PAI

55 anos, meu velho. O tempo voa, não é mesmo? Parece que foi ontem quando você me ensinou a dar as primeiras pedaladas, sem me importar com possíveis quedas e machucados — puta metáfora sobre a vida, sejamos francos. Parece que foi ontem quando, mesmo com a minha inaptidão com a bola nos pés e a minha tendência meio kamikaze para jogar no gol, você me deu aquele apoio moral e umas dicas para antever o que os atacantes poderiam fazer. Parece que foi ontem quando você me deu lições que à época achava coisa de moleque bonzinho demais, mas que foram fundamentais: respeitar aos mais velhos, ser solidário sem me importar com quem, nunca passar ninguém para trás, ser honesto, blá blá blá and so on. Mais do que apenas ensinar isso tudo, você teve — e tem — papel fundamental na construção do homem que virei. Humano, demasiado humano, e sem vergonha de esconder defeitos, pois por meio deles é possível chegar à pretensa perfeição e chegar ao bom senso.

Os cabelos brancos dos quais você tem um quê de vergonha são mais do que fios esbranquiçados, mas reflexo de conhecimento e sabedoria imensuráveis. OK, você nasceu há 55 anos (licença poética: há 55 anos atrás), mas não há nada neste mundo que você não saiba demais. Eu, homem feito e pseudobarbado (ó o neulogismo aí), ainda olho para tu, na maior parte do tempo, com olhos de criança que contempla o seu super-herói. Vá lá, temos algumas divergências quanto à visão de mundo, mas por mais convicto que eu seja sobre o que eu defendo, sei que, no fundo, boa parte disso é reflexo do meu idealismo por vezes exagerado e do seu pragmatismo de quem viu e viveu muita coisa.

Saiba que, sempre quando me meto em alguma roubada, procuro pensar em como você sairia dela. Nas vezes em que penso em desistir da vida, sua voz surge do nada, como se me desse um wake-up call daqueles para voltar à realidade e não desistir. Ao me olhar no espelho, um pouco do seu reflexo está ali.

Por mais que a data seja totalmente sua, eu me sinto o presenteado, pois um dos maiores presentes que eu poderia ter é ser seu filho.

Seo Amaurizão, obrigado por ser o meu pai. Te amo muito mais do que o meu jeito ora blasé, ora recluso, permite dizer e demonstrar.

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