
você é menina, não pode ser bruta.
me disseram que menina era frágil.
e que eu fizesse igual menina.
eu nasci foi com vontade de rua, fiquei
de joelho ralado
eu nasci nua
sem saber que meu corpo
seria um convite
já era um convite
porque me disseram que eu era menina.
eu não nasci cuidadosa
aprendi a tomar cuidado e aprendi a sentir medo e a não ter sossego
principalmente depois que o sol se põe.
que menina tem que ser atenta
e você é menina, você não vê?
não importam os seus joelhos ralados
e sua boca suja de moleque
os rapazes na rua já sabem:
você é menina
e menina que não fica esperta...

eu não nasci
sem pelos:
depilaram
eu não nasci
de pernas cruzadas
unhas pintadas
maquiada
insegura
eu não nasci me sentindo burra
eu não nasci desejando
gerar embriões no meu útero
acreditando
que seios eram órgãos sexuais
mas me disseram
e repetiram
e nos submeteram a essa
fantasia de fraqueza
ao redor de todo o mundo
assim que nascemos.

sei que nasci humana
creio que nascemos.
desejava ainda ser humana,
uma pena.
nos transformaram em mulheres.

à beira de um ataque de nervos

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transitória, itinerante, repelente de tédio. silencio porque devo e escrevo porque não aguento.