MIA, mas não a cantora

eu sempre fui uma criança gordinha. tenho uma tia que até hoje quando me vê faz questão de lembrar que eu amava quando meus primos não terminavam seus lanches porque aí eu poderia comer o resto deles. isso mesmo, o resto. e de criança gordinha passei pra adolescente com sobrepeso — o irônico nisso tudo é que durante a escola, onde dizem ser a pior fase da vida nunca sofri nenhum tipo de bullying a respeito do meu corpo. pelo menos não na minha frente, — aos 15 anos eu pesava quase 80 kg. minha altura? pouco menos de 1m60.

mas preciso voltar no tempo outra vez pra explicar o motivo de estar escrevendo isso ou, pelo menos, a razão de querer me abrir agora. antes mesmo de saber escrever fui visitar minha mãe no hospital. ela tinha saído de uma cirurgia plástica na barriga, tinha colocado silicone e feito lipoaspiração. tudo ao mesmo tempo. precisava se sentir bonita, acho eu. nunca perguntei. mas provavelmente seria afirmativa a resposta. a experiência de vê-la no hospital e depois em casa, completamente dolorida, torta, quase sem se mexer me deixou profundamente abalada. são algumas das poucas memórias de infância que guardo até hoje. minha mãe travava uma batalha contra o próprio corpo. ali, sem saber, eu também começava a minha luta.

sou de uma família de italianas robustas, quadris largos, seios grandes e lindos. e todas, sem exceção, temos tendência a engordar. assim os anos se passaram e eu segui numa montanha russa de engorda-emagrece-engorda muito-emagrece mais ainda que detonou o meu corpo. ganhei estrias nos lugares mais inimagináveis. me sentia a pior das mulheres, a menos desejada, a mais feia entre todas as minhas amigas.

em 2004, cheia de raiva por não ficar bem em um biquíni e por ouvir repetidamente durante um verão inteiro meus primos me chamarem de ‘gordana’, descobri uma forma de continuar comendo tudo o que eu queria — e, acredite, minha fome é brutal — sem que as calorias me fizessem companhia. no banheiro do nosso apartamento da praia que eu ingeri quantidades absurdas de bolachas, refrigerantes, sorvetes e… vomitei tudo.

pra piorar: a sensação era maravilhosa. eu descontava a minha frustração em não ser a mina mais gostosa da cidade em doses cavalares de trakinas e não precisava me preocupar. eu deixei de me preocupar com a minha saúde porque estava obcecada em comer tudo e depois devolver pro mundo da pior forma possível. e aí, óbvio, eu fui emagrecendo. cheguei ao meu peso mais baixo quando entrei na faculdade. 55 kg. tava radiante com o peso, mas ainda achava que precisava mais. e eu podia comer o quanto quisesse, porque agora eu tinha a bulimia ao meu lado. ela dormia e acordava comigo. ela me olhava no espelho e insinuava que os ossinhos que surgiam na cintura ainda não eram suficientes. queria mais.

comecei a namorar. ele sabia do problema e não sabia o que fazer. era meu cúmplice no crime que eu cometia diariamente contra a minha vida. mas ele não teve culpa, era algo que eu mesma tinha que resolver. afinal, esse exercício de comer e vomitar deixa sequelas graves e hoje eu sei disso muito bem. todavia, as idas ao banheiro se tornavam cada vez mais frequentes e as técnicas pra fingir que estava tudo ótimo também foram se aprimorando. a internet é aliada de quem tem bulimia e anorexia (ou pra piorar, ambas). basta dar um google para comprovar isso. meus pais nunca desconfiaram. tirando uma vez em que a minha mãe perguntou “tu anda vomitando?” e eu, com a cara mais deslavada do mundo, respondi que não, que não ~ia aos pés há dias ~e por isso demorava um tantinho mais.

a bulimia te transforma numa refém. a gente tenta sair mil vezes, promete que ‘nunca mais, essa é a última vez’ e acaba sempre retornando pro mesmo padrão. 5 pedaços de pizza. 1 pacote de bolacha. 2 barras de chocolate. puxa a descarga. boa noite.

a sensação que tive durante os quase 5 anos em que vivi nesse cárcere interno era de que eu precisava me sentir cheia por dentro pra depois aliviar — toda a falta de amor próprio, atenção que eu julgava não receber, as contas que se acumulavam no final do mês e que faziam a mãe sofrer em cima da calculadora— eram deixadas de lado quando eu me trancava no banheiro e esvaziava o estômago. onde quer que eu estivesse. era como se colocasse pra fora todos os meus medos e inseguranças. ilusão. era botar o pé pra fora do banheiro pra que tudo voltasse. cada vez com mais força.

a grande verdade é que eu nunca aceitei o meu corpo. luto contra a balança desde que nasci. sempre vi minha mãe tomando remédios para emagrecer e como falei lá em cima, se submetendo a procedimentos cirúrgicos perigosos pra tentar chegar a um padrão que não precisa existir. mas sei que a culpa não foi e nunca vai ser dela. no fim, somos todas vítimas. ela também sofre com o próprio peso até hoje.

daquele verão de 2004 muita coisa aconteceu. por incrível que pareça, há anos não coloco o dedo na garganta. busquei ajuda em livros, conversei com meninas que passavam pelo mesmo e nos poucos documentários que existem sobre o assunto. nunca tive coragem de procurar um profissional pra me tratar. afinal, vomitar não é bonito. é nojento, é comida mastigada, é o que vira cocô depois. todas nós temos vergonha. mas é o que acontece com meninas e meninos como eu e você.

por um milagre, por intervenção divina, eu acho que estou curada. o processo é demorado. às vezes, depois de uma refeição mais pesada, a memória de que eu tenho como acabar com o desconforto assombra meus pensamentos. mas eu quero ser forte, continuar sendo forte. porque nenhuma comida vai te machucar mais do que o teu distúrbio alimentar. por sorte, meus dentes não caíram, meus cabelos não caíram, não fiquei estéril, não tive úlcera. tenho uma leve azia eventualmente. e feijão não consigo mais comer. por algum motivo meu organismo não digere mais, só que duvido que tenha relação com tudo que falei aqui. eu nasci com um trevo de 4 folhas na cabeça e não sabia. eu poderia ter morrido. se bem que em partes eu morri: a jordana bulímica não existe mais.

hoje, batendo na porta dos 30 anos, consigo perceber que talvez eu jamais seja exatamente “magra”, mas assim como disse um grande amigo há alguns minutos, venho tentando me nutrir daquilo que me faz bem e em quantidades que posso suportar.

nunca me senti tão viva, tão mulher, tão bonita. amo minhas tatuagens, não tenho mais vergonha das minhas estrias e posto fotos com celulites aparentes nas minhas redes sociais. foda-se. eu sou assim. tenho comigo as melhores pessoas, que me aceitam, me amam, me admiram. por que então eu não seria capaz de fazer o mesmo? pois eu sou.

melhor é engolir um espelho e aprender que bonito é o que a gente é por dentro. e isso posso garantir pra vocês: finalmente me descobri linda — mesmo que ninguém mais além do meu namorado, pai, mãe e melhores amigos concorde com isso.

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