O que faz você… você?

Um dos grandes marcos da capacidade humana, lá no início do nosso desenvolvimento, quando ainda nem imaginávamos que poderíamos dominar o mundo, foi a habilidade de criar fins para meios.

Onde se via um longo pedaço de madeira, pedra e cipó, nós conseguimos ver um meio para a caça: a lança. Um sem número de inovações fizeram parte da nossa trajetória como espécie, pois conseguimos dar utilidades para objetos que outrora não as possuíam.

No entanto, quanto maior a quantidade de objetos com finalidade encontramos e usamos, maior a quantidade de objetos com importância na nossa vida. E, em que grau de importância esses objetos se encontram hoje em dia? Será que ainda podemos considerá-los meios para um fim ou um fim em si mesmos? São ainda objetos que utilizamos ou são extensões dos nosso próprios corpos?

Por que pensar nisso?

Um dos livros que estava lendo recentemente (lendo porque eu parei no meio para ler outro) tratava exatamente de como nós encaramos os meios de comunicação. Como eu quero trabalhar com comunicação, fazia bastante sentido para mim ler esse livro. É um livro antigo, de Marshal McLuhan, datado de 1964: “Os meios de comunicação: como extensões do homem”; ou “Understanding media”.

Como o título do livro em português já declara abertamente, o estudo do livro se dá sobre como os meios de comunicação deixam de ser especificamente meios e passam a ser, perceptivelmente, extensões do ser humano.

Mas, para entendermos melhor como se dá esse raciocínio, precisamos, primeiro, ter bem claro o que faz um meio ser um meio e o que faz um meio ser entendido como uma extensão ou uma parte de nós.

Entendendo o meio

Analisando a etimologia da palava — seu significado — “meio” é entendido como uma conexão que liga um princípio a um fim. Ele pode assumir diferentes representações:

  • pode ser um espaço físico, como uma estrada;
  • pode ser atitude que acarreta uma consequência específica;
  • pode ser um objeto, como um meio de transporte ou de comunicação;
  • entre outros.

A questão principal é que para nós, se nos encararmos como um princípio a partir do qual o meio nos liga a uma finalidade, o meio detém uma utilidade, porque, para nós, ele nos permite alcançar determinada finalidade. Por conta disso, atrelamos, na maioria das vezes um ou mais fins ou utilidades para cada objeto:

  • a finalidade de uma cadeira é nos permitir conforto ao não ficarmos em pé;
  • a finalidade de um tênis é nos proteger do impacto com o solo;
  • a finalidade da Apple é nos vender produtos caríssimos sem justificativa para seus altos valores;
  • e outros milhões de finalidades para diversos objetos.

Mas, no nosso dia-a-dia, nós encaramos os objetos dessa forma ou acabamos vendo eles como todo o caminho? Ou seja, encaramos eles apenas como meios ou como princípio+meio? Precisamos entender o que faz um meio ser entendido como extensão.

Entendendo extensões

Assim como grande parte do mundo atualmente, eu tenho um celular. Assim como para você, imagino, o meu celular tem diversas utilidades necessárias hoje em dia. Por isso, percebi outro dia que, mesmo em casa, sozinho, vendo um filme, eu estava com meu celular junto a mim. Outro dia, estava na cozinha e lá estava meu celular, tocando Pearl Jam enquanto eu lavava a louça. Parece que ele faz parte da minha vida, mas sempre com uma finalidade, não é? Uma trilha sonora enquanto faço uma atividade chata ou um meio de contato caso alguém queira falar comigo. Ele está comigo porque serve para alguma coisa; se não servisse, não estaria, certo? Por isso, não é uma parte de mim, não é?

Mais ou menos.

Para dizer se um objeto faz parte de nós, se pode ser encarado como extensão ou não, não podemos apenas analisar sua utilidade. Utilidade ou finalidade é o que faz um objeto ser encarado como meio. A partir dessa característica necessária é que podemos começar a pensar um objeto como extensão.

Pense comigo:

Por que a sua mão é parte de você?

Novamente, de acordo com a etimologia, “ser parte” significa representar uma fração de um todo. O todo pode ser encarado, então, como um conjunto de pequenas partes conectadas. Faz sentido?

Então, a sua mão é parte de você porque tem alguma conexão com o resto de.. bem.. você. Mas que tipo de conexão é essa?

É uma conexão sensorial. Partes do nosso corpo são partes dele porque estão ligadas por circuitos nervosos que nos permitem sentí-las. Sem esse tipo de conexão, não teríamos como afirmar se são de fato partes do todo. Dentro do nosso corpo, essa conexão acontece por meio dos nervos, meios pelos quais as sensações correm pelo nosso corpo.

Mas, fora do nosso corpo, será que é possível ter essas conexões sensoriais?

Nossos wi-fis

Nossas sensações, o que nossos nervos nos permitem experienciar, costumam estar atrelados a alguns sentimentos. Quando, sem querer, cortamos nossa mão, temos a sensação de dor, mas também podemos ter o sentimento de tristeza por termos nos machucado.

Mas essa relação sensação — sentimento, funciona apenas nesse sentido? Precisamos necessariamente de uma sensação para termos um sentimento ou o caminho pode ser o contrário?

Podemos ter um sentimento para, em seguida, experienciar uma sensação?

Essa parte é bem simples de entender. Quem já teve o coração partido sabe que é bem possível ter um sentimento de tristeza para depois sentir uma dor quase que física. É por isso que damos esse nome “coração partido”, porque realmente sentimos dor.

Em nossos cérebros, essa associação sensação — sentimento já está tão estabelecida que funciona nos dois sentidos. Podemos sim ter um sentimento e, em seguida, ter uma reação reflexo do que sentimos.

Por isso, é possível termos conexões sensoriais com experiências ou objetos fora do nosso corpo.

De volta ao princípio

Voltemos a nossa imagem inicial de princípio, meio e fim. Falamos que o meio é uma forma de ligação do princípio ao fim. Mas, agora, temos que o meio pode apresentar uma conexão sensorial com o princípio (nós). Por isso, pode ser uma parte de nós.

Fica muito mais claro, agora, entender os conceitos de dependência e deficiência. Um dependente é aquele que, para existir, necessita de algo. Caso ele seja deprivado desse algo, ele se torna deficiente, incompleto, pois o que foi retirado dele era parte do seu todo.

Quando saímos na rua sem nosso celular, sem nossa carteira ou algum outro objeto de suma importância, nos sentimos pelados, indefesos e, por vezes, incompletos.

Nos tornamos dependentes de nós mesmos. Só não entendemos que o “nós” não é necessariamente só o que entendemos como “nós”.

Agora, pergunto novamente: O que faz você… você?

http://imabeautygeek.com/2014/03/14/mirror-defense-how-to-tell-your-reflection-is-lying-to-you/

Espero que, ao longo desse texto, possa ter feito sentido e sido claro no que propus. Não somos mais só corpos, temos diversas extensões que nos fazem sentir desde prazer até dor. Queremos que elas nos causem isso? Não estou dizendo se é certo ou errado termos extensões. Estou dizendo que a adoção de uma extensão deve ser uma escolha, que devemos ter a consciência de o que encaramos ou não como extensão. Reflitamos sobre nossos todos, mas entendamos que não podemos deixar nossas extensões ditarem nossos EUs originários.


Gostou? Não gostou? Errei? Quer comentar? Fale pra mim. E, se gostou mesmo, tem um coração aqui embaixo ó! Só clicar nele :)

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.