HÉTERO SIM, E DAÍ?

Eu me lembro de quando eu me descobri heterossexual. Era bem pequeno ainda, na época do primário. Sabia que havia alguma coisa errada quando me apaixonei pela primeira vez. Ela era linda. O olhar dela era penetrante e o sorriso, hipnotizante. Eu tinha medo de falar sobre isso com todo mundo. Tinha medo do julgamento dos meus parentes, da cara de reprovação dos meus pais e de sofrer bullying na escola. Tinha medo de ela dizer que eu era defeituoso e que tinha nojo de mim. Chorei por muito tempo, me calei e percebi que eu era diferente. Logo de cara, eu tive de conviver com o peso de não poder ser quem eu era.

Na adolescência, isso era um martírio. Todos olhavam para mim como se eu fosse um ET ou um criminoso. Quando falavam comigo, vinham com medo, como se eu estivesse com uma doença transmissível por um simples toque. Isso quando não diziam, inadvertida e distraidamente, que eu era esquisito. Cara, como isso doía. Eu era apenas… Eu, porra! Ah, sim: eu tinha outros dois amigos héteros, com quem sempre andava, mas meio que vivíamos num código de ética em que um nunca perguntaria para o outro se era…Bem… Hétero. Mas sabíamos do lance: um hétero reconhece o outro de imediato, graças a uma espécie de “straighdar”. Às vezes deixávamos escapar algo como “Aquela mina é linda”, mas a vergonha vinha à tona e mudávamos de assunto.

Ficar com alguma mina tinha de ser às escondidas, sem ninguém poder ver. Eu não queria ser mais humilhado do que já era. Ouvir gritos como “Seu hétero!”, “Machinho de merda!” e afins, às vezes por parte de grupos inteiros, era de doer. Quantas vezes pensei — e tentei — acabar com o meu sofrimento e a minha vida por isso. Certa vez, o meu pai me viu prestes a pular a janela do meu quarto — desnecessário dizer o susto que ele tomou, pois morávamos no 16º andar. Ele foi a primeira pessoa para quem falei abertamente que eu era hétero. Ele chorou, claro, mas disse que me apoiaria houvesse o que houvesse — só os pais são felizes, como cantou aquele ícone que era gay. Com o meu outro pai, a coisa foi mais feia: ele me insultou, humilhou e disse aquela frase que me atravessou como uma espada Hanzo: “Sempre soube que você era meio estranho”. Ele ficou um ano sem falar direito comigo, o que doeu pra caralho, mas aos poucos foi se conformando.

Mesmo assim, o sufoco por ser heterossexual era cada vez maior. Eu já namorava havia dois anos com uma mulher, que hoje é minha parceira, mas não poderíamos assumir o nosso relacionamento. Ou melhor: eu tinha medo de ser julgado, hostilizado, demitido e de que nos agredissem com lâmpadas em plena Avenida Paulista. Era foda demais. Assim foi até o dia em que vimos um programa, desses que passam no Discovery, sobre casais heteroafetivos. Foi nesse momento quando assumimos o nosso relacionamento e decidimos ter um filho, o que chocou meio mundo. Após várias tentativas, ela não engravidava e achamos em algum momento que se tratava de algum castigo divino. Mas havia outro motivo tão traumático quanto: eu era estéril. Foi quando decidimos adotar uma criança e, sem saber, acabamos comprando uma briga das mais fodidas. Após diversas batalhas judiciais, conseguimos adotar um garoto lindo, de 7 anos, que sofreu muito mais do que uma criança poderia sofrer até nos conhecermos. Hoje formamos uma família maravilhosa, na qual o amor existe em abundância.

Eu e a minha parceira somos militantes do movimento da diversidade heterossexual e do respeito às minorias. Basta darmos alguma demonstração de carinho ou nos beijarmos em festas de amigos que alguém já olha torto — isso quando não dizem que “putaria” não é aceita no local — , mas a maioria leva de boa (mas não nos pegamos em público porque achamos desnecessário, assim como no caso de um casal normal). Mas não vou mentir: tenho medo de andarmos de mãos dadas no Ibirapuera e um bando de pit boys nos espancar. Tenho medo de, acredite, abraçar a minha irmã no meio da rua. Sabe de um caso em que pai e filha foram espancados e arrancaram a orelha do cara com um canivete, só porque os confundiram com um casal heterossexual? Não suporto pensar nessa possibilidade. A minha mulher e a minha irmã são as duas pessoas fundamentais da minha vida e não consigo conceber a ideia de alguém espancá-las pela intolerância sexual.

Vivemos numa sociedade homonormativa e ser diferente é pedir para ser visto como alguém “defeituoso”. OK, o mundo está mais tolerante e a diversidade sexual já é aceita, mas está longe de haver respeito à orientação sexual alheia. Mas EU SOU HÉTERO SIM, E DAÍ?

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