Orgulho, preconceito, resistência e direito de amar

Pense por alguns segundos no quanto cada uma dessas pessoas já sofreu apenas por ser quem de fato é ( Rovena Rosa/Agência Brasil)

Fui criado e cresci em um contexto homofóbico. Cresci em um environment no qual era normal fazer piadas homofóbicas — mea culpa: a partir do momento em que envolve preconceito, um comentário deixa de ser piada e se torna escrotice, simples assim. Era corriqueiro fazer provocações que colocassem em dúvida a heterossexualidade de uma pessoa na berlinda, como se ser homossexual fosse um crime de lesa-humanidade ou um pecado dos mais abjetos. Fazia comentários pretensamente engraçados sobre a associação entre o São Paulo (a.k.a. tricolor) e Bambi, como se fosse algo plausível para desestabilizar o adversário. Eu dizia que tinha até amigos “viados” — puta termo ridículo, não? — e se houvesse o nefasto grito “Bicha!” à época, seguramente eu gritaria também.

Mesmo sendo hétero, fui discriminado por um tempo e alvo de piadas por não ser o cara mais viril do mundo, ao passo que era introvertido e interessado em leitura, por exemplo — logo, por não ser o típico macho alfa grosseiro, a minha orientação sexual era colocada em xeque, mesmo gostando de futebol e sendo corintiano chato desde os primórdios. Quando Richarlyson jogava pelo São Paulo, apesar da sua suposta — repito: suposta — orientação sexual, eu queria vê-lo com a camisa do Corinthians pelo empenho e entrega dele em campo, e eu era julgado quando dizia isso. [Adendo: disse “apesar” há pouco com base no que eu pensava à época.]

No entanto, fui percebendo com o passar do tempo que não tenho motivo algum para ter orgulho hétero, muito pelo contrário. Sabe-se lá quanta gente magoei por causa de uma pseudo-piada ou por uma fala homofóbica. Eu não corro risco de ser hostilizado ou alvo de violência na rua por fazer coisas corriqueiras, como estar de mãos dadas na rua com a minha namorada ou beijá-la em público, de ter medo de apresentá-la para a minha família ou amigos e ser recriminado por isso, ou de estar com ela em uma happy hour e ter receio da reação dos colegas de firma. De quebra, nunca corri o risco de ser expulso de casa por causa da minha orientação sexual.

Não corro risco de ser ridicularizado na rua, na chuva, na fazenda, no trabalho, no bar ou em nenhum outro lugar por causa da minha orientação sexual. Não preciso passar pelo constrangimento de ouvir que escolhi a minha forma de amar ou que ela é algo nojento. Em resumo: não preciso ter orgulho de algo que me faz ter privilégios sociais. E antes que me apontem dedos em riste e digam que eu sou o famoso “desconstruído da porra”: eu sou escroto. Escroto pra cacete. Escroto pra caralho. Escroto pra porra. Escroto nível ouvir a namorada me dizer “Você é muito hétero!” após fazer um comentário tipicamente heteronormativo. Mas tento reduzir a minha escrotice diariamente e não posso deixar que o que digo ou falo fira alguém.

Quando uma pessoa LGBT diz ter orgulho da sua orientação sexual e da forma como se apresenta ao mundo, imagino, ela tem mais do que orgulho: ela comete um ato de resistência — ato político mesmo, tá ligado? [E peço perdão pelo vacilo por ocupar o lugar de fala que não é meu e se eu estiver errado, me corrijam, man@s LGBT]. O orgulho, suponho, é não ter medo de dizer que não precisa esconder a sua essência para seguir convenções sociais e agradar a ninguém; enfim, é dizer que não tem medo do que pensem ou deixem de pensar, de que ajam ou deixem de agir, ainda que as consequências sejam emocional ou fisicamente dolorosas. Se homofobia não existisse, lugares como a puta iniciativa Casa 1 não precisariam desistir, pois famílias não descartariam parentes LGBT como se fossem objetos defeituosos e os jogariam à própria sorte.

Algumas das melhores pessoas que eu conheço são LGBT. Quando faço menção ao famigerado orgulho hétero — chegamos ao consenso de que isso não cola e não faz sentido, correto? —, eu nego a eles e a muito mais gente o direito à identidade, o direito de amar e não ter vergonha disso. Ou seja: dizer que tenho orgulho hétero equivale a tirar-lhes o direito de ter uma vida plena.

Para quem ainda acha que isso é besteira, vamos lá: você sabia que uma pessoa LGBT morre a cada 25 horas e que, sendo assim, morre gente pra caralho por aqui só porque o seu modo de amar é visto como uma aberração? Antes que alguém lance o argumento “Hétero morre muito mais e ninguém fala nisso”: sim, a violência pública está uma porra por vários motivos, que ficarão para outra conversa. Sim, precisamos falar sobre segurança pública. Mas não existe essa de hierarquizar mortes, como se falar sobre assassinatos motivados por ódio LGBT fosse “mimimi” — ou o último recurso de quem se limita ao direito de não debater de modo adulto. É necessário falar sobre isso, sim, porque é inadmissível alguém morrer por causa da orientação sexual ou por causa do gênero com o qual se vê.

Para fim de papo: antes de vir com esse papo bizarro de orgulho hétero, pense em como esse discurso faz mal para quem está ao redor. Vai que alguém muito querido tem vergonha de ser quem de fato é por causa do comportamento ridículo de pessoas como você.